terça-feira, 16 de março de 2010

CAPÍTULO 10 - História e Conhecimento do Passado

HISTÓRIA E CONHECIMENTO DO PASSADO


“Para resumir, não pode existir história "do passado da forma como ele de fato aconteceu"; somente podem existir interpretações, e nenhuma com caráter final; e cada geração tem o direito de estabelecer a sua própria. Não tem apenas o direito de criar suas próprias interpretações, mas também tem uma certa obrigação de fazê-lo, pois existe uma questão a ser respondida. Nós queremos saber como nossos problemas estão relacionados com o passado, e desejamos ver a linha ao longo da qual podemos progredir para a solução daquilo que sentimos, e que escolhemos, como nossas principais tarefas”.(Karl R. Popper. The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 268).


Introdução


Neste texto, pretende-se apresentar alguns aspectos da teoria do método da história, no sentido de argumentar que ela implica uma interpretação engenharial do tipo de conhecimento que é possível sobre o passado e daquilo que podemos fazer com o conhecimento da história.

A teoria do método em história será reconstruída aqui com base em três posições. Primeiramente, pode-se argumentar em favor da tese de que existem algumas diferenças entre a estrutura das explicações que são construídas em história e a das ciências naturais, pois o modelo de explicação baseado na formulação de uma lei geral ("covering law model of explanation") não pode ser utilizado nas explicações históricas.

A segunda tese é que existem certos aspectos dos fatos históricos que os tornam particularmente importantes para considerações de ordem metodológica. A idéia de que os fatos não podem ser freqüentemente repetidos, e que as teorias históricas têm forte influência no ponto de vista do coletor desses fatos, pode facilmente conduzir à idéia de que as teorias históricas não são testáveis e, conseqüentemente, não são científicas.

Finalmente, aqui será argumentado que as teorias da história, como "interpretações gerais", não são científicas, devido a seu caráter circular e sua irrefutabilidade. Porém, como "interpretações específicas", elas têm algum mérito determinado.

Essas posições serão aqui examinadas para se chegar à conclusão que há sustentação para a tese de que as explicações utilizadas pela história são científicas. Porém, não existe uma ciência histórica propriamente dita. Nesse sentido, a atividade do historiador estaria mais próxima da "engenharia" do que da produção de conhecimento teórico.

No que se refere às explicações históricas, elas são aqui consideradas em termos de "tecnologia social", de forma diferente, portanto, do que haveria de ser
concluído se fosse possível argumentar em favor da existência de uma ciência da história. Isto é, o conhecimento histórico é aqui considerado como um certo tipo de ciência aplicada. Nesse sentido a tarefa dos historiadores pode ser considerada próxima daquilo que fazem os engenheiros. Da mesma forma como ocorre com estes últimos, eles estariam interessados em prognósticos e não em explicações.

Essas teses, embora tenham sido desafiadas em muitas ocasiões, não foram ainda exaustivamente discutidas. Neste texto, pretende-se reforçar a sugestão de que existem boas razões para explorar a "concepção engenharial" do trabalho do historiador e as suas implicações para a metodologia de trabalho em história.


1.


Existem certas limitações à aplicação do princípio da unidade do método científico ao campo da ciência histórica. O que isso significa é que, embora se possa aceitar a tese da unidade de método entre as ciências sociais e as ciências naturais, existem limitações para a tese da identidade de método entre as ciências naturais, as ciências sociais e a história.

Podem ser apresentados dois importantes argumentos para provar que existem diferenças na estrutura da explicação causal em ciências teóricas (tais como a sociologia, a teoria econômica, a teoria política etc.), de um lado, e a ciência histórica, de outro.

Com o primeiro argumento pretende-se demonstrar que (a) a história é caracterizada por seu interesse em eventos atuais, específicos ou singulares, e não em leis ou generalizações.(1)

E, no segundo argumento procura-se demonstrar que: (b)aquelas leis universais que a explicação histórica usa não fornecem um princípio seletivo e unificador, não indicam um "ponto de vista" para a história.

O primeiro argumento (a) apareceu pela primeira vez na obra de K. Popper intitulada “The poverty of historicism”, em 1957. O segundo argumento (b) pode ser encontrado no livro de K. Popper intitulado “The open society and its enemies”, em 1945. Embora tenham sido produzidos em tempos diferentes, é muito difícil separar esses dois argumentos.

Ambos pressupõem uma visão específica da explicação científica. Assim,
dar uma explicação causal de um certo evento significa derivar dedutivamente uma proposição (que será chamada previsão), que descreve esse evento, usando como premissas da dedução algumas leis universais juntamente com certas sentenças singulares ou específicas às quais podemos chamar de condições iniciais. Por exemplo, podemos dizer que demos uma explicação causal do rompimento de um certo fio se sabemos que esse fio seria capaz de suportar um certo peso, e que um
peso maior que esse foi colocado sobre ele.

Assim, os componentes estruturais de uma explicação científica podem ser encontrados no exemplo fornecido acima. Ademais, se analisarmos essa explicação causal, então, notaremos que dois constitutivos diferentes estão envolvidos nela: 1) Assumimos algumas hipóteses que têm o caráter de leis naturais universais; em nosso caso, talvez seja: "sempre que um certo fio é submetido a uma tensão superior, a uma certa tensão máxima, característica para aquele fio em particular, então ele se romperá". 2) Assumimos algumas proposições específicas (as condições iniciais) referentes ao evento particular em questão; em nosso caso, podemos ter duas afirmações: "para este fio, a tensão característica máxima, com que ele poderá se partir, é igual ao peso de um quilo”, “o peso colocado sobre este fio possui dois quilos de peso". Portanto, temos dois diferentes tipos de afirmativas que, juntos, constituem uma explicação causal completa, a saber: 1) proposições universais com o caráter de leis naturais; e 2) proposições específicas referentes ao caso especial em questão, as condições iniciais.(4)

A principal conseqüência metodológica da estrutura das explicações científicas é a dedutibilidade das conseqüências, com base nas condições iniciais. Assim, as leis, juntamente com as condições iniciais, formam as premissas desse silogismo, cuja conclusão é o enunciado que descreve um prognóstico sobre o evento.

Assim, das leis universais podemos deduzir, com a ajuda das condições iniciais, a seguinte proposição específica: "esse fio se romperá". Essa conclusão podemos também chamar de uma previsão. As condições iniciais (ou, mais precisamente, a situação descrita por elas) são costumeiramente chamadas de causa do evento em questão, e a previsão (ou melhor, o evento descrito pela previsão) como o efeito: por exemplo, podemos dizer que colocar um peso de duas libras sobre um fio capaz de suportar somente uma libra teria sido a causa do rompimento do fio.


2.

A posição aqui apresentada parte da idéia de que existe uma distinção fundamental (" ... tão freqüente e enfaticamente reafirmada pelos melhores historiadores...") entre as ciências históricas e as ciências teóricas. Essa distinção consiste em que, enquanto as ciências teóricas estão principalmente interessadas em encontrar e testar leis universais, as ciências históricas consideram seguras todas as leis universais e estão principalmente interessadas em encontrar e testar proposições particulares.(6)

O argumento consiste em afirmar que aquilo que constitui a segunda parte da proposição - isto é, que as ciências históricas consideram seguras todas as leis universais e que estão principalmente interessadas em encontrar e testar proposições particulares - é perfeitamente compatível com a análise do método científico anteriormente apresentada.

Podem ser construídas duas descrições da estrutura lógica das explicações históricas. No primeiro caso, dado um evento singular, as ciências históricas podem buscar as condições iniciais, que juntamente com as leis universais (e Popper acrescenta " ... as quais podem ser de pouco interesse...") explicam o referido evento singular.(7)

No segundo caso, as ciências históricas podem estar voltadas para o teste de uma hipótese particular. Isso significa que essa hipótese singular pode ser usada, juntamente com outras proposições singulares, como uma condição inicial, baseada na qual pode-se recorrer a leis universais no sentido de deduzir alguma previsão nova "... que pode descrever um evento acontecido no passado distante, que pode ser confrontado com a evidência empírica ...... tal como documentos, inscrições etc.” (8)

Isso tudo permite a Popper concluir seu argumento afirmando que “...é somente em história que estamos realmente interessados na explicação causal de um evento particular. Nas ciências teóricas, tais explicações causais são principalmente um meio para diferentes fins - o teste de leis universais.” (9)

Contudo, esse argumento não pode ser tomado como suficiente para demonstrar a existência de uma distinção metodológica entre as ciências históricas e as ciências teóricas, conforme parece ser o que pretende Popper, pois o argumento infere que determinadas características psicológicas dos historiadores seriam suficientes para apontar a existência de certas particularidades da estrutura lógica das explicações em história. Essa inferência parece, contudo, indevida.

O argumento de Popper parece assumir que aquelas características baseadas nos aspectos psicológicos dos historiadores, que procuram por explicações históricas, têm significado metodológico. Quando ele propõe que a história se caracteriza por seu interesse em eventos particulares, ele está descrevendo o mecanismo psicológico que opera quando as pessoas fazem explicações históricas. Isso porque o interesse das explicações históricas depende das intenções das pessoas.

Dessas considerações, pode-se concluir que essa descrição não corresponde à estrutura lógica do conhecimento histórico. Isso significa dizer que, da análise dos mecanismos psicológicos que são utilizados pelas pessoas quando fazem explicações históricas, não se pode concluir que existam distinções metodológicas entre as ciências históricas e as ciências teóricas.

O próprio Popper defende em outra passagem que a distinção entre o uso de uma teoria para o propósito de explicação, ou predição, ou teste, depende de nosso interesse. Ela depende daquilo que consideramos como nosso problema, daquilo que assumimos, ou tomamos como garantido. Não existe diferença na estrutura lógica das teorias usadas para diferentes propósitos.

O ponto central da crítica que aqui se pretende estabelecer ao argumento de Popper consiste em que, quando ele afirma que "a história é caracterizada por seu interesse em eventos singulares", ele está se utilizando de uma descrição do processo psicológico de certos historiadores.

Ademais, ainda que pareça razoável supor que os historiadores não estão interessados na formulação de leis históricas universais, isso não dispensa as explicações históricas de estarem fundamentadas em leis universais. Só nesse sentido se poderia falar em explicações científicas (explicações causais) em história. Como diz o próprio Popper: “... um evento singular é a causa de outro evento singular - que é o efeito apenas em relação a algumas leis universais.”(10)

Portanto, as leis universais são necessárias em qualquer explicação científica. Apesar do interesse que os historiadores têm por eventos singulares, isso não os dispensa da necessidade lógica de recorrer a leis universais. Popper afirma:
“... via de regra, se estamos interessados em eventos específicos e em sua explicação, tomamos como certas as várias leis universais que julgamos
necessárias.” (11)

Dessa forma, se necessitamos de leis universais para produzir uma explicação científica, então, não há fundamento para a afirmativa de que os historiadores usam leis universais, mas estão interessados em eventos particulares. Esse seria um assunto psicológico, sem qualquer significado metodológico.

Essa noção do caráter psicológico das ciências históricas é claramente indicado na seguinte passagem: “Essa visão da história torna claro por que tantos estudantes de história e seu método insistem que é o evento particular que os interessa, e não qualquer lei histórica universal. A generalização pertence simplesmente a uma linha de interesse diferente, que pode ser claramente distinguia daquela que se interessa por eventos específicos e sua explicação causal, que se constitui no interesse da história. Aqueles que estão interessados em leis devem voltar-se para as ciências generalizantes (a sociologia, por exemplo). Nossa visão também torna claro por que a história tem sido tão frequentemente descrita como "os eventos do passado como de fato aconteceram". Essa descrição traz à tona o interesse específico do estudante de história, como oposto àquele de um estudante de ciência generalizadora, apesar de que devamos apresentar certas objeções a isso.” (13)

O que aqui se pretende argumentar é que Popper parece correto quando estabelece que os historiadores não dispõem de leis universais de natureza histórica. Portanto, que os historiadores não se utilizam de leis históricas em suas explicações causais de eventos singulares. As leis são tomadas como certas, sem maiores considerações. Contudo, o argumento não é suficiente para justificar a impossibilidade da formulação das leis históricas. Se essa objeção estiver correta, então, pode-se dizer que o argumento de Popper está correto quando indica o caráter engenharial do conhecimento histórico. Porém, ele se engana em tentar justificar a impossibilidade de leis universais em história, oferecendo a posição insustentável de que isso decorre do interesse manifesto pelos historiadores quando constroem suas explicações causais.

Popper argumenta que os historiadores estão interessados na explicação causal de um evento específico e na descrição de eventos específicos enquanto tais.(14) Desse ponto de vista, os historiadores têm duas tarefas importantes: o desembaraçamento das ligações causais, pela consideração do evento como um fato típico; e a descrição de acontecimentos interessantes, enfatizando a peculiaridade do evento, e descrevendo-o como único. (15)

Nesse sentido, qualquer explicação científica de tendências históricas, e todos os testes de leis históricas, serão excluídos do domínio das ciências históricas.

Parece que o conceito de história implicado no argumento de Popper envolve a posse de habilidades técnicas muito mais próximas das necessárias em engenharia, arqueologia, contabilidade do que aquelas que são úteis na produção de ciência pura. (16)

No argumento, Popper afirma que, em seu procedimento, as ciências históricas pressupõem o caráter instrumental das leis universais. Ele diz: “As ciências históricas, pode-se dizer, não apresentam uma atitude isolada na forma como consideram as leis universais. Onde quer que ocorra uma aplicação da ciência a um problema especifico ou singular, encontramos uma solução parecida. O químico prático, por exemplo, que deseja analisar um certo composto - um pedaço de pedra- dificilmente considera qualquer lei universal. Em vez disso, aplica, provavelmente sem pensar muito, certas rotinas técnicas, que, de um ponto de vista lógico, são testes de uma hipótese singular como a seguinte: "Este composto contém enxofre." Seu interesse é principalmente histórico
a descrição de um conjunto de eventos específicos, ou de um corpo físico individual. (17)


3.


No segundo argumento, se pretende provar que existe distinção entre a função da leis gerais nas ciências generalizantes e nas ciências históricas. O argumento é que, nas explicações históricas, as leis universais envolvidas não fornecem um "ponto de vista" para a história.

Popper inicia alegando que a explicação científica tem caráter seletivo. Ele afirma: “Mesmo a ciência não é um mero "coas de fatos". Ela é, em última instância, uma coleção e, como tal, é dependente do interesse do coletor, depende de um ponto de vista. Em ciência, esse ponto de vista é habitualmente determinado por uma teoria científica; isto é, selecionamos dentre a infinita variedade de fatos, e da infinita variedade de aspectos dos fatos, aqueles fatos e aqueles aspectos que são interessantes porque estão mais ou menos ligados com alguma teoria científica preconcebida.

O argumento é que existe uma infinita riqueza e variedade nos possíveis aspectos do mundo que podem ser estudados. Contudo, temos apenas um número finito de palavras. Assim, toda descrição será sempre uma seleção de fatos que podem ser potencialmente descritos. Não há como evitar essa situação.

Essa situação é comum a todas as ciências. Popper afirma que isso é enfaticamente verdadeiro no caso das descrições históricas. Ele afirma: "Portanto, em história, assim como em ciência, não podemos evitar a necessidade de um ponto de vista". (19)

Popper assegura que existe uma diferença entre a "parte exercida" por um "ponto de vista" em história e aquela exercida por um "ponto de vista" nas ciências naturais. Nas ciências naturais o "ponto de vista" é usualmente representado por uma teoria científica que pode ser testada pela procura de novos fatos. (20) Dessa forma, as teorias fornecem um "ponto de vista" ou determinam o caráter seletivo das ciências naturais. Contudo, isso não é tão simples em história, pois não podem existir leis históricas; as leis que a história eventualmente usa são tiradas de outras ciências, tais como a sociologia, a economia ou a política. Por essas razões, em história, o problema de seu "infinito objeto" está marcantemente presente.

Em história, somos confrontados, muito mais do que nas ciências generalizantes, com o problema de seu "infinito objeto", porque as teorias ou as leis universais da ciência generalizante introduzem unidade, bem como um "ponto de vista"; elas criam, para toda ciência generalizante, seus problemas e seus centros de interesse, bem como de pesquisa, de construção lógica e de apresentação. Mas, em história, não temos essas teorias unificadoras, ou melhor, a totalidade das leis universais triviais que usamos são tidas como seguras; elas são praticamente sem interesse e totalmente incapazes de trazer ordem ao assunto. (21)

A conclusão desse argumento é que, nas ciências históricas, as leis universais que são usadas pela explicação histórica não fornecem um “ponto de vista" para a história. Dessa forma, esse "ponto de vista" só é fornecido em um sentido muito limitado pela natureza do objeto particular em consideração, tal como a história do poder político, a história das relações econômicas, a história da matemática etc.

Antes de examinar algumas das implicações que seguem-se do argumento apresentado, vejamos uma crítica geral do método utilizado por ele quando afirma a existência de limitações à aplicabilidade do método científico em história.
Parece que, em seu primeiro argumento (a), quando alega que a história só se interessa por eventos singulares, Popper se baseia no pressuposto de que não existem leis históricas. No segundo argumento (b), no qual pretende provar que as leis universais envolvidas nas explicações históricas não fornecem um "ponto de vista" para a história, isto é, que não existem leis históricas, ele assume que a história só se interessa por eventos singulares. (22)

A conclusão de Popper para o argumento "b" tem dois corolários. O primeiro refere-se à natureza dos fatos históricos e o segundo volta-se para a natureza das teorias históricas.

4.


Popper argumenta em favor da tese de que "várias teorias históricas são, em seu caráter, muito diferentes das teorias científicas". A razão para isso é que a história sofre limitações muito especiais no que se refere aos fatos a sua disposição, pois: a) os fatos históricos não podem ser repetidos segundo nossa vontade e b) são coletados de acordo com um ponto de vista preconcebido.

Assim, a diferença entre as teorias científicas e muitas teorias históricas consiste em que estas são "teorias não-testáveis". O argumento completo afirma o seguinte: “Agora, é importante constatar que várias "teorias históricas" (elas seriam melhores descritas como quase-teorias) são, em seu caráter, amplamente diferentes das teorias científicas. Porque, em história (incluindo as ciências naturais históricas, como a geologia histórica), os fatos a nossa disposição são frequentemente muito limitados e não podem ser repetidos ou implementados conforme nosso desejo. E eles foram coletados de acordo com um ponto de vista preconcebido; as "fontes" da história registram apenas tais fatos, conforme pareçam interessantes para serem registrados, de forma que a fonte haverá de, frequentemente, conter apenas os fatos que sejam conformes com a teoria preconcebida. E na hipótese de não haver mais fatos disponíveis, será freqüentemente impossível testar essa teoria ou alguma teoria dela decorrente. Tais teorias históricas não-testáveis podem, então, ser acusadas de serem circulares, no sentido em que essa acusação tem sido injustamente feita contra as teorias científicas.” (23)

Esse argumento, contudo, não parece suficiente para a conclusão à que pretende chegar. As restrições sugeridas por Popper em “a" e "b" poderiam ser igualmente referidas a várias teorias científicas. Nesse sentido, diversas teorias científicas poderiam ser tidas como "não-testáveis". Muitas teorias científicas são dependentes de fatos que não podem ser repetidos ou implementados segundo nosso desejo. Existem fatos em biologia, geologia, astronomia, entre outras, cuja ocorrência não dependem de nossa vontade. Ademais, o próprio Popper afirma, em outra passagem, que a ciência não é meramente um "corpo de fatos", mas uma coleção de fatos que dependem do "ponto de vista do coletor". (24) E, dessa forma, todos os fatos em ciência foram coletados de acordo com um "ponto de vista" preconcebido.

Certamente, existem diferenças entre os tipos de fatos para os quais está voltada cada ciência. Mas disso não se segue que os fatos históricos são caracteristicamente diferentes dos fatos dos quais se socorrem as ciências naturais. Portanto, da consideração da natureza dos fatos não nos parece apropriado concluir pela afirmativa de que há justificativa para distinções ou limitações metodológicas às ciências históricas. Contudo, algumas diferenças em seus enfoques certamente influenciaram o desenvolvimento das ciências. É preciso que se constate que algumas ciências se desenvolvem mais facilmente do que outras, porque se envolvem com problemas mais fáceis de resolver. (25)


5.


Popper distingue dois tipos de teorias históricas: as "interpretações gerais" e as "interpretações específicas". Por "interpretação geral", entende-se as teorias históricas não-testáveis, que se caracterizam por serem circulares, isto é, são teorias para as quais os fatos só são anotados se concordam com a teoria. Essas interpretações de fatos históricos só contêm aqueles fatos que já foram interpretados pela teoria preconcebida. A circularidade de tais teorias históricas consiste, portanto, em sua relação com os fatos. Os únicos fatos disponíveis para testar a teoria são aqueles estabelecidos ou escolhidos sob a luz da própria teoria. Portanto, para essas "interpretações gerais", os fatos não podem fornecer base nem para refutação nem para confirmação. Popper diz:
“As interpretações são importantes desde que representem um ponto de vista. Mas vimos que um ponto de vista é sempre inevitável, e que, em história, uma teoria que pode ser testada e tem, portanto, caráter científico só raramente pode ser obtida. Logo, não devemos pensar que uma interpretação geral pode ser confirmada por sua concordância mesmo que seja com todos os nossos registros, pois devemos lembrar de sua circularidade, bem como do fato de que sempre haverá uma variedade de outras (talvez incompatíveis) interpretações, que concordam com os mesmos registros e que raramente podemos obter novos dados, capazes de servir, como os experimentos cruciais em física. (26)

A conclusão do argumento é que deveríamos abandonar a ingênua idéia de que: "...qualquer conjunto definido de registros históricos pode sempre ser interpretado de uma única forma.” (27) Com essa análise, Popper pretende estabelecer bases para sua tese de que as teorias históricas, diferentemente das teorias científicas, deveriam ser consideradas "interpretações gerais". Ele, então, argumenta que tais "interpretações gerais" são circulares ou teorias não-testáveis.

Contudo, o argumento não parece ter sucesso em estabelecer boas razões para as supostas limitações metodológicas das explicações em história. Se aceitamos a tese popperiana de que a falseabilidade das teorias depende de seu caráter lógico, então, por que motivos as teorias históricas não poderiam ser construídas em termos falseáveis? Bastaria que as teorias históricas fossem construídas de tal forma que os requisitos lógicos da falseabilidade fossem satisfeitos. (28)

Popper parece correto quando argumenta que só raramente somos capazes de obter novos dados que sirvam de experimentos cruciais em física. Contudo, não é impossível que esses novos dados sejam encontrados e, de fato, eles têm sido encontrados. Portanto, nada impede que também sejam obtidos experimentos cruciais em história.

Não parece bem sucedido o esforço argumentativo de Popper para provar que existem limitações ou impedimentos lógicos e metodológicos para a construção de explicações científicas em história.

Popper também argumenta que existe um outro tipo de teorias históricas, que ele identifica como "interpretações específicas". Ele admite que as interpretações históricas variam em seu mérito. O que lhes dá mérito é a evidência em favor de cada hipótese histórica singular. Popper diz: ”Pode haver uma quantidade considerável de progresso, mesmo no campo da interpretação histórica. Ainda mais, podem existir todos os tipos de estágios intermediários entre "pontos de vista" mais ou menos universais e as hipóteses históricas específicas ou singulares acima mencionadas, que têm o papel de condições iniciais hipotéticas e não de leis universais na explicação de eventos históricos. Freqüentemente, elas podem ser suficientemente testadas e são, portanto, comparáveis a teorias científicas. Mas algumas dessas hipóteses específicas parecem muito semelhantes àquelas quase-teorias universais que chamei de interpretações, e podem ser classificadas, com elas, como "interpretações específicas". Porque a evidência em favor de tais interpretações específicas possui freqüentemente caráter tão circular como a evidência em favor de algum "ponto de vista universal.” (29)

O argumento afirma que se pode ter progresso no campo da interpretação histórica e que isso é possível porque: a) "Existem sempre interpretações que não estão realmente de acordo com os registros aceitos"; b) "Existem algumas [interpretações históricas] que necessitam de um número de hipóteses auxiliares mais ou menos plausível para que escapem da falsificação causada pelos registros"; e c) "Existem algumas [interpretações históricas] que são incapazes de ligar um certo número de fatos que uma outra interpretação pode conectar e, portanto, explicar". (30)

Contudo, se seguimos o argumento de Popper anteriormente apresentado, "a" parece impossível de acontecer, porque, se assumimos a circularidade das interpretações históricas, então, nunca acontecerá de uma interpretação contrariar os fatos, posto que estes são sempre registrados em concordância com as teorias. Conseqüentemente, a posição "b" será falsa, porque não existirão registros falseadores de uma interpretação histórica. E, finalmente, "c" será também falsa, porque toda interpretação histórica só haverá de considerar como fatos aqueles que ela interpreta e explica como tais.

Como conseqüência de sua teoria da circularidade (ou não-testabilidade) das teorias históricas, Popper defronta-se com o problema de oferecer um critério de escolha entre duas interpretações históricas concorrentes e incompatíveis. Ao fazer isso, ele recorre a uma curiosa distinção entre "interpretação" e "ponto de vista". Popper argumenta que as interpretações históricas podem ser incompatíveis, mas não podem sê-lo quando consideradas como "cristalizações de pontos de vista". O argumento inteiro é o seguinte: “Afirmei que as interpretações podem ser incompatíveis, mas, desde que as considere, meramente, como cristalizações de pontos de vista, então, elas não o serão. Por exemplo, a interpretação de que o homem persistentemente progride (em direção à sociedade aberta ou a outro objetivo) é incompatível com a interpretação de que ele retrocede ou anda para trás. Mas o "ponto de vista" de alguém que examina a história humana como a história do progresso não é necessariamente incompatível com aquele de alguém que a olha como a história do retrocesso; isto é, poderíamos escrever uma história do progresso humano para a liberdade (contendo, por exemplo, a história da luta contra a escravidão) e outra história de retrocesso e opressão humanos (contendo, talvez, coisas como o impacto da raça branca sobre as demais raças); e essas duas histórias não necessitam ser conflitantes; em vez disso, poderiam ser complementares uma da outra, corno o seriam duas visões de uma paisagem vista de dois diferentes pontos.” (31)

Em seu argumento, Popper distingue entre "interpretações" e "pontos de vista", alegando que as primeiras são "cristalizações" dos segundos. Dessa distinção, seria possível estabelecer o critério de distinção entre teorias históricas concorrentes, isto é, ao serem consideradas como meros pontos de vista cristalizados, as interpretações deixariam de ser incompatíveis e, portanto, já não seriam concorrentes. Continuariam como irrefutáveis. (32)

Contudo, o argumento de Popper não satisfaz, porque recorre ao conceito de "cristalização", para dele inferir uma conseqüência de natureza metodológica. Como se esse conceito fosse capaz de expressar uma mudança na natureza das interpretações, de tal forma que interpretações incompatíveis, ao serem tomadas como "cristalizadas", deixariam de sê-lo. No entanto, o argumento não explica como isso é possível.

Daí, pode-se concluir que os argumentos de Popper, estabelecendo limitações metodológicos ao princípio da unidade de método entre as ciências históricas e as ciências naturais, não têm grande sucesso, isto é, Popper não consegue oferecer bons argumentos que, baseados na análise da natureza das teorias históricas, permitam-nos concluir pela necessidade de tais limitações.

Popper insiste no caráter provisional das interpretações históricas. Contudo, isso seria também característico das ciências naturais. Os objetivos que Popper estabelece para as teorias históricas seriam igualmente desejáveis para as ciências naturais. Ele diz: “A coisa mais importante é ser consciente e crítico, do ponto de vista de cada um, isto é, evitar, na medida do possível, preconceitos inconscientes e, portanto, não-críticos na interpretação dos fatos. Em qualquer sentido, a interpretação precisa falar por si mesma; e seus méritos serão sua fertilidade, sua habilidade de elucidar os fatos da história, bem como seu interesse tópico, sua habilidade de elucidar os problemas atuais.” (33)




Conclusão



Neste texto se defendeu a idéia de que existe unidade de método entre as ciências naturais e sociais, isto é, que há unidade de método entre elas. Assim, o método da ciência é único, a saber: o método conjectural por meio de tentativa e eliminação do erro.

Contudo, Popper pretende estabelecer limitações especiais para a aplicação do método das ciências naturais ao campo de estudo das ciências sociais. Assim, a ciência social seria o resultado de uma certa análise parcial associada com análise crítica, isto é, a ciência social resulta de um enfoque tecnológico, ou tecnologia social parcial, ou engenharia parcial.

Essas limitações decorreriam, ainda, das teses que: a) a ciência social não pode usar teorias historicistas, holísticas ou globais; h) os modelos racionais em ciências sociais são completamente diferentes daqueles das ciências naturais; c) as situações sociais podem ser estudadas em termos de "lógica da situação"; e d) a ciência social pode trabalhar com o pressuposto da total racionalidade da ação humana.

Neste texto foi discutida a tese popperiana de que não existe possibilidade da história como ciência pura. A única coisa que podemos obter por meio das explicações históricas é um certo tipo de "interpretações específicas", que expressam um "ponto de vista". O que aqui se sugeriu é que os argumentos de Popper não parecem suficientes para garantir essa posição. Contudo, isto não invalida sua sugestão de que não temos, de fato, uma ciência histórica análoga às demais ciências teóricas.

A posição de Popper parece implicar que o conhecimento científico pode ser distribuído em uma hierarquia onde as ciências naturais estão em primeiro lugar. Elas constituem a ciência de primeira classe. Em segundo lugar, estão as ciências sociais, que empregam o mesmo método das ciências naturais, com algumas limitações decorrentes da natureza de seu objeto e de suas teorias. Em último lugar, estão as explicações históricas, que, juntamente com as explicações tecnológicas, constituem o enfoque tecnológico ou engenharial da realidade. Nesse sentido, a história seria um tipo de engenharia da atividade humana.



Notas e referências


1.POPPER, KARL R. The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, p. 143.

2. Idem. The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 256.

3. Idem, ibidem, p. 262.

4. Idem, ibidem, p. 262.

5. Idem, ibidem, p. 262.

6. Idem, The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, pp. 143-144.

7. Idem, ibidem, p. 144.

8. Idem, ibidem, p. 144.

9. Idem, ibidem, p. 144.

10. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 263.

11. Idem, The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, p. 145.

12. Idem, The open society and its enemies. Vol. Il. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 264.

13. Idem, ibidem, p. 264.

14. Idem, The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, p. 145.

15. Idem, ibidem, pp. 146-147.

16. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 263.

17. Idem, The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, pp. 145-146.

18. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, P. 159.

19. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 261.

20. Popper compara a importância do "ponto de vista" em história e em física. POPPER, KARL R. The open society and its enemies. Vol. Il. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 261.

21. POPPER, KARL R. The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 264.

22. Popper fornece dois exemplos de explicações históricas, nos quais seriam usadas leis universais triviais, obtidas em diferentes campos que não a própria história. Idem, ibidem., pp. 264-265.

23. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 265-266.

24. Idem, ibidem, p. 259.

25. Idem, Conjectures and refutations -The growth of scientific knowledge. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1972, pp. 66-67.

26. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 266.

27. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 266.

28. Idem, The logic of scientific discovery. Londres, Houtchinson & Co., 1959, p. 86.

29. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap.25, pp. 266-267.

30. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 266.

31. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap. 25, p. 267.

32. Idem, The poverty of historicism. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1974, p. 151.

33. Idem, The open society and its enemies. Vol. 11. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1980, cap.25, p. 268.

10 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros Alunos,
Depois de ler o texto, faça um comentário de 15 linhas.

Alessandra disse...

A ciência histórica não é uma ciência pura como se apresentam as outras ciências. A ciência histórica não está interessada em formar leis universais históricas, ela estuda as causas e descrições dos acontecimentos, aceitando como verdade as teorias universais das demais ciências para conseguir ligá-la às particularidades do fato em análise.
A escolha da teoria e das particularidades do fato dependem do ponto de vista do historiador, do interesse que se seguirá a explicação histórica. Assim, tal acontecimento nos dá uma teoria circular em que os fatos só concordam com a teoria e são assim ajustados. Além ainda temos a necessidade da engenharia fragmentária para conseguir fazer uma boa análise, pois se tentarmos fazer uma análise do todo, fazemos generalizações e perdemos as qualidades que conseguimos na nossa análise fragmentada.
Mas tantas análises sobre os acontecimentos anteriores não permitem que façamos uma previsão do futuro, real interesse de um historiador. Não temos como testar um fato novamente, tal como nos experimentos das ciências naturais. Nós podemos fazer um estudo dos acontecimentos passados, mas nada garante a previsão do que vai acontecer, fatos ocorrem pela ação de pessoas que estão envolvidas nele e não tem como prever sempre as ações destas. As ciências sociais estudam estas interações e não conseguem ser totalmente efetivas em seu tratamento com as reações das pessoas, estamos falando de seres pensantes que se comportam de forma diferente. Podemos ter as condiçoes iniciais que geraram um fato novamente, mas as ações das pessoas podem fazer com que ele tome rumos completamente diferentes do anterior.
Em síntese, a história é uma ciência (ao meu ver) falha. Dependente de pontos de vista, não podendo haver generalizações, o estudo dos fatos geram teorias circulares e não-testáveis baseadas em outras teorias universais (vindas de outras ciências) que caso seja refutadas fará com que se perca as bases nelas contruídas. O que podemos fazer é um estudo dos acontecimentos anteriores (a história, propriamente dita) e utilizar-se destesconhecimentos para ter alguma previsão (que pode não acontecer).

Prof. Luis A. Peluso disse...

Cara Alessandra,
Seu texto é razoável. Ele reporta com certa clareza aquilo que está afirmado em algumas passagens do Capítulo 10. Entretanto, quando se trata de expor alguma consideração pessoal do Autor da postagem o resultado não é claro. A linguagem se torna imprecisa e a clareza desaparece. Veja a seguinte passagem: "...Em síntese, a história é uma ciência (ao meu ver) falha. Dependente de pontos de vista, não podendo haver generalizações, o estudo dos fatos geram teorias circulares e não-testáveis baseadas em outras teorias universais (vindas de outras ciências) que caso seja refutadas fará com que se perca as bases nelas contruídas. O que podemos fazer é um estudo dos acontecimentos anteriores (a história, propriamente dita) e utilizar-se destesconhecimentos para ter alguma previsão (que pode não acontecer)." No meio da passagem temos a seguinte expressão: "...que caso seja refutadas fará com que se perca as bases nelas contruídas." O que significa isso? O que quer dizer "...que caso seja refutadas"? Há erro de português ai? Caso contrário quem é o sujeito dessa frase?

Giuliano disse...

O texto mostra uma passagem da discussão dos métodos científicos e da definição do que pode ser considerado ciência, pondo em cheque desta vez, a História.
O mesmo começa falando da previsão de fatos. Um enunciado que prevê um evento só pode ser feito se parte de leis e condições iniciais. Na ciência histórica, as leis são simplesmente tomadas como certas, sem maiores considerações.
Além de não utilizar o mesmo método das ciências, Popper ainda critica na ciência histórica a idéia de os fatos não poderem ser freqüentemente repetidos, que as teorias históricas têm forte influência no ponto de vista do coletor desses fatos, que podem ser consideradas como "interpretações gerais" e que não são científicas, devido a seu caráter circular e sua irrefutabilidade.
Apesar dos esforços, Popper não tem grande sucesso quanto a seus argumentos, deixando em aberto, a priori, a resolução de alguns problemas como o enquadramento de história. Porém, sempre mantendo a idéia de:
"A coisa mais importante é ser consciente e crítico, do ponto de vista de cada um, isto é, evitar, na medida do possível, preconceitos inconscientes e, portanto, não-críticos na interpretação dos fatos. Em qualquer sentido, a interpretação precisa falar por si mesma; e seus méritos serão sua fertilidade, sua habilidade de elucidar os fatos da história, bem como seu interesse tópico, sua habilidade de elucidar os problemas atuais.”
Fazendo breve análise sobre o texto é possível verificar essencialidades sobre padrões que devem ser seguidas, mantendo a ciência histórica separada das demais em certos aspectos, porém não é possível seguir argumentos que não sejam suficientemente fortes, assim como os que Popper procurava fazer. Mantendo assim, para alguém sem maiores informações o problema em aberto.

Rodrigo disse...

Se a ciência é uma atividade cognitiva, desenvolvida na mente humana e pelo pensamento, e, por isso, produz objetos conceituais que não podem ser outra coisa se não objetos reconstitutivos da realidade. A ciência, ou a atividade científica, pode ser diversa, consoante ao seu objeto concreto e os métodos e os instrumentos que se lhe possam mostrar adequados para colher dados ou confirmar resultados.
Existe uma confusão entre ciência e os métodos de obtenção de dados ou de comprovação de resultados, os quais podem incluir atividades e modelos experimentais (quando tal é possível e necessário). A experimentação, contudo, é apenas um dos instrumentos da ciência, que pode ser necessário, ou não, para o desenvolvimento da atividade cognitiva da produção de conhecimento ou para a comprovação dos seus resultados.
A filosofia é uma atividade que estende o seu objeto ao campo dos valores e da avaliação, instrumentos usados pelos seres humanos para tomarem decisões não se restringindo à realidade empírica exterior a esta realidade humana, contaminada por estes ou aqueles valores. Ela se estende também ao campo de um dos instrumentos privilegiados da ciência, o das regras do pensamento coerente ou da razão (e não somente o da explicação do próprio pensamento, objeto das ciências da cognição).

O caso da história é um pouco diferente, porque o seu objeto não é a realidade presente, mas uma realidade passada. Neste caso, não só a produção do conhecimento é muito mais difícil, porque os dados recolhidos podem ser mais escassos, dispersos e desconexos, como também as hipóteses que são formuladas. Estas podem ser mais conjecturais, porque são restritas à reinterpretação de uma realidade que não existe mais e da qual em alguns casos sequer possui prova de que tenha existido. Mas temos que lembrar ela também visa a produção de conhecimento e está sujeita à crítica e à refutação, por possuir uma característica psicológica específica do historiador

O papel da história é desenvolver a criticidade e mostrar possibilidades de melhoramentos no presente através do passado, não é regra trazermos à tona objetos nunca vistos até então, seja do presente, do passado ou especulações futuras, mas, devemos refletir sobre como, onde e porque se vê. Afirmar que história não é uma ciência, assim como a filosofia, a literatura é diminuir o seu grau de importância? Por quê?
A história tem também que entender, esclarecer, procurar o sentido que encadeia os fatos e determina os resultados. Uma história baseada exclusivamente nos fatos, que renunciasse ao esforço de compreender o processo onde eles se situam, não passaria de mera crônica, um registro cuja única diferença para com o jornalismo seria a distância temporal em relação ao objeto de seu relato. Os fatos, por si, não dizem nada; eles só respondem a perguntas teóricas apropriadas. A objetividade verdadeiramente científica exige, em lugar de uma recepção passiva de fatos dados, a aplicação de categorias corretas, que organizem os dados em sua significação real.

Israel Ribeiro disse...

O texto argumenta a respeito da histórria que esta não pode ser considerada uma ciência pura. De fato a definição de ciência vai ante certos métodos adotados no estudo da história. A história vale-se de ferramentas científicas a fim de argumentar ou determinar acontecimentos, como por exemplo a datação por carbono 14. Por tal fato entende-se que a história é como uma engenharia da humanidade. Mas tal pensar é impreciso, talvez inapropriado ao meu ver.
A história usa de ferramentas científicas, de fato. Seu estudo é por vezes apresentado por intermédio de conceitos que se mostram irrefutáveis ao serem explanados. Mas de fato, seria extremamente trabalhoso para a o estudo da história considerar minuciosamente as particularidades em se adotar conceitos científicos e aplicá-los em suas explanações dos tempos, das Eras, de fatos, ou fatos hipotetizados.
A fundo a história é análoga à ciência, senão podemos dizer de todo científica. Vemos que através de análises com os instrumentos científicos aqui referidos, a história constrói sim suposições sobre como ocorreram acontecimentos, que nos levaram a estar onde estamos hoje. A história não apresenta como verdade absoluta suas conclusões, visto que por novas descobertas, ela altera interpretações. Mas de fato, a história adota ferramentas científicas por vezes sem o rigor requerido na ciência pura, e sua explanação por parte de alguns de seus especialistas é por vezes parcial.

ney carvalho disse...

O ponto principal destacado neste capitulo é quanto a classificação da teoria do método da historia, considerada como uma ciência por alguns historiadores, essa por sua vez através de argumentos é demonstrada não como uma possível ciência, mas como um auxílio as ciências sociais e naturais.
Alguns argumentos são destacados para sua critica, o fato da historia não possuir uma metodologia aplicável, uma vez que seus fatos são independentes e não é possível algum tipo de previsão sobre ocorrer novamente esse fato no futuro , mesmo assim alguns historiadores fazerem essas previsões, se baseando em fatos ocorridos no passado. Outro aspecto a se destacar é o fato das teorias históricas serem desenvolvidas carregadas de uma suposta inclinação do seu criador ao resultado, uma vez que explicações históricas dependem das intenções das pessoas, podendo manipular-las ao seu favor, não sendo possível a sua refutação, e devido o seu fator de ordem cronológica, não é possível testar essas teorias históricas.
Assim como discutido em sala de aula, uma utilização para essas teorias históricas seria um rico “arquivo” para auxilio as outras ciências, porém isso poderia ser considerado como um demérito para alguns historiadores, uma vez que para a maior parte (e mal informada) da sociedade, um cientista é mais importante do que um “arquivista” para a evolução e prosperidade da mesma.

Caio disse...

O texto é meio que uma continuação da discussão ocorrida em parte do texto anterior acerca da história. Sua idéia é basicamente a de mostrar o porque a história não pode ser considerada uma ciência. O ponto fundamental na minha opinião é o argumento de que o objeto de estudo da história é algo passado, que não pode ser revisto. Essa característica torna a história altamente especulativa, pois não é possível realizar testes para falsear uma teoria sobre algo que aconteceu. Outro fator que chama a atenção na argumentação de Popper é o fato de o psicológico do historiador exerce grande influência nas teorias. Acho que quanto a esse fator talvez seja possível associar a história ao pensamento hermenêutico, pois esse, por ter um caráter subjetivo, é também passível de sofrer influência do psicológico do pensador. Além do mais, como já foi discutido no texto anterior, a história é incapaz de estabelecer leis universais e, portanto, fazer previsões.
Por fim, o importante a ser tirado do texto é que epistemológicamente falando os historiadores não são capazes de produzir teorias científicas. Portanto, o papel dos historiadores talvez seja outro, o de analisar a história e mostrá-la ao presente para que possamos aprender com o passado, ou simplesmente para que saciemos a nossa curiosidade sobre de onde viemos.

Lucas R. P. disse...

Popper foi aparentemente muito rigoroso deixar em terceiro plano a História, já que apesar dela estudar fatos passados que podem estar “contaminados” pelas observações do estudioso nesta área, não quer dizer que sempre será assim. Pode ser que ainda não saibamos exatamente como utilizar algumas “ferramentas” das ciências naturais para corroborar determinadas teorias históricas. Por enquanto pode-se fazer certas hipóteses que possam explicar determinados fatos, e a partir disto realizar discussões para tentar avaliar o que fazer em situações semelhantes, observando-se os custos e os benefícios que certas medidas poderiam trazer. A analise dos fatos acaba por ser muito mais interessante do que o relato simples dos mesmos, pois geram discussões, e a partir destas discussões pode-se agir, fazendo-se uso da “engenharia fragmentada” para testar as teorias formuladas (assim como nas ciências sociais). O que se precisa fazer é refletir como aplicar ainda mais as “ferramentas” das ciências naturais, para que as "previsões" históricas tenham maior conotação cientifica e possuam maior grau de eficiência.

analuizavalle disse...

Há muito tempo que vinha me questionando se a História era uma ciência e ler este texto me possibilitou entender melhor os porquês de se considerar ou não a História como ciência. Pelo texto, é possível perceber que Popper também teve dificuldade em analisar a História.
Fazendo uma breve análise do texto, percebemos que na ciência histórica, muitas vezes, as leis são simplesmente tomadas como certas, que os fatos não podem ser repetidos, que as teorias históricas recebem forte influência no ponto de vista daquele que colhe os fatos. Logo, as teorias da história podem ser vistas como "interpretações gerais", não científicas, pela sua irrefutabilidade. Como os eventos analisados estão no passado, começam a surgir suposições. A ciência social pode ser considerada o resultado de uma certa análise parcial associada com análise crítica, desta forma, eu concordo que a História não é uma ciência pura.