quinta-feira, 1 de abril de 2010

´CAPÍTULO 11 - Racionalismo Crítico e Ciências Sociais

RACIONALISMO CRÍTICO E CIÊNCIAS SOCIAIS




“A coisa mais importante sobre o conhecimento humano é que ele pode ser formulado em linguagem, em proposições. Isso torna o conhecimento passível de ser consciente e de ser objetivamente criticável por meio de argumentos e de testes. Nesse sentido nós chegamos à ciência. Testes são tentativas de refutação. Todo conhecimento permanece falível, conjetural. Não existe justificação; evidentemente, não existe também justificação final de uma refutação. Contudo, nós aprendemos por meio de refutações, ou seja, pela eliminação de erros, por reexame.” (Popper, Karl R.; Realism and the aim of science. London, Hutchinson, 1985, p. XXXV).


INTRODUÇÃO


Neste texto pretende-se argumentar que o paradigma(1) racionalista crítico de análise social, expresso principalmente nas idéias de Karl R. Popper, pode ser interpretado como associado a uma mudança de caráter mais geral que teria ocorrido na teoria da ciência, na passagem do século XIX para o século XX. As epistemologias do século XIX, que são aqui consideradas em certas interpretações do positivismo e do marxismo, implicam um conceito de razão como um instrumento de conhecimento verdadeiro. Numa certa interpretação, positivismo e marxismo identificam todas as formas de conhecimento racional com ciência e com conhecimento verdadeiro, isto é, justificado empiricamente. Portanto, implicam numa epistemologia justificacionista, para a qual a existem condições de possibilidade da demonstração da verdade de nossas asserções sobre o mundo.

Aqui se sugere que o conceito de conhecimento racional, conforme a interpretação do racionalismo crítico de Popper, pode ser considerado como diverso daquele consagrado pelas epistemologias justificacionistas do século XIX. Em contraposição ao marxismo e ao positivismo, o racionalismo crítico retoma a idéia socrática que a razão humana é um instrumento de crítica e debate, cujo resultado só pode ser um conhecimento hipotético e conjectural. A teoria do método científico de Popper implica uma forma alternativa de considerar os fenômenos sociais. Uma das conseqüências de sua teoria do método de análise social é que o conhecimento dogmático deve ser substituído pela teoria social conjectural.

O argumento aqui apresentado está dividido em duas partes. Na primeira se analisa a base epistemológica das teorias sociais do século XIX. Na segunda parte se considera o modelo de racionalidade que Popper sugere ser característico da epistemologia das Ciências Sociais do século XX.( 2)



1

Nesta parte se pretende caracterizar a passagem do século XIX para o século XX nos termos de uma transformação filosófica. O ponto central do argumento consiste na alegação de que essa transformação tem um caráter primordialmente epistemológico.

A passagem do século XIX para o século XX pode ser caracterizada em termos de uma profunda mudança no mundo das teorias que procuram dar conta das condições de possibilidade do conhecimento humano, com especial referência ao conhecimento científico. Aqui se sugere que essa mudança teria produzido dois tipos de conseqüências, isto é, conseqüências tecnológicas e culturais. A revolução tecnológica está presente na enorme quantidade de recursos para o controle de vários aspectos da realidade e que estão hoje disponíveis. Assim, os novos recursos em medicina, em engenharia, em comunicações são uns poucos exemplos dos recursos técnicos dos quais o ser humano pode dispor.

Por outro lado existe uma diversidade cultural entre esses dois séculos, a qual pode ser expressa na idéia de que a cultura do século XX se caracteriza por ser uma cultura de transição.(3) Parece que, durante os processos de mudanças generalizadas, como os que ocorrem nas culturas de transição, homens e mulheres estão especialmente preocupados com o problema da identidade cultural. Existe uma certa circularidade entre a cultura e o processo de produção cultural. Assim, é daquilo que se identifica como sua cultura que se constroem os problemas e é a cultura que inspira o tipo de solução que homens e mulheres propõem para seus problemas.

As sociedades industriais modernas parecem culturalmente identificadas com o processo de mudança. Esse processo de mudança generalizada tem profundas influências no tipo de solução que os seres humanos dessas sociedades industriais propõem para os problemas. Assim, existe uma íntima conexão entre o desenvolvimento das sociedades industriais modernas e a produção e a divulgação de uma cultura crítica e não-dogmática. Neste argumento se pressupõe que isso constitui uma importante característica da cultura do século XX. Do fato do século XX ser culturalmente identificado como um período de profundas mudanças, segue-se que essas sociedades industriais modernas estão de alguma forma associadas ao desenvolvimento de uma cultura de crítica e de debate. O que aqui se argumenta não implica que as sociedades industriais modernas sejam necessariamente críticas e caracterizadas pela contestação das teorias dogmaticamente defendidas no século XIX. Nem se defende a idéia de que não existe cultura crítica fora das sociedades industriais modernas.

Esse tipo de processo cultural caracterizado pela idéia de mudança não é único na história humana. Talvez o fim do período clássico possa ser considerado com uma interpretação similar. O fim dos tempos medievais e início dos tempos modernos poderiam ser considerados como outros exemplos de momentos históricos passíveis dessa interpretação. Tudo parece indicar que, no caso em questão, o processo de mudança teria sido seguido pelo desenvolvimento e pela divulgação de um determinado tipo de epistemologia, para a qual o conhecimento racional é hipotético e conjetural. Assim, no caso específico da passagem do século XIX para o século XX, teria se produzido uma mudança especial de natureza epistemológica, qual seja a articulação das teses do racionalismo crítico, isto é, a teoria de que o conhecimento racional é crítico, discutível, conjectural.


2.


A mudança cultural dos últimos dois séculos produziu várias conseqüências. Nesta parte, contudo, pretendem-se destacar algumas implicações filosóficas dessa mudança. Especificamente, pretende-se apontar seu caráter epistemológico. Isto é, o século XIX se caracteriza por uma postura filosófica que implica uma certa fundamentação epistemológica para o conhecimento racional.

Certas interpretações do positivismo e do marxismo são as epistemologias mais características do século XIX. Para essas interpretações, esses dois sistemas de idéias são baseados na teoria de que a razão humana é um instrumento de verdade e que a ciência é a maior conquista desse modelo de razão humana. Entretanto, em razão de uma série de mudanças ocorridas nas Ciências Naturais, com especial referência à Física, teria ocorrido uma profunda mudança na epistemologia das ciências naturais e sociais. Em conseqüência dessas mudanças, grande parte das teorias do método passaram a sustentar que a razão humana é um instrumento de crítica e que a ciência é um conhecimento tentativo.

A história da ciência parece oferecer evidências de que diversas teorias do conhecimento e teorias sobre a ciência eram concorrentes no século XIX. Contudo, principalmente duas dessas teorias do método científico estavam associadas à idéia que tanto os problemas do mundo natural quanto os do mundo social eram considerados como passíveis de solução: o positivismo e o marxismo. A principal característica epistemológica desses dois sistemas de idéias é que ambos são apresentados como teorias do método do conhecimento verdadeiro.

Ambas as teorias, positivismo e marxismo, são conhecidas por suas teses referentes à dinâmica da realidade social. Nesse sentido elas podem ser consideradas como teorias sociais. Contudo, a fundamentação epistemológica do marxismo e do positivismo implica a idéia que suas teorias do método científico podem ser aplicadas tanto à realidade social quanto à realidade natural. O que aqui se pretende argumentar é que tanto K. Marx quanto A. Comte se envolvem com a questão do método em ciências naturais. Pode-se mesmo afirmar que ambos procuram elaborar a idéia que a ciência, tanto social como natural, é capaz de resolver o problema de identificar um método capaz de conhecer a verdade. Algumas interpretações correntes da teoria do método de análise científica proposta por Marx e Comte pretendem que o marxismo e o positivismo constituem sistemas de idéias produzidos para resolver qualquer problema com o qual o ser humano se depare. De uma forma geral se pode afirmar que essa interpretação do pensamento de Marx se encontra implicada nas diferentes formas de marxismo correntes na segunda metade do século XX.

Uma análise dos fundamentos epistemológicos do Positivismo e do Marxismo, em algumas de suas interpretações mais correntes, pode nos levar à conclusão de que existem estreitas semelhanças entre eles. Colocando a questão mais claramente: em algumas de suas interpretações, positivismo e marxismo apresentam os mesmos fundamentos epistemológicos.

A primeira semelhança entre positivismo e marxismo é expressa em suas teorias da ciência. Ambas as teorias assumem uma visão otimista do conhecimento, isto é, elas estabelecem que a verdade é sempre o resultado da aplicação do método científico de investigação. Elas também estabelecem que a ciência é o que resulta quando se tem um corpo definitivo de verdades. A ciência, portanto, seria o resultado verdadeiro do uso do método positivista, ou do marxista.

Em resumo, tanto o positivismo quanto o marxismo pressupõem a idéia otimista de que o ser humano pode produzir conhecimento verdadeiro. Eles asseguram que, no processo de procurar a verdade, a ciência é a forma mais perfeita de conhecimento. Marx confessa sua confiança no conhecimento científico quando afirma: “Este resumo do desenvolvimento de meus estudos na esfera da economia política pretende apenas demonstrar que minhas idéias, não obstante a forma como elas forem julgadas e o quão pouco coincidam com os preconceitos interessados das classes dominantes, são o resultado de uma investigação conscienciosa e demorada. Mas na entrada para a ciência, como na entrada para o inferno, é preciso impor a exigência: "Aqui toda suspeita deve ser deixada para trás; aqui toda covardia deve perecer.[Dante, Divina comédia].” (MARX, K. "A critique of political economy", in Karl Marx, Selected writings. Oxford, University Press, 1977, p.391)

Augusto Comte declara explicitamente sua confiança no conhecimento científico, a ponto de estabelecê-lo como base de todo o comportamento humano. Ele diz: “Não há dúvida de que o estudo da natureza desenvolvido pelos seres humanos se constitui na única base de sua ação sobre a natureza; pois, somente conhecendo as leis dos fenômenos e, portanto, sendo capaz de prevê-los, é que nós podemos, na vida prática, arranjá-los de maneira a que um modifique o outro para nossa vantagem. Nosso poder direto sobre todas as coisas em nosso redor é extremamente frágil, nós não produzimos algo de grande, é através do conhecimento das leis naturais que nós podemos fazer um elemento agir sobre outro - até mesmo elementos modificadores muito fracos podem produzir mudanças nos resultados de um grande agregado de causas. A relação entre ciência e arte pode ser resumida na breve expressão: "Da ciência vem a previsão: da previsão vem a ação". (COMTE, A. Positive philosophy. London, John E. Taylor, 1853, vol.1, PP. 19-20)

O positivismo e o marxismo podem ainda ser analisados na forma como, em algumas de suas versões, eles interpretam a história. Eles apresentam uma versão do desenvolvimento do tempo histórico em termos lineares. Isto é, ambos, marxismo e positivismo, como teorias da história, interpretam a história como o contínuo progresso da humanidade para a reconquista do "paraíso perdido". Tanto a sociedade final sem classes de K. Marx quanto o industrialismo de A. Comte constituem uma fase no desenvolvimento da humanidade: eles marcam o fim dos tempos pré-históricos e o começo do tempo histórico. Contudo, o aspecto mais característico dessas teorias da história é que elas interpretam a si próprias como um fato histórico imediatamente anterior a esse objetivo final. Isto é, tanto o marxismo quanto o positivismo consideram-se a si mesmos como os fatos históricos responsáveis pela passagem do período pré-histórico para o tempo histórico. Portanto, em suas teorias da ciência e em suas teorias da história, ambos os sistemas - marxismo e positivismo - estabelecem que os seres humanos podem descobrir a verdade. Eles também estabelecem que, usando esse conhecimento, o ser humano pode saber o que está contido no futuro. Assim, homens e mulheres podem prever que a felicidade da humanidade está no futuro.

Esses dois sistemas podem ser considerados, finalmente, como teorias da revolução. Isto é, pressupondo que eles conhecem quais são os objetivos finais da história, eles implicam que é possível estabelecer os caminhos para conquistar o futuro e são unânimes em afirmar que a revolução é o único caminho. O marxismo estabelece que a revolução do proletariado e a conseqüente extinção definitiva da burguesia, isto é a vitória do oprimido sobre o opressor - é a única saída. O positivismo afirma que a revolução moral é o caminho da história. Essa revolução moral resultaria da ação das reservas morais da sociedade. Essas reservas morais estariam na força da classe trabalhadora e, principalmente, no poder das mulheres.

Das idéias acima expostas parece plausível se concluir que esses dois grandes sistemas de idéias do século XIX reconhecem a existência de verdadeiras forças revolucionárias na sociedade e estabelecem a necessidade de ativar essas forças revolucionárias. Ambos, o marxismo e o positivismo, identificam a existência de setores da sociedade que são os responsáveis pelo desencadeamento das forças revolucionárias.

Assim, o proletariado para Marx e a classe trabalhadora e as mulheres para Comte constituem as forças historicamente revolucionárias. Entretanto, essas forças necessitam - em nome do princípio da eficiência: "poupar sofrimento" - ser ativadas e orientadas na luta pela conquista do futuro histórico. Os líderes revolucionários são necessários. Assim, para a teoria marxista, o proletariado necessita dos líderes do Partido Comunista; a classe trabalhadora e as mulheres necessitam da Elite Intelectual responsável pela revolução positiva. Uma das características das referidas teorias da revolução é que elas pressupõem que existem forças cuja atividade consiste em assegurar que o processo revolucionário seja conduzido de uma forma eficiente.

Na interpretação acima exposta, existe uma perfeita integração entre a teoria da ciência, a teoria da história e a teoria da revolução tanto no marxismo quanto no positivismo.

A teoria marxista da ciência estabelece as condições metodológicas da verdade e aponta a explicação histórica como o modelo perfeito de análise científica. A teoria da história, a qual a teoria da ciência estabelece como verdade, afirma que a teoria marxista da ciência é verdadeira, pois que a teoria da ciência é uma conquista histórica do proletariado. Ou seja, a teoria da história estabelece que o proletariado é a classe, social que haverá de sobreviver na história e assegura que a verdadeira ciência é o conhecimento que expressa o interesse daquela classe. Por outro lado, a teoria da revolução afirma que a revolução é um instrumento histórico e científico, porque a revolução transforma a ciência em história. Na análise marxista, a ciência - enquanto conhecimento verdadeiro - é uma conquista do proletariado. O conhecimento científico é que permite a vitória concreta do proletariado sobre a burguesia. O cientista revolucionário é aquele que, ao interpretar o processo histórico, identifica as condições necessárias para uma vitória rápida e menos dolorosa da classe proletária. Assim, os cientistas também têm uma tarefa política, pois que, sendo eles conhecedores da verdade, precisam entender que a verdade tem um significado político, isto é, a libertação do proletariado. Nas mãos desses cientistas deve estar a direção do proletariado.

Esse tipo de circularidade epistemológica também pode ser identificado no positivismo. A teoria positivista da ciência estabelece que a história é o instrumento do conhecimento verdadeiro. A teoria da história afirma que a ciência é conhecimento verdadeiro e indica a revolução como o meio para tornar reais a ciência e a história. Para o positivismo, o cientista também tem uma tarefa política - o cientista é o homem ou a mulher que conhece a verdade, pois que trabalha com a verdade. Então o cientista é alguém dedicado à verdade, tendo, portanto, todas as necessárias virtudes morais. O cientista é o genuíno líder revolucionário. Na análise do positivismo, os valores revolucionários podem ser encontrados na ciência, e é entre os cientistas que se encontram os líderes da revolução.

O ponto central do presente argumento é que, em todos os três aspectos acima considerados, positivismo e marxismo apresentam a mesma base epistemológica. Assim, o positivismo e o marxismo fundamentam a teoria da ciência no pressuposto otimista de que o ser humano pode conhecer a verdade. Eles não consideram a impossibilidade da verdade como um problema. Ambos concluem por afirmar que a ciência é o resultado mais expressivo do conhecimento verdadeiro. No que concerne à teoria da história, ambos os sistemas adotam a mesma metodologia de análise social que permite explicar o passado, posto que torna possível a identificação das leis da história. Em conseqüência disso, as explicações históricas permitem prever o futuro. Da pressuposição de que o futuro pode ser previsto, torna-se seguro falar do sentido da revolução. A revolução é o instrumento de transição para o futuro necessário. Assim, existe uma garantia metodológica de que a revolução é um instrumento histórico. Essa garantia é fornecida pela ciência.

Esta interpretação do positivismo e do marxismo pode ser considerada como uma caracterização geral do fundamento epistemológico das teorias sociais correntes na segunda parte do século XIX e início do século XX. Neste texto não se pretendem discutir todas as interpretações do positivismo e do marxismo. O que aqui se intenta é apresentar uma certa interpretação do marxismo e do positivismo como teorias sociais características do final do século passado e que teriam grande influência na primeira metade do século XX. E mais, almeja-se evidenciar que existe uma total incompatibilidade entre as bases epistemológicas do positivismo e do marxismo assim interpretados e uma certa interpretação dos fundamentos epistemológicos das teorias sociais do século XX.

3.


Nesta parte serão apresentadas algumas críticas gerais aos pressupostos epistemológicos do marxismo e do positivismo nas interpretações acima caracterizadas. Em seguida, procurar-se-á argumentar que novas interpretações sobre as bases epistemológicas das teorias de análise social sugerem a existência de uma nova tendência concernente ao significado do método racional nas Ciências Sociais.

Tanto o marxismo quanto o positivismo parecem admitir o princípio epistemológico de que o ser humano pode identificar teorias verdadeiras ou, em outras palavras, a idéia de que "nós podemos conhecer quando nosso conhecimento é verdadeiro". Acontece que esse princípio é objeto de violentas críticas na moderna teoria da ciência. Esse princípio não é mais considerado um pressuposto de senso comum. Embora não se tenha ainda produzido um argumento decisivo contra esse princípio, contudo, no intuito de evitar algumas conseqüências que esse princípio produz, as modernas epistemologias preferem partir de outros pressupostos. De qualquer forma, esse princípio parece ser demasiadamente problemático para ser tomado como um pressuposto.

Um outro aspecto a ser apontado refere-se ao pressuposto marxista e positivista de que é possível a previsão racional do comportamento social dos seres humanos. Isto se constitui, em nossos dias, em uma questão aberta. As modernas discussões em história estão longe de uma conclusão nessa matéria. As posições podem variar desde a idéia de que existem leis históricas e que o ser humano pode descobri-las e controlá-las até a teoria de que a história é impossível como conhecimento científico. Nesse sentido avançam teorias sustentando que a história não é mais do que uma simples tecnologia social.

Além disso, marxismo e positivismo parecem admitir que a revolução é a única forma de transformar a sociedade. Porém, essa idéia é demasiadamente problemática para ser assumida como um pressuposto. Não existe nenhuma garantia de que esse princípio seja científico. Do mesmo modo, não existe garantia de que, caso fosse científico, esse princípio seria necessariamente verdadeiro. Outro argumento é que as próprias forças sociais que as teorias sociais do século XIX, especificamente o positivismo e o marxismo, indicam como as forças revolucionárias não são facilmente identificáveis nas sociedades modernas, isto é, é difícil identificar o proletariado nas sociedades industriais modernas. Não mais existem claras distinções entre as classes capitalista e trabalhadora ou ainda entre homens e mulheres como forças sociais. O que a teoria moderna da revolução parece estabelecer no século XX é que aconteceu uma profunda mudança na realidade social na passagem do século passado para o atual. A moderna teoria da revolução parece apontar para o fato de que as supostas forças revolucionárias teriam desaparecido.

Outro ponto que pode ser levantado contra as interpretações do marxismo e do positivismo aqui apresentadas refere-se ao caráter subjetivista de suas epistemologias. Isto é, esses sistemas, baseados na tese indutivista de que a partir de experiências feitas no passado é possível se prever o resultado de experiências futuras, concluem pela existência de uma separação entre o subjetivo e o objetivo e pela justificação da prioridade do primeiro sobre o segundo. Embora não o reconheça explicitamente, essas interpretações do positivismo e do marxismo implicam uma distinção entre a interpretação (teoria) e a ação (prática) e avançam a tese de que as coisas devem se submeter às idéias.

O procedimento metodológico dessas teorias consiste em profetizar sobre o futuro tendo por fundamento as experiências feitas no passado. Portanto, essas teorias fixam padrões para o presente. O presente, quando não segue as previsões históricas, é considerado, como uma distorção histórica. Dessa forma, não existem objeções em submeter o presente às exigências teóricas e fazê-lo conformar-se com aquilo que é necessário que o presente seja, para que se garanta o futuro necessário previsto teoricamente.


4.


O ponto central do argumento que se pretende apresentar nesta parte é que uma mudança epistemológica teria ocorrido na passagem do século XIX para o século XX, e essa mudança tornou problemáticos muitos dos pressupostos do positivismo e do marxismo.

Quando A. Einstein estabeleceu a teoria da relatividade, na primeira metade do século XX, o descontentamento com as teorias correntes sobre o método científico começou a se difundir. Em sua estrutura epistemológica, as teorias de Einstein diferiam da Física newtoniana, isto é, Einstein desenvolveu suas teorias antes de experimentos empíricos poderem ser produzidos, e suas teorias eram construídas como proposições conjecturais. Essas características das teorias de Einstein pareciam sugerir que elas possuíam uma fundamentação epistemológica diferente daquelas propostas pelas teorias da ciência do século XIX.

O questionamento crítico das teorias correntes sobre as bases epistemológicas da ciência parece ter começado na Física, para em seguida se espalhar por todas as áreas do conhecimento racional. Essa mudança epistemológica teria produzido uma profunda crise nas ciências sociais e, na segunda metade do século XX, parece ter conduzido a um certo negativismo, uma certa frustração, entre todos aqueles que sonhavam com uma ciência verdadeira e com a racionalidade como fonte de certeza.

Com esse processo de ruptura epistemológica não existe mais fundamento para a teoria de que a ciência é conhecimento verdadeiro. A discussão moderna da teoria da ciência aponta para a fragilidade da estrutura epistemológica da ciência. A experiência de viver soluções científicas tem convencido a muitos de que algumas soluções científicas são inviáveis. Assim, a ciência tem sido exposta a uma violenta crítica; disso resulta que, cada vez mais, suas limitações são reconhecidas e divulgadas. O otimismo epistemológico implícito em certas interpretações do marxismo e do positivismo é hoje considerado insustentável. As novas teorias epistemológicas parecem admitir a idéia de que o ser humano não dispõe de critérios para identificar a verdade. As situações sociais concretas têm demonstrado que o messianismo do proletariado e o caráter redentor da elite científica são mistificações.

A discussão a propósito do método científico no século XX parece ser caracterizada pela procura das regras referentes ao procedimento científico. As posições podem variar desde aqueles que defendem a idéia de que essas regras precisam ser encontradas na análise da reconstrução racional da atividade dos cientistas até a idéia de que essas regras podem ser encontradas na análise da história da ciência. Contudo, o pressuposto comum dessas análises parece ser que o método da ciência é um conjunto de regras que são necessárias para o uso de um tipo específico de razão. Essas epistemologias admitem que o conhecimento científico é o resultado de um certo tipo de racionalidade. Ela se constitui num tipo de discurso cujas regras podem ser devidamente identificadas. Na forma como aqui se caracteriza a passagem do século XIX para o século XX, a moderna epistemologia, à medida que recusa a tese de que o conhecimento racional é necessariamente verdadeiro, implica um novo conceito de racionalidade. A moderna epistemologia implica a idéia de quê a razão não é um instrumento de dogmatismo.


Conclusão


A idéia de que a racionalidade pode ser caracterizada pelo exercício da crítica e a tese de que a ciência somente pode ser obtida por meio dessa forma de racionalidade são aqui apresentadas conseqüências epistemológicas de uma suposta ruptura que teria ocorrido na virada dos XIX e XX. Como conseqüência dessa ruptura, segue-se que nós não mais temos garantias para nossas teorias científicas da história e de nossas teorias científicas da revolução.

Uma suposta reviravolta na teoria da ciência teria quebrado a circularidade, ou mútua justificação, entre as teorias da ciência, da história e da revolução, positivista e marxista. Por todas essas razões, parece que o debate sobre teoria social no século XX não pode ser dissociado da discussão das bases epistemológicas da ciência.

O que aqui se pretende haver demonstrado é que houve uma mudança na teoria da ciência e que a crise da teoria da história e da teoria da revolução no século XX está relacionada com aquela mudança epistemológica, Tudo indica que não existe mais um conjunto de verdades conclusivas referentes à natureza da ciência, a direção da história e o significado de revolução. O que existe em nossos dias é um conjunto de irrefutáveis teorias filosóficas referentes à ciência, um extenso debate a propósito da possibilidade da história como conhecimento científico e uma completa descrença na teoria da revolução total.


Notas e Referências


1. Para esclarecimento do conceito de "paradigma", ver KUHN, T. The structure of scientific revolutions. London, University of Chicago Press, 1970, especialmente o "Postscript - 1969", pp. 174-210.


2. Popper argumenta que sua teoria da ciência não foi estabelecida como uma teoria histórica ou apoiada por fatos históricos ou empíricos. Contudo, ele destaca o poder explicativo que sua teoria da ciência possui, especialmente se comparada com suas concorrentes. Ver POPPER, K. R. Realism and the aim of science. London, Hutchinson, 1985, p. XXI.

3 .Para uma melhor caracterização do que se entende por 'transição', ver o texto de E. Gellner "The role of knowledge", em GELLNER, E. Legitimation of belief. Cambridge, University Press, 1979, pp. 202-208; também o texto de I. G. Melchior "A teoria social da transição", em Nacionalismo e democracia. Brasília, Editora da UnB, 1981, pp. 3-42-, ver ainda, o texto de J. G. Melchior "Ernest Gellner e as liberalizações políticas", em Coleção Itinerários; "Gellner na UnB", Brasília, Editora da UnB, 1981, pp. 5-25. Embora Gellner não use o termo para caracterizar a passagem do século XIX para o século XX, contudo, sua caracterização do fenômeno da "transição" (ou "Transição" como quer Gellner) pode ser inteiramente assumida aqui neste texto.

11 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros Alunos,
Após ler o texto, faça um comentário de 15 linhas.

Alessandra disse...

Acredito que podemos dizer que, como nas grandes modificações históricas que estudamos ao longo do tempo, a última (por estar mais perto do nosso período) era inesperada.
Tínhamos ciências (hoje vistas como) sociais com implicações diretas nos conhecimentos racionais da ciência. Uma ciência que utilizava a dedutibilidade, acreditando que o ser humano produz a verdade pela razão e que estávamos em busco do "paraíso perdido".
Mas uma ruptura na ciência conseguiu modificar o sistema como um todo. Einstein, somente pelo método hipotético, sem o empirismo, torna insustentável o sistema anterior. Agora o método hipotético carrega a ciência e mostra uma verdade hipotética gerada pelo racionalismo e debate.
Com essa passagem vemos as maiores modificações que ocorreram em todo o universo de conhecimento que agora temos. As bases da "certa" verdade anteriores não são mais do que teorias agora. Tal modificação foi inesperada pelo fato das ciências estarem antes certas de seu alicerce, mas uma solução somente serve para certo problema de certa forma. Assim o "paraíso perfeito" também seria uma hipótese para uma resposta, ou se for um problema, tem um jeito de se chegar a ele numa certa análise, ou outro por outra análise.
Creio que não há mais como haver uma ruptura tão grande como antes, a partir do instante que temos teorias e trabalhamos também para refutá-las, mostrando a mutabilidade da verdade que sempre usamos para cada situação.

Prof. Luis A. Peluso disse...

Cara Alessandra,
Seus comentários são confusos e escritos em uma linguagem nem sempre com o português correto. Por mais que leia o seu texto não consigo entender o que foi afirmado. Veja a seguinte sentença "...As bases da "certa" verdade anteriores não são mais do que teorias agora." O que será que significa isso? As vezes, ao ler o seu texto fico com a impressão quie vc. quer falar de uma revolução ou mudança no conceito de ciência provocada pelas Teorias de Einstein. E de como essa revolução afetou as Ciências Sociais. Entretanto, isso não está escrito no que o texto afirma.

Lucas R. P. disse...

O positivismo e o marxismo foram teorias que se consideravam científicas e epistemológicas que marcaram as sociedades no século XIX. São tidas também como generalizantes, justificacionistas, essencialistas e revolucionárias. Tinham perspectivas históricas egocêntricas e diferiam bastante quanto á abordagem socioeconômica vigente. Para o marxismo o socialismo era o último estágio da evolução das sociedades, enquanto que o positivismo defendia que para uma sociedade ter “progresso” haveria de ter “ordem”, no caso o capitalismo propicia uma estrutura hierárquica que ordena a sociedade.
No século XX surgiu o racionalismo crítico que considera científico o conjunto de teorias que podem ser refutadas, nem o positivismo e nem o marxismo se encaixaram neste conjunto. Este fato desestabilizou as bases das sociedades, que estavam acostumadas a um “solo firme” de teorias que garantiam a verdade. Com esta flexibilidade o modelo econômico que melhor se aproxima (com ressalvas) das ideias do racionalismo crítico seria a social-democracia que consegue equilibrar um Estado democrático forte o suficiente para suprir as necessidades consideradas básicas da população (Welfare State) e ao mesmo tempo ser capitalista e inserido no contexto da globalização.
Segue-se então que a globalização ao permitir maior fluxo de informações (principalmente tratando-se da internet), possibilita maiores discussões acerca dos pontos de vista das mais variadas idéias.E quanto mais pessoas que tem acesso aos meios de comunicação mais idéias serão compartilhadas. Apesar de provavelmente não se conseguir checar todos os pontos de vista sobre determinadas teorias, como Merleau-Ponty propôs, pode-se chegar a conclusões mais ricas em sociedades que se interessam pelo “mundo das idéias” de Popper.

Israel Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Israel Ribeiro disse...

Ao ler o texto atentamos para fatores tais como a existência de correntes filosóficas cheias do "espírito" de suas respectivas épocas, diga-se o positivismo e o marxismo. Característica marcante dessas duas correntes é o apresentar suas conjecturas como verdades irrefutáveis, dada as análises sociais das quais estar mesmas partiram. Daí podemos perceber interessante associação: no século XIX descobertas e invenções (diga-se por informalismo, as ciências), eram frequentes e criavam expectativas. O adotar descobertas feitas a partir de experimentações como verdades era algo recorrente na ciência da época, o que se refletiu nas conjecturas sociais.
No século seguinte, teorias como as de Darwin e a de Einstein não se valiam de experimentação a fim de serem formuladas, mas sim de preencher lacunas, de apresentar hipóteses que aparentavam lógicas a fim de resolver determinados problemas. Tais fatos foram como o início de um novo tratar da ciência.
Popper valeu-se de Einstein em seus estudos, bem como de Darwin. A eliminar a aceitação de verdades absolutas de fato o ambiente científico "ferve" mais. A existência de hipóteses diversas e análises gera por consequinte o racionalismo crítico, o valorizar dos argumentos para a construção do saber, a refutabilidade.
Tal foi o caminho para o qual a sociedade seguiu a partir do século XX. Percebemos o paralelismo entre os modelos cientificos e os modelos sociais nos dois últimos séculos. Embora a sociedade de fato não esteja livre de setores componentes da mesma adotarem verdades absolutas, a nova ordem é de fato mais dialogada, a valorizar os argumentos, as opiniões, a livrar-se de preconceitos dantes recorrentes. A sociedade é dita no atual século predominantemente democrática.

ney carvalho disse...

Na passagem do século XIX para o século XX existe uma forte tendência dos cientistas ao positivismo e o marxismo, Popper contraria- os e explicita suas idéias através dos princípios do racionalismo critico, que mantém as ciências como um instrumento de critica e debate, e seus resultados somente hipotéticos e conjecturais, diferenciando dos ideais positivistas e o marxistas que mantém as ciências como instrumento da pura verdade, mantendo uma critica impossível e caracterizando a ciência como um aspecto dogmatista.
Outro ponto a destacar é a na visão otimista que se possui do conhecimento, nesse positivismo e marxismo na utilização da ciência como o parâmetro central da evolução da sociedade, trazendo a felicidade e conforto a essa sociedade, essa evolução seria alcançada com a utilização das teorias cientificas juntamente com as teorias históricas (caracterizada como ciência), rígidas pelas teorias revolucionarias assim considerando o líder dessas o cientista, e essas teorias seriam o única forma de se transformar a sociedade. Mas devido as teorias de Eisten esses princípios Marxistas foi levado a descrença por parte da sociedade.

Giuliano disse...

O texto, desta vez, mostra uma mudança importante no meio filosófico, acerca de idéias sobre o método da ciência social.
A principio, o texto dita a discussão do séc. XIX sobre as teorias decorrentes e aponta a idéia do marxismo e do positivismo. Representados por K. Marx e A. Conte, haviam idéias quanto as teorias científicas que não poderiam ser aceitas nos dias atuais.
Fazendo referencia a três pontos chave e comuns entre as duas teorias, podemos fazer breve argumentação ao porquê de não serem mais aceitas hoje.
1- Em resumo, tanto o positivismo quanto o marxismo pressupõem a idéia otimista de que o ser humano pode produzir conhecimento verdadeiro. Eles asseguram que, no processo de procurar a verdade, a ciência é a forma mais perfeita de conhecimento.
Isso foi posto em cheque a partir da teoria da relatividade de Einstein. Suas teorias eram construídas como proposições conjecturais já que o mesmo desenvolveu suas teorias antes de experimentos empíricos poderem ser produzidos.
2- Eles também estabelecem que, usando esse conhecimento, o ser humano pode saber o que está contido no futuro. Assim, homens e mulheres podem prever que a felicidade da humanidade está no futuro.
Isto se constitui, em nossos dias, em uma questão aberta. Teorias atuais sugerem que a história é impossível como conhecimento científico, sendo esta, não é mais do que uma simples tecnologia social.
3- Esses dois sistemas, marxismo e positivismo, podem ser considerados como teorias da revolução. Isto é, pressupondo que eles conhecem quais são os objetivos finais da história, eles implicam que é possível estabelecer os caminhos para conquistar o futuro e são unânimes em afirmar que a revolução é o único caminho.
Este é problematizado pela idéia de não ser definitivamente científico. Do mesmo modo, não existe garantia de que, caso fosse científico, esse princípio seria necessariamente verdadeiro.
Por todas essas razões, parece que o debate sobre teoria social no século XX não pode ser dissociado da discussão das bases epistemológicas da ciência.
Ou seja, com essas simples ressalvas diante da incerteza quanto a certas teorias e da eliminação da idéia de verdade absoluta, houve uma ruptura no modo do pensamento científico como era tido no séc. XIX, trazendo a luz à base para o racionalismo crítico e eliminando a idéia de dogmatismo como verdade absoluta. Fato que, para mim, é passível de ser aceito devido às argumentações e aos menores problemas causados pelas suas conseqüências.

Rodrigo disse...

Popper se considera um racionalista crítico. Mas a que racionalismo ele dirige a sua crítica? Antes de tudo, Popper crítica o homem moderno que supostamente vê a verdade. O homem da revolução cientifica moderna que pretende descobrir a verdade e projetá-la para a eternidade. Para ele é preciso superar pela crítica o indutivismo ingênuo (a idéia de uma ciência ditada pelo império das observações) e a idéia de uma razão onipotente que através do raciocínio dedutivo lógico descobre a verdade. Popper foi duro com a idéia de um fim da história associada ao profético mundo socialista marxista. Sua principal idéia se focava em desmontar cientificamente o argumento da possibilidade de uma leitura da história e derrubar a visão profética do socialismo decorrente de supostas leis imanentes. Tateando entre erros e acertos, o critério que dá substancia ao seu método é o da falseabilidade, ou o confronto rigoroso e impiedoso das teorias com a observação e a experiência. Popper alerta que seu objetivo não é o de provocar a derrocada da Metafísica como pretendem os positivistas desqualificando-a e jogando-a no campo da não significação, da conversa vazia. Ao contrário, ele considera que esse movimento asséptico, expurgado de todos os valores, cientificamente neutro dos positivistas, fez com que se aprisionasse a própria ciência no reino da metafísica. Popper também se posiciona contra o pensamento dogmático. Este pode ser entendido pela perseguição de uma verdade absoluta ditada pela observação ou pela lógica (positivismo), mas, também na preocupação da descoberta de leis imanentes e inexoráveis da história (historicismo). O antídoto que encontra contra a onipotência da razão é o relativismo, ou a idéia de que uma teoria jamais atinge a verdade, mesmo que ela tenha superado vitoriosamente os testes rigorosos. Para ele o máximo que se pode afirmar é que a teoria atual é superior às que a precederam, ou a melhor disponível. Ela jamais será a verdadeira. O pensamento dogmático ele o identifica, sobretudo, no marxismo. Nesse texto Popper discorre sobre os pontos controversos e críticos, tanto das teses naturalistas como das chamadas teses antinaturalistas do historicismo. Ele ataca a crença central do historicismo de que a função das ciências sociais seria desvendar a lei da evolução da sociedade e predizer seu futuro. Neste quadro de previsibilidade não há engenharia social que possa reformar ou corrigir ou, dito em outros termos, melhorar a sociedade pela razão ou pelas instituições e para Popper, um dos problemas do socialismo cientifico é exatamente o de não ser uma tecnologia social. Entretanto, o erro da tese marxista apontado por Popper, é o determinismo ditado pela lei do antagonismo da luta de classes sociais e a profecia da revolução, de que a situação se agravaria através da lei do empobrecimento.

Caio disse...

Achei interessante o jeito como Popper analisa as falhas epistemológicas nas grandes ideologias do século XIX, positivismo e marxismo. É verdade que essas, apesar de tentarem se calcar na ciência, eram dogmáticas, e, apesar de ambas serem contra a religião, acabaram se tornando algo similar. A idéia de que se pode obter o conhecimento verdadeiro e descobrir as leis que regem a história é não apenas errada do ponto de vista epistemológico como perigosa. Ao promover mudanças sociais e políticas tão radicais, como estas ideologias propunham, caso seu princípio esteja errado o mal acarretado poderá ser colossal. Imagine se alguém obtém sucesso na implantação de um sistema positivista ou marxisma, acabando assim completamente com o sistema anterior e suas fundações, só para descobrir que o sistema é falho. O que acontece? Tudo o que havia sido construído antes foi perdido. A retomada do antigo sistema não será fácil.

analuizavalle disse...

Neste texto, a mudança no mundo das teorias do conhecimento científico na passagem do século XIX para o século XX foi uma das conseqüências dos avanços tecnológicos e culturais. Existe uma íntima conexão entre o desenvolvimento das sociedades industriais modernas e o aumento na produção de uma cultura crítica e não-dogmática. Muitas teorias do conhecimento e teorias sobre a ciência eram concorrentes no século XIX. Duas dessas teorias revolucionárias do método científico estavam associadas à idéia que tanto os problemas do mundo natural quanto os do mundo social eram considerados como passíveis de solução: o positivismo e o marxismo. Ambas se referem à dinâmica da realidade social e podem ser consideradas como teorias sociais, além disso, há a idéia otimista de que o ser humano pode produzir conhecimento verdadeiro, sendo que a ciência adquire um aspecto dogmatista. As idéias destas teorias não agradaram a maioria, já que a sociedade foi passando, com o tempo, a rejeitar mais as verdades absolutas e a valorizar a argumentação. Resta saber como o presente seria se no passado a sociedade tivesse aceitado estas novas teorias revolucionárias. É bem provável que o progresso científico fosse afetado por tal fato.