quinta-feira, 1 de abril de 2010

CAPÍTULO 12 - Progresso Científico e Eliminação de Contradições

PROGRESSO CIENTÍFICO E ELIMINAÇÃO DE CONTRADIÇÕES


Introdução


Neste texto, pretende-se explorar a tese de Popper apresentada em "Intellectual autobiography", onde ele afirma que a "tríade dialética" (tese- antítese-síntese) pode ser interpretada como uma forma de seu método de tentativa e eliminação do erro. (1) Em um propagado artigo escrito em 1937, publicado na revista Mind 49 (1940), posteriormente revisto e republicado em Conjectures and refutations, em 1963, com o título "What is dialetic?", Popper critica a dialética em dois de seus então correntes significados: a) como teoria da lógica; b) como interpretação geral do mundo.(2)

1.


A dialética como teoria da lógica - ou lógica dialética - preconiza o abandono da "lei da exclusão das contradições". Com isto se pretendia preservar o caráter fértil das contradições como recurso lógico de compreensão do real.

Recorrendo a regras de inferência, pode-se argumentar que se uma teoria contém uma contradição, ela implica tudo, por conseguinte, implica nada. Dessa forma, uma teoria que implica contradição é inútil como teoria. Popper afirma: “No momento, devo afirmar que nossa análise não conduz à conclusão de que a dialética tem qualquer semelhança com a lógica, pois a Lógica pode ser descrita - de maneira superficial, mas suficiente para o presente propósito - como uma teoria da dedução. Não temos razões para acreditar que a dialética tem algo a ver com dedução.(3)

A força dessa crítica a certas interpretações da dialética pode ser minimizada com a alegação de que ela não demonstra de forma irrecorrível a inutilidade de teorias contraditórias, pois estas podem ter interesse em si mesmas e, ainda, podem ser corrigidas de modo a tornarem-se consistentes (impedindo que se cheguem às falsas conclusões implicadas logicamente na teoria).

Contudo, a crítica continua a valer, pois, se adotarmos uma teoria da dedução que admita a contradição, isso nos impedirá de procurar uma outra teoria que seja melhor do que ela. Se aceitarmos as contradições, já não haverá razões para a crítica - será o colapso da ciência e o fim do progresso intelectual. Criticar consiste, em grande parte, na tentativa de descobrir as contradições que uma teoria apresenta. O progresso resulta da superação dessas contradições. (4)

2.


A dialética como interpretação geral do mundo é apresentada por Popper como decorrente da postura idealista de Hegel, do materialismo dialético e do historicismo de Engels e Marx. (5) Ele argumenta que o idealismo hegeliano é:

1. uma forma de racionalismo reforçadamente dogmático, pois constitui um sistema assegurado contra qualquer tipo de dúvida, na medida em que esse sistema está pronto para conviver com contradições;

2. ambíguo em suas expressões, pois descrever o desenvolvimento da razão em termos dialéticos - que, aliás, podem ser reconhecidos como especialmente apropriados na interpretação da história da filosofia - implica na idéia de que a dialética é uma teoria do raciocínio. Contudo, quando se aplica a interpretação dialética do pensamento ao raciocínio científico isso só gera ambigüidades. Os episódios da história da ciência podem ser interpretados à luz da teoria dialética, contudo, a dialética não é apropriada para a interpretação da lógica do raciocínio científico;

3. totalmente absurdo, pois Hegel, em sua teoria da identidade, identifica a razão com a realidade. Assim, com base na tese que a razão se desenvolve dialeticamente, conclui-se que o mundo deve obedecer às leis da dialética. Popper argumenta que o "panlogismo" hegeliano desconsidera o fato de que a inexistência de fatos contraditórios não decorre de leis da física, mas é tão somente uma exigência lógica, isto é, decorre das normas que regulamentam o uso da linguagem científica.

A dialética, na interpretação de Marx, torna-se materialismo histórico. Nesse sentido, é passível de ser considerada como racionalismo reforçadamente dogmático e como ambígua em suas expressões. E, sem tirar muita vantagem disso, ela abandona a teoria da identidade de Hegel. Em Marx e Engels, a dialética torna-se teoria do desenvolvimento social. Nesse sentido, as contradições seriam as forças dinâmicas do desenvolvimento histórico. Entretanto, a dialética não pode ser tida como base segura para previsões científicas. Isso decorre, principalmente, de seu caráter irrefutável. Ela é suficientemente vaga e elástica para ajustar suas previsões a qualquer situação.(6)

Marx acreditava no desenvolvimento do conhecimento e da sociedade. Porém, os marxistas adotaram uma atitude dogmática e conservadora em relação ao sistema de Marx. Isso ocorreu na medida em que eles tomaram a interpretação marxista da dialética como a última palavra.

Como forma de reação a isso, Popper sugere que se abandone a interpretação marxista da dialética e que se procure entendê-la como forma do método de tentativa e eliminação do erro. Ele insiste na sugestão de que seria preciso dissociar Marx e suas idéias progressistas, evolucionárias, e até revolucionárias, da influência conservadora e totalitária de Hegel. O ‘marxismo científico’ teria feito das idéias de Marx um sistema dogmático "...impedindo o desenvolvimento científico que poderia ter experimentado".(7)


3.


O ponto central do argumento contra a dialética como teoria da lógica é que ela implica em contradição. A dialética, como teoria da lógica, é contraditória, pois, embora construída para preservar o caráter frutífero das contradições, resulta numa teoria estéril do argumento dedutivo. Essa lógica dialética pressupõe que as contradições são extremamente férteis para se compreender o real e produzir o progresso. Disso resulta, contraditoriamente, uma teoria da inferência lógica, na qual as contradições tornam as teorias inúteis, e a aceitação da negação torna a descoberta do novo um instru- mento de manutenção do ‘status quo’.

A resposta dialética a essa objeção só pode ser no sentido de aceitar a tese de que a dialética é de fato contraditória. E, nesse sentido, seria a síntese da fertilidade e da esterilidade de que é acusada. Seria progressista e conservadora ao mesmo tempo, mantendo o mesmo caráter contraditório de tudo o que é real. Dessa forma, seria neutralizada a crítica. Assim, Popper aponta o caráter contraditório da dialética como teoria da lógica. Ela seria uma teoria da argumentação estéril-fértil. E nada se seguiria da crítica popperiana. Disto resultaria, portanto, que o argumento de Popper teria novamente razão ao expor o caráter reacionário dessa teoria do argumento. Nesse sentido, a lógica dialética não seria inconsistente, teria tratado a crítica de tal forma que, embora ela estivesse correta, disso nada haveria de se seguir. Nenhum ganho teria havido, nem dessa contradição apontada pelo argumento, nem de nenhum outro argumento possível. E isso certamente sugeriria o fim da atividade intelectual. Popper diz: “Assim, precisamos dizer ao dialético que ele não pode manter essas duas posições ao mesmo tempo. Ou ele está interessado nas contradições por causa de sua fertilidade: então, necessita recusá-las; ou ele está preparado para aceitá-las: então, elas serão estéreis e a crítica racional, a discussão, e o progresso intelectual serão impossíveis. A única "força" que provoca o desenvolvimento dialético é a nossa determinação em não aceitar, ou rendermo-nos às contradições entre a tese e a antítese. Não existe uma força misteriosa dentro dessas duas idéias, nem uma tensão misteriosa entre elas, que promova o desenvolvimento - é simplesmente nossa decisão, nossa resolução de não admitir contradições, o que nos induz a procurar por um ponto de vista novo, que nos permitiria evitá-las. Essa resolução é inteiramente justificada, porque pode ser facilmente mostrado que, se alguém aceitasse as contradições, então, teria de abandonar toda atividade científica: isso significaria o completo fracasso da ciência.” (8)

O ponto central do argumento contra a dialética como teoria geral do mundo é que ela corresponde a uma linguagem vaga e metafórica.
A teoria de que as contradições são necessárias em razão da sua fertilidade, é uma forma metafórica e ambígua de se referir a nossa decisão de superar as situações contraditórias. Essa linguagem metafórica é perigosa, porque pode implicar a idéia de que não necessitamos evitar as contradições, o que significaria o fracasso da crítica e da racionalidade. (9)

A dialética, como teoria geral do mundo, tem sido expressa por meio de uma linguagem metafórica e confusa, na qual, em vez de "tese-antítese- síntese", fala-se em "negação", no lugar de "antítese", e "negação da negação", no lugar de "síntese". Usa-se o termo "contradição" quando o que de fato se quer dizer é "conflito" ou "oposição de tendências".

A linguagem vaga na qual têm resultado as análises dialéticas tem permitido que se mantenha a idéia de que ela é uma teoria geral do mundo capaz de interpretar todos os processos de desenvolvimento. Descrever, por exemplo, o processo pelo qual uma semente produz uma planta, que produz outras sementes, em termos de tese-antítese-síntese, é usar uma interpretação tão vaga de dialética que resulta em afirmar quase nada. (10)

4.


A resposta mais extensa e sistemática às críticas de Popper a certas interpretações da dialética foi publicada por Maurice Cornforth em 1968. (11)

Cornforth alega que, diferentemente 'daquilo que é suposto no argumento de Popper, o enfoque materialista dialético, recomendado por Marx e Engels, deveria ser interpretado em oposição ao "erro idealista da falsa abstração", ou o "tipo de erro implicado na palavra metafísica.” (12) Assim, o sentido da dialética engeliana e marxista pode ser captado em sua oposição à "metafísica". A dialética consistiria em alternativa diante da constatação do fracasso da metafísica em conectar e inter-relacionar as coisas. A metafísica, ao considerar as coisas individualmente, teria perdido o sentido das interconexões que constituem o real. (13) Cornforth diz: “A interpretação que Engels faz da dialética torna claro que, para o marxismo, o enfoque dialético significa considerar as coisas em suas reais interconexões, em vez de separadas e, portanto, em suas mudanças (vindo a ser e se extinguindo) em vez de abstrair da mudança.” (14)

No que tange às críticas de Popper à dialética em Hegel, Cornforth assume-as na extensão suficiente para se desfazer do idealismo hegeliano. Contudo, pretende resgatar o significado da dialética implicado em Hegel
.
Na interpretação de Cornforth, a tradição filosófica teria produzido um enfoque materialista metafísico. Hegel teria contribuído com uma visão idealista dialética. Porém, apenas em Marx é que se teria produzido um modelo materialista dialético de filosofia. Cornforth afirma: “Hegel (e, em grau menor, Platão) oferece uma lição de como um bom enfoque dialético, oposto ao enfoque não-dialético ou metafísico, pode transformar-se em bobagem ao ser combinado com o idealismo. O pensamento materialista, anterior a Marx, da mesma forma, fornece uma lição de como um bom enfoque materialista, oposto ao idealismo, pode se tornar uma bobagem ao ser combinado com a metafísica ou ao se tornar não-dialético".(15)

O que a interpretação de Cornforth sobre a obra de Hegel parece sugerir é que o materialismo dialético de Engels e Marx expressam o que há de melhor nessa obra.
Segundo Cornforth, o argumento de Popper de que o materialismo dialético expressa um dogmatismo reforçado não procede. Embora constituído por princípios metodológicos gerais, o materialismo dialético não implica previsões, sendo, portanto, irrefutável. Porém, as previsões baseadas no materialismo dialético seriam falseáveis. Do que se segue que a acusação de "dogmatismo reforçado" só seria pertinente se dirigida à atitude de certos marxistas. (16)

O problema com a resposta de Cornforth às críticas de Popper a certa interpretação da dialética é que ele não responde de fato às críticas feitas. Apenas contesta de forma direta a alegação de Popper de que a interpretação identificada como alvo da crítica é a interpretação de Marx e Engels.

A interpretação que Cornforth apresenta do significado da dialética em Engels e Marx é, em grande parte, uma reação às críticas de Popper. O que isso significa é que Conrforth teria produzido uma interpretação do significado da dialética em Marx e Engels de forma a escapar dos pontos críticos apontados por Popper. O que Cornforth faz é produzir uma interpretação de Engels e Marx, para os quais as críticas de Popper perderiam a sua força. Em última instância, ele parece contrapor sua interpretação de Engels e Marx à interpretação de Popper. O que ele parece produzir, contudo, é muito próximo de uma interpretação popperiana de Marx e Engels.

Tomemos apenas dois exemplos de como isso acontece. Primeiramente, Popper critica a interpretação de que a dialética seria uma teoria da dedução, da qual se excluiria o princípio de identidade. Em resposta, Cornforth interpreta a dialética de forma que ela não implique a exclusão do princípio de identidade. (17)

Em segundo lugar, Popper critica Hegel, Marx e Engels por causa de sua teoria geral do mundo. Cornforth alega que, assim como o rei Midas, que transformava tudo o que tocava em ouro, Popper reduz tudo o que discute a absurdos. Assim, o materialismo dialético lhe parece uma bobagem, porque a reconstrução que ele faz é absurda. (18)

De uma forma geral, a resposta de Cornforth às críticas de Popper poderiam ser resumidas na constatação de que aquele pretende indicar o sentido da verdadeira crítica. Verdadeira seria a crítica construtiva. E esta consistiria em aplicar as regras do método materialista dialético. As críticas de Popper não são fundamentadas num enfoque materialista dialético, do que se segue que elas operam com falsas abstrações. Segundo Cornforth, o materialismo dialético constitui 'uma base legítima', porque as teorias que não o empregam permanecem abstratas e parciais". (19)

Assim, criticar o Marxismo conforme os princípios do materialismo dialético, consistiria em apontar os desvios na aplicação desses mesmos princípios. Criticar os marxistas consistiria em demonstrar que eles não foram suficientemente longe na aplicação daquilo que Marx, Engels e Lenin estabeleceram como método da investigação.(20)


5.



Popper argumenta que a dialética - ou a teoria da tríade dialética pode ser descrita nos termos de uma teoria que sustenta que certos desenvolvimentos ou processos históricos se desenrolaram de forma típica. Contudo, nesses casos, assim como em outros, seria mais elucidativo considerá-la como parte da teoria da tentativa e eliminação do erro. Popper afirma: “A dialética ou, mais precisamente, a teoria da tríade dialética, sustenta que certos desenvolvimentos, ou certos processos históricos, ocorrem numa certa forma. Assim, ela é uma teoria empírico-descritiva, comparável, por exemplo, com a teoria que afirma que muitos dos organismos vivos aumentam seu tamanho durante certo estágio de seu desenvolvimento, que então permanece constante para, finalmente, diminuir até que eles morram, ou com a teoria que sustenta que as opiniões são mantidas dogmaticamente, num primeiro momento; em seguida, ceticamente, e, somente depois, num terceiro estágio, com um espírito científico, isto é, criticamente. Assim como essas teorias, a dialética não é aplicável sem exceções - a menos que forcemos as interpretações dialéticas - e, do mesmo modo que essas teorias, a dialética não tem uma especial afinidade com a lógica.” (21)

O argumento parece sugerir que, dar à dialética uma interpretação evolucionária, baseada na teoria da tentativa e eliminação do erro, poderia resgatá-la de suas atuais dificuldades e dar-lhe uma forma mais adequada às exigências de construção de teorias racionais.

A interpretação evolucionária do conhecimento humano faz parte do contexto mais amplo da teoria geral da evolução da vida. Popper argumenta que existem três níveis em que se processa a adaptação do ser humano e, nesses três níveis, o processo de adaptação é sempre o mesmo: (22)

1. A adaptação genética, que corresponde à mutação de um gene; isso altera a relação com o meio ambiente, do que se segue a possibilidade de novas adaptações genéticas.

2. A adaptação comportamental, que corresponde à mutação do comportamento; isso significa a mudança do próprio meio ambiente, do que se seguirão pressões no sentido de que novas alterações genéticas se processem.

3. A adaptação cognitiva, que corresponde à mutação das teorias ou idéias. Essa adaptação acontece, principalmente, por meio da produção do conhecimento científico.

Baseando-se em problemas, ou em situações-problema, o ser humano propõe certas conjecturas ou hipóteses, que talvez resolvam esse primeiro problema. Mas novos problemas surgirão, ainda mais profundos e comprometedores, cuja solução conjectural proporá outros ainda mais numerosos. Assim evolui o conhecimento racional, do qual a ciência é um caso particular.

Todo processo de adaptação surge da existência de uma "estrutura herdada", que se corresponde nos três níveis. Assim, há a "estrutura genética do organismo", que é o fundamento da adaptação genética; há o "conjunto inato de padrões de comportamento", que é o fundamento da adaptação comportamental; e, finalmente, há as "teorias e conjecturas científicas vigentes", que constituem o fundamento da adaptação cognitiva. Essas estruturas herdadas são sempre transmitidas pela instrução. Assim, o ser humano é instruído genética, comportamental e cognitivamente.

Essas "estruturas herdadas" sofrem certas pressões, que exigem mutações ou adaptações ou evolução. As instruções herdadas, quer geneticamente quer por meio da tradição, estão sujeitas a pressões, desafios e problemas e, conseqüentemente, sofrem variações. Porém, há ainda um problema a ser resolvido, pois a "estrutura herdada" sofre pressões que surgem no interior da própria estrutura, podendo ocorrer, assim, modificações ou variações nas "instruções herdadas". Cabe, ainda, indagar sobre a forma pela qual se processa a "seleção" entre mutações ou variações possíveis.

A seleção se processa pelo método do ensaio e da eliminação do erro. As tentativas não adaptadas perecem, enquanto as mais adaptadas e de maior sucesso se transmitem. Dessa forma, embora o processo caminhe para mutações solucionadoras de problemas, jamais atingimos uma solução final. Há sempre a possibilidade de uma nova mutação mais apropriada para atender as pressões exercidas sobre a estrutura. Na análise de Popper: “Cumpre notar que, via de regra, não se atinge o estado de equilíbrio adaptativo em qualquer aplicação do método da tentativa e eliminação do erro, isto é, pela seleção natural. Em primeiro lugar, porque soluções perfeitas, ou ótimas, para o problema, dificilmente se apresentam. Em segundo lugar - e este é o ponto importante -, porque a emergência de novas estruturas, ou de novas instruções, provoca uma alteração da situação ambiental. Elementos novos dos ambientes podem tomar-se relevantes: em conseqüência, novas pressões, novos desafios e novos problemas podem manifestar-se, como resultado de mudanças estruturais que surgiram de dentro do organismo.” (23)

A teoria da ciência inspirada nessa perspectiva evolucionista estabelece as bases para uma teoria evolutiva do progresso científico. Há, portanto, um esquema válido, que representa uma descrição racional da emersão do ser humano no processo evolucionário, da autotranscendência por meio da seleção e da crítica racional. (24)

Esse esquema toma evidente a analogia que existe entre a evolução biológica, até o surgimento do ser humano, e o processo do conhecimento científico.

Esse processo é de natureza evolutiva. Aplica-se tanto à evolução biológica dos seres vivos como ao progresso do conhecimento científicos. (25)


Conclusão


Apesar da confissão de Popper de haver proposto seu esquema evolucionário, ao tentar interpretar o processo trifásico da dialética tese-antítese-síntese, como considerando-a uma forma do método de tentativa e erro, podemos notar que a similaridade entre os dois processos é apenas superficial. (26) No processo dialético hegeliano, as contradições são partes integrantes do processo, não devendo, portanto, ser eliminadas; elas representam elementos impulsionadores do processo, não havendo lugar para a atitude crítica. (27)

Por outro lado, no esquema evolucionário, a eliminação do erro processa-se por meio das críticas que procuram identificar as contradições e eliminá-las. A eliminação das contradições significa o crescimento do conhecimento na busca da verdade. Portanto, o esquema evolucionário de Popper não pode ser entendido como análogo ao processo dialético hegeliano.

Conforme podemos depreender do esquema evolucionário, o conhecimento científico começa com problemas e termina com problemas. Inicia-se pelo problema, com todas as suas implicações. De um ponto de vista lógico, a primeira etapa do processo de conhecimento é a identificação da situação-problema.

O que se pretende, com este texto, é retomar os argumentos popperianos críticos da dialética. Parece que, até hoje, não foram oferecidas boas respostas às críticas que esses argumentos contem.

Não é relevante para essa crítica a conclusão de que ela não corresponde a uma interpretação fiel da dialética de Hegel, Engels ou Marx. Mais importante do que isso é o sentido que as críticas de apresentam. Elas parecem indicar uma interpretação do sentido do processo da natureza e do progresso do conhecimento. Nesse sentido, a dialética aparece como um caso especial da teoria da tentativa e eliminação do erro.

O que isso sugere é que, em seu sentido renovado, isto é, como forma do método de tentativa e eliminação do erro, a dialética poderia ser revivida como instrumento eficiente na análise de determinadas situações. O sentido renovado da dialética nos permite refletir sobre o significado das controvérsias no progresso do conhecimento racional, com especial referência ao papel da eliminação das contradições na construção do conhecimento científico.


Notas e referências


1.POPPER, KARL R. "Intellectual autobiography" in SCHILPP, PAUL ARTHUR (ed.) The philosophy of Karl Popper. Col. "The Library of Living Philosophers", vol. XIV, livro 1. La Salle, Illinois, Open Court, 1974, p. 105.

2. Idem. Conjectures and refutations. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1972, pp. 312-335.

3. Idem, ibidem, p. 322.

4. Idem, ibidem, p. 316.

5. Idem, ibidem, p. 329.

6. Idem, ibidem, p. 333.

7. Idem, ibidem, p. 335.

8. Idem, ibidem, p. 317.

9. Idem, ibidem, p. 322.

10. Idem, ibidem, p. 323.

11. CORNFORTH, MAURICE. The open philosophy and the open society: A reply to Dr. Karl Popper's refutations of marxism. Nova York, International Publishers, 1976, pp. 60-126.

12. Idem, ibidem, p. 60.

13. Idem, ibidem, pp. 60-61.

14. Idem, ibidem, p. 67.

15. Idem, ibidem, p. 69.

16. Idem, ibidem, p. 94.

17. Idem, ibidem, pp. 76-77.

18. Idem, ibidem, p. 123.

19. Idem, ibidem, p. 89.

20. Idem, ibidem, pp. 100-101.

21. POPPER, KARL R. Conjectures and refutations. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1972, p. 322.

22. Idem. 'A racionalidade das revoluções científicas, in HARRÉ, ROM (org.) Problemas da revolução científica. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1976, pp. 92 ss.

23. Idem, ibidem, p. 94.

24. Idem. Objective knowledge. Oxford, Clarendon Press, 1981, p. 288.

25. Idem. "Autobiography", in SCHILPP, PAUL ARTHUR (org.) The philosophy of Karl Popper. Col. "The Library of Living Philosophers", vol. XIV, livro 1. La Salle, Ilinois, Open Court, P. 105.

26. Idem. Objective knowledge. Oxford, Clarendon Press, 1981, pp. 126-127.

27. Idem. Conjectures and refutations. Londres, Routledge & Kegan Paul, 1972, p. 326.

9 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros Alunos,
Após ler o texto, faça um breve comentário de 15 linhas.

Alessandra disse...

A dialética é um método que nos ajuda a encontrar as contradições de uma teoria, e confrontando-as, fazemos as teorias se superarem. Infelizmente esse método, segundo alguns pensadores, apresenta problemas como não ser clara o suficiente e que a sua irrefutabilidade não nos dá uma boa base para previsão científica.
A contradição que temos pela dialética nos retorna 2 pontos importantes: ela é fértil (na contradição) e infértil (quanto a crítica raciaonal), cabe a nós não aceitar tal contradição e debater a respeito para encontrar algo que de algum ponto de vista torne possível superá-la. O cuidade que devemos ter vem do problema citado anteriormente, a linguagem metafórica pode nos fazer aceitar a contradição.
Popper dá a ideia de tratar a dialética como tentativa e eliminação do erro, como uma parte do processo da teoria da evolução (discutida em outros textos). Ela seria ferramenta de pressão, evolução e eliminação de erros [no processo da teoria]. Entretanto essa forma não tem uma afinidade com a lógica, e isso nos permite dizer que o conhecimento científico está em progresso assim como o ser humano.
Hegel nos dizia que as contradições não devem ser eliminadas, elas fazem parte da impulsão do progresso, mas não nos dão direito a fazer uma análise crítica justamente por essa aceitação. Marx concordava com o fator de irrefutabilidade. Popper é o único que nos apresenta a dialética como uma ferramenta para crítica e debate de teorias para evolução destas.
A dialética nos faz trabalhar em torno das maiores problemas de uma teoria, as contradições que nela podem haver. Essa essência de sua metodologia é como uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo que nos dá a chance de "evoluir" na problemática da teoria, pode nos fazer por aceitar um absurdo. Tal situação nos faz compreender porque foi uma "ferramenta abandonada", mas se pensarmos no rico material que nos traz para a crítica seria um método interessante para se trabalhar.

Lucas R. P. disse...

A dialética Hegeliana consistia basicamente na adoção das contradições como fundamentais para a compreensão da realidade. O argumento a favor desta adoção seria principalmente o caráter “criativo” das contradições, ou seja, há um interesse nelas por elas mesmas. Popper criticou a dialética de Hegel, considerando-a dogmática, pois se pode “escapar” de críticas e de previsões errôneas de forma, no mínimo, heterodoxa. Para Popper este tipo de teoria é um erro que deve ser eliminado. Se teorias deste tipo fossem aceitas, duas conclusões seriam corretas e incorretas ao mesmo tempo, acarretando na destruição do conceito de progresso científico.
Entretanto as contradições são um instrumento de utilidade restrita, mas importante, pois ao estudá-las percebe-se que estas mostram um “caminho errado” ou alguma má formação lógica em suas proposições. O que se pode descobrir também, se partindo de uma proposta considerada contraditória, é descobrir que ela não é realmente uma contradição, mas sim um tipo de afirmativa de sentido estritamente falso.
Assim parece mais interessante analisar as contradições como restrições para que uma teoria prossiga, e depois deve-se tentar procurar a parte em que a contradição começou a ser formada e a partir do momento anterior a esse , seguir por outro “caminho”.

Israel Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ney carvalho disse...

Contrario as aplicações que a dialética estava tendo, um caso que era utilizada como teoria da lógica, critica que seu uso para essa finalidade descaracterizava os princípios das contradições nas teorias. Popper afirma contradizendo o uso dessa para a lógica, que uma teoria que possui contradição é uma teoria falha ou uma teoria inútil, porem é justamente a superação dessas contradições que se eleva o grau de sabedoria e conhecimento a respeito dessa teoria, que até então possuía essa contradição assim sendo considerada uma teoria falha, mantendo uma característica de fertilidade nessas contradições, e como a lógica seria uma teoria de dedução, no encontro de contradições essa não poderia ser descartada,não sendo substituída por outra, ou teria que ser aceita, descaracterizando o uso de criticas, assim descartando o aspecto de ciência sobre tal.
A utilização dessa dialética por Marx, Engels e Hegel também é razão de criticas feita por Popper, uma vez que Marx e Engels aplicam em seu historicismo, já explicitado por Popper como não sendo uma ciência. Já Hegel é classificado como irracional, já que sua teoria da identidade considera que a razão se desenvolve dialeticamente, assim o mundo deve essas dialéticas.
Quanto ao uso dessa dialética como teoria lógica , a teoria em si já é contraditória, caracterizando como aceitável o aspecto das contradições nas teorias, mantendo um status de utilização para um progresso dessas teorias, mas apenas mantendo uma aceitação e estagnação das mesmas, o que caracteriza essa contradição apresentada por Popper em sua obra, ou como ele diz estéril-fértil.

Rodrigo disse...

De acordo com o texto, conseguimos visualizar alguns aspectos do olhar do filósofo falsificacionista a respeito do método dialético de Hegel e suas implicações ou conseqüências.. O erro principal de Hegel, segundo Popper, está em manter uma postura essencialista fixa que faz da dialética a chave capaz de desvendar os mistérios do passado, do presente e do futuro. Estamos, é certo, diante de dois modelos teóricos totalmente diferentes e incompatíveis. De um lado o idealismo de Hegel, que tem na dialética, a pretensão de fazer uma unidade entre razão e história. De outro, encontramos o racionalismo crítico de Popper e sua defesa a um dualismo e indeterminismo, a partir de sua filosofia falsificacionista. Popper procura promover esse confronto crítico dos dois métodos, pretendendo demonstrar que em Hegel, há diversas incoerências. A principal é a de pretender fazer de seu método a chave explicativa de tudo (unir razão e história) pelo princípio filosófico da identidade, e de confundir mundo e conceito através de um idealismo objetivo, além de confiar numa intuição racional e de manter a contradição em seu sistema. Ainda mais grave é pretender, que o ideal seja igual ao real, sendo nesse modelo de filosofia que Popper pretende encontrar as raízes do totalitarismo e historicismo moderno e contemporâneo, através dessa vertente filosófica determinista que justifica uma sociedade fechada. O distanciamento teórico, por muitas vezes incompatível, entre o racionalismo crítico de Popper e o idealismo objetivo de Hegel – o primeiro proveniente da tradição empirista justifica em grande parte o modo como Popper trata a dialética hegeliana até, por vezes, de modo caricaturado e taxativo. Embora, por vezes, considerando Popper muito simplista e reducionista em relação a Hegel por não abrir nenhum tipo de concessão ao método dialético, podemos concordar com o exagero na pretensão hegeliana de fazer do seu método um modelo perfeito de descrição da política e da história. Contudo, muito para além dessa comparação filosófica com relação aos métodos, o que permanece de mais importante é a necessidade de evitar uma atitude não-refletida diante dessas críticas, e, sobretudo, atentar em que medida, em certos momentos, a filosofia pode tornar-se um ‘instrumento’ de justificação histórica e política, alimentando modelos deterministas, totalitaristas e de fechamento social. Outra conseqüência é a necessidade de se pensar uma sociedade aberta, um conceito novo de política que consegue olhar para além de seu contexto político e geográfico que, se estiver fechado em si mesmo, limita e introduz uma concepção restritiva, populista, demagógica do representante político que quer “salvar o mundo”. Essas, talvez, sejam as principais contribuições de Popper para a ética e a política contemporâneas, muito além de uma discussão polarizada entre uma concepção de sociedade liberal ou totalitária

Giuliano disse...

Esse texto, por fim, mostra a distinção entre a teoria do processo trifásico da dialética (tese-antítese-síntese) e a teoria evolucionista.
A principio, são feitos argumentos sobre a crítica e a previsão da teoria dialética:
“A crítica continua a valer, pois, se adotarmos uma teoria da dedução que admita a contradição, isso nos impedirá de procurar uma outra teoria que seja melhor do que ela. Se aceitarmos as contradições, já não haverá razões para a crítica - será o colapso da ciência e o fim do progresso intelectual.”
Devido ao seu caráter irrefutável, a dialética não oferece base segura para a previsões científicas.
Apesar da crença de Marx sobre o desenvolvimento do conhecimento e da sociedade, marxistas tomaram sua teoria de forma dogmática. Com isso Popper sugere o abandono a interpretação marxista da dialética e que se procure entender como método de tentativa de eliminação de erro.
Para Popper, é necessário tomar uma posição: ou alguém está interessado nas contradições por causa de sua fertilidade: então, necessita recusá-las; ou ele está preparado para aceitá-las: então, elas serão estéreis e a crítica racional, a discussão, e o progresso intelectual serão impossíveis.
Segundo Cornforth, crítico das críticas de Popper, o materialismo dialético constitui 'uma base legítima', porque as teorias que não o empregam permanecem abstratas e parciais.
Então surge a discussão quanto a teoria evolucionista da ciência:
Apesar de analisar a teoria da dialética (tese-antítese-síntese), como considerada uma forma do método de tentativa e erro, podemos notar que a similaridade entre os dois processos é apenas superficial já que no processo dialético hegeliano, as contradições são partes integrantes do processo, não devendo, portanto, ser eliminadas; elas representam elementos impulsionadores do processo, não havendo lugar para a atitude crítica.
No esquema evolucionário, a eliminação do erro processa-se por meio das críticas que procuram identificar as contradições e eliminá-las. A eliminação das contradições significa o crescimento do conhecimento na busca da verdade trazendo assim a claridade às distinções entre os métodos.
Na minha concepção a crítica de Popper ao sistema dialético não foi muito bem sucedida, mesmo assim, se sobrepõe a idéia de Cornforth, devido a ser muito explicativa no sentido do porquê de não poder ser utilizada como teoria para o avanço científico, mas mesmo assim, criticada. Apesar dessas considerações, é fácil verificar as diferenças entre ambos e escolher, contando com outras imposições já discutidas, qual processo pode levar mais prontamente ao avanço científico.

Caio disse...

O argumento principal apresentado por Popper é o de que na dialética as contradições são mantidas pois são partes integrantes do processo enquanto no processo evolutivo do conhecimento as contradições são eliminadas. De fato como o intuito da dialética é se chegar a um concenso pode-se facilmente imaginar que as contradições podem ser ignoradas com o fim de agradar as duas partes. O fato de ela ter sido vista por muitos como uma teoria geral do mundo capaz de interpretar todos os processo de desenvolvimento também parece ser um tanto dogmática a meu ver.

analuizavalle disse...

"Ser ou não ser, eis a questão...". Do meu ponto de vista, era impossível entender o mundo sem me apoiar em contradições. O certo nem sempre é certo, o errado nem sempre é o errado. Logo, ler este texto, fez com que eu reflita ainda mais sobre o assunto, já que eu mesma me sinto um tanto contraditória porque também me baseio na lógica para buscar soluções!
A dialética hegeliana considera as contradições fundamentais para a interpretação da realidade. Tal fato vai contra aquilo que Popper defende, e contra o racionalismo crítico. Na verdade, se contradições são aceitas, podem ser consideradas dogmas, já que seriam irrefutáveis. Ao mesmo tempo, poderiam ser encaradas como erros e serem eliminadas, esta foi a posição adotada por Popper. Desta forma, o esquema evolucionário de Popper não pode ser visto como análogo ao processo dialético hegeliano, no entanto, a dialética pode ser considerada como um caso especial da teoria da tentativa e eliminação do erro, além de ser um eficiente instrumento na análise de situações.
Chego a conclusão de que contradições auxiliam no progresso científico, independente se são encaradas como erros ou como ponto de partida para a análise de determinadas situações.