sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

CAPÍTULO 1 - Karl Popper e o Racionalismo Crítico

Karl Popper e o Racionalismo Crítico


“...amplamente reconhecido no exterior, no Brasil Popper só é conhecido em círculos muito restritos. Por quê? Talvez por ter submetido a uma crítica rigorosa os fundamentos das ideologias marxista e hegeliana, que há longos anos exercem uma hegemonia em nossos meios intelectuais.”(Editorial, O Estado de S. Paulo, 1/9/1979)

Introdução

A produção intelectual sobre Teoria do Conhecimento Científico na segunda metade do Século XX, especialmente, aquela que resultou dos debates travados entre autores racionalistas críticos e seus interlocutores, constitui-se de dois enfoques fundamentais: de um lado, temos a crítica à pretensão científica dos autores de algumas teorias do final do século XIX e do início do século XX; de outro lado, temos a elaboração de um conjunto de teses que constituem, mais propriamente, a Teoria do Conhecimento Científico do racionalismo crítico. Essas teses corresponderiam ao desenvolvimento de um certo modelo de racionalidade inspirado na prática dos cientistas do século XX. Portanto, são destinadas ao fracasso todas as tentativas de interpretar o racionalismo crítico que desconsiderem seu aspecto unitário, expresso na interdependência dessas duas partes, isto é, a crítica dos fundamentos epistemológicos de certas teorias científicas, matemáticas e filosóficas e a teoria do conhecimento científico do racionalismo crítico.

No Brasil, durante décadas foram correntes certas interpretações do racionalismo crítico que expressam uma visão parcial e, portanto, inadequada de grande parte de suas teses principais. A unidade dos enfoques acima apontados, dá ao pensamento racionalista crítico um caráter controverso que, certamente, não interessa àqueles que querem usar apenas algumas de suas teses como instrumento na luta ideológica. Contudo, é em decorrência dessa unidade que o racionalismo crítico é indissociável de uma teoria crítica das ideologias em geral e algumas das teses do racionalismo crítico são particularmente críticas das ideologias dogmáticas, como aqui se sugere serem as ideologias conservadoras favorecidas pela divulgação incompleta e inadequada do pensamento racionalista crítico.

Alguns tópicos da biografia de Karl Popper, seguramente o mais importante dos racionalistas críticos, são suficientes para indicar que ele é um crítico mordaz dos "grandes mitos" de sua época. O inventário de suas obras permite a conclusão de que as suas idéias contêm uma visão da razão científica como instrumento de debate e crítica.

1.


Alguns poucos aspectos da biografia de K. Popper são suficientes para corroborar a tese de que ele teria se insurgido contra certos programas de pesquisa que eram comuns entre os cientistas e filósofos da primeira metade do século XX.

Karl Raimund Popper nasceu em 28 de julho de 1902, em Himmelhof, distrito de Ober St. Veit em Viena, na Áustria e morreu em 17 de setembro de 1994 em Londres, na Inglaterra. Seu pai era o erudito advogado Dr. Simon Siegmund Carl Popper, que se doutorara em leis, e sua mãe, Jenny Schiff Popper, associava os trabalhos domésticos a um grande pendor para a música.

Esse ambiente cultural diversificado, no qual os ideais de um profissional liberal se somam ao interesse pelas artes, terá profunda influência no pensamento de Popper. De fato, no desenvolvimento de suas idéias, ele apresentará uma visão aberta de ciência, criticando a compartimentalização do conhecimento em setores com objetos e métodos próprios, proporá a crítica mútua como regra do procedimento racional, afirmará a importância da liberdade para as práticas que constituem a atividade racional. Ainda, há que se destacar o fato de que seu pensamento se espraiará por inúmeros temas, desde a física e a teoria social até a filosofia da música.

Em 1918, após os primeiros estudos, Popper matricula-se na Universidade de Viena como ouvinte, onde somente em 1922 vai tomar-se aluno regular. Durante um breve período, como "todo jovem de sua época", tornou-se comunista.(1)

Porém, logo se desiludiu com o caráter dogmático da teoria que estava por trás das propostas comunistas. Assim, Popper adere aos ideais social-democratas. Ele descreve essa mudança nos seguintes termos: “Aos 17 anos, tornei-me antimarxista. Compreendi que o marxismo tinha cunho dogmático e que era incrível sua arrogância. Terrível a gente admitir que possuía uma espécie de conhecimento que transformava em dever arriscar a vida de terceiros em prol de um dogma acolhido sem crítica ou de um sonho que, afinal, poderia jamais se concretizar. E isso era particularmente aterrador em se tratando de intelectuais, de pessoas que sabiam ler e pensar. E era deprimente a idéia de haver caído na armadilha.”(2)

Não foi somente com o marxismo que Popper rompeu. Esse foi apenas um primeiro passo para que ele se desiludisse também com a Teoria da Ciência e com as teorias da Psicologia que estavam em moda em sua época. Havendo tomado contato com as teorias de Einstein e, principalmente, com a forma como este interpretava suas próprias teorias na Física, Popper afasta-se da Teoria da Ciência em voga no início do século XX. Argumentando que Einstein apresentava o destino das teorias em Física como sendo o de abrir margens para uma teoria mais ampla que contraditasse as anteriores, Popper vai encontrar subsídios para sua teoria de que houvera uma revolução na forma de interpretar as teorias científicas.(3)

Assim, em contraposição ao dogmatismo com que eram apresentadas as teorias intituladas científicas, Popper identifica o caráter crítico e conjectural das teorias propostas por Einstein. Formula-se, então, o primeiro impasse que Popper se propõe a resolver: se as teorias de Einstein são científicas, então, as teorias definitivas não são científicas. A identificação da estrutura epistemológica das teorias científicas torna-se uma tarefa constante no trabalho de Popper. E ele procura resolver essa questão mostrando que existe distinção entre teorias conjecturais e teorias definitivas, de tal forma que elas são incompatíveis em sua estrutura epistemológica.

Por essa mesma razão, Popper rompe com duas das mais conhecidas teorias da psicologia de seu tempo. Afasta-se da teoria da psicanálise de S. Freud e da teoria da psicologia do indivíduo de A. Adler. Seu rompimento definitivo com a psicologia adleriana deveu-se à sua insatisfação com o caráter altamente explicativo das teorias de Adler. Isto é, a teoria de Adler era construída de forma a sempre coincidir com qualquer evento. Popper relata um interessante episódio que ilustra bem a inquietação que lhe causavam certas teorias que "tudo explicam". Ele diz: “Certa vez, em 1919, informei-o (Adler) de um caso que não me parecia ser particularmente adleriano, mas que ele não teve qualquer dificuldade em analisar nos termos de sua teoria do sentimento de inferioridade, embora nem mesmo tivesse visto a criança em questão. Ligeiramente chocado, perguntei como podia ter tanta certeza. "Porque já tive mil experiências desse tipo", respondeu; ao que não pude deixar de retrucar: "Com este novo caso, o número passará, então para mil e um...”. (4)

A atitude crítica de Popper não se limita às teorias sobre Ciência correntes entre os filósofos profissionais, ao marxismo e às teorias da Psicologia consideradas científicas no final do século XIX e início do século XX. Ele rompe, também, com as teorias filosóficas dominantes nessa época. Embora tenha se iniciado no positivismo lógico do Círculo de Viena, Popper logo se afasta da verdade oficial da moda filosófica dessa escola e se transforma em crítico contumaz das teorias defendidas pelos seus vultos mais expressivos. É o próprio Popper quem afirma: ”Todos sabem, atualmente, que o positivismo lógico está morto. Mas poucos se lembram de que há uma questão a propor aqui: a pergunta "Quem é o responsável?" ou, antes, "Quem matou o positivismo lógico?"... Receio que eu deva assumir a responsabilidade. Todavia, não agi propositadamente: minha intenção era a de assinalar o que me parecia ser uma série de enganos fundamentais.” (5)

O ponto que se pretende argumentar aqui é que Popper não é apenas um crítico do caráter científico do marxismo. Sua principal contribuição para a moderna epistemologia não se reduz a suas teorias sobre o problema teórico da separação entre Ciência e não-ciência, de tal forma que exclui da Ciência as teorias de Marx, Freud e Adler. Popper não é apenas um crítico do positivismo.

A contribuição de Popper não pode ser dissociada do fato de que ele foi um fértil teórico da Ciência. Seus trabalhos mais significativos se encontram no campo da Filosofia da Ciência, com especial referência aos problemas da Teoria do Conhecimento Científico. Suas teorias mais provocativas se referem às questões do método em Ciência, especialmente em Ciências Naturais.

Muitas vezes, Popper tem sido apresentado como um pensador anti-marxista; freqüentemente, ele é tido como anti-freudiano. Em poucas e esporádicas ocasiões, fala-se de seus argumentos contra o Positivismo.(6) De uma forma geral, são bem conhecidas apenas aquelas passagens em que Popper é pungentemente crítico do marxismo, da psicanálise, da psicologia do indivíduo e do positivismo. Em contrapartida, não se tem dado muita atenção a suas sugestões positivas, no sentido de identificar as características do procedimento científico, e a suas teses sobre a natureza hipotética e conjectural da racionalidade moderna. Contrariamente àquilo que, de forma explícita, Popper tentou evitar, alguns tentam fazer de seu pensamento uma moda filosófica com implícita intenção de tirar proveito para suas próprias causas.

A esse uso corrente, deve-se contrapor a crítica de que ele resulta numa interpretação inadequada do pensamento de Popper, pois desconsidera a unidade de enfoques como uma característica fundamental de seu empenho em desenvolver as teses do racionalismo crítico.

Tendo completado seus estudos na Universidade de Viena, onde defendeu tese de doutoramento sobre psicologia ("On the problem of method in the psychology of thinking"), Popper passou a viver da atividade de professor secundário de Matemática e Física. Enquanto isso, preparava a publicação de um livro intitulado “Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento”. Nesse texto, Popper discute dois temas fundamentais para as posições do Círculo de Viena: o problema da indução, também chamado de "problema de Hume", e o problema da demarcação entre conhecimento científico e não-científico, ao qual Popper se referia como o problema de Kant. A recusa da indução e de qualquer mecanismo justificacionista (formação de uma crença por meio de repetição) como método do conhecimento científico, e a proposta da falseabilidade como característica epistemológica do discurso científico, constituir-se-ão nas duas teses fundamentais do racionalismo crítico proposto por Popper.

Embora descendente de família judia, os pais de Popper haviam optado pelos princípios cristãos, tendo sido batizados na igreja protestante de fé luterana. Isso teria provocado o descontentamento e a perseguição daqueles que eram fiéis à fé hebraica professada pelo povo judeu e que entendiam que os dissidentes eram uma ameaça. Por outro lado, embora convertidos ao cristianismo, isso não livrou Popper e sua família das agruras e embaraços provocados pelo anti-semitismo. Assim, quando Hitler toma o poder na Alemanha, percebendo a iminência da invasão da Áustria, em 1937, Popper e sua esposa dirigem-se para a Nova Zelândia. Ali, Popper dedica-se ao ensino de Filosofia. Esses acontecimentos correspondem à fase em que Popper se concentra no estudo de alguns temas de Epistemologia das Ciências Sociais.

Durante os anos que se seguem, até 1946, Popper dedicou-se à preparação de sua grande obra política intitulada “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Nesse mesmo período, ele prepara uma série de artigos que serão publicados nas mais conceituadas revistas européias. Esses artigos marcam a introdução de Popper na polêmica a propósito de temas sobre o método das Ciências Sociais.

Terminada a guerra, logo no ano seguinte, Popper começa a trabalhar na London School of Economics and Political Science na Inglaterra. Durante 23 anos, até sua aposentadoria, Popper exercerá a função de professor de Lógica e Método Científico.

Ao fim da primeira metade do século XX, o positivismo estava em pleno sucesso na Inglaterra. De um lado, encontrava-se a escola empirista de Russel e Ayer. De outro lado, pontificava a filosofia da linguagem de Wittgenstein. Estando Popper em desacordo com essas duas correntes filosóficas, os primeiros confrontos eram inevitáveis. Aos poucos, porém, seu pensamento vai se impondo na Inglaterra, a tal ponto que se pode afirmar que, com sua influência, uma nova série de temas passou a dominar a agenda da Filosofia da Ciência na Inglaterra, no início da segunda metade do século XX.

2.

O desenvolvimento das idéias de Popper mantém uma estreita relação com a construção do conjunto de teses que constituem as teses fundamentais do racionalismo crítico. A produção intelectual de Popper percorre um percurso que se inicia com temas na Filosofia e Lógica das Ciências Naturais e, posteriormente, evolui para temas de Filosofia do Método em Ciências Sociais.

Sua primeira obra, intitulada Logik der Forchung, foi escrita em 1934. Esse livro contém uma série de argumentos que inevitavelmente fariam dele uma obra crítica do positivismo. Contudo, o fato de esse livro ter sido publicado numa série sob direção de Philipp Frank e Moritz Schlick, e que se destinava a divulgar o pensamento positivista, foi responsável pela propagação, até nossos dias, da idéia de que Popper teria sido um autor positivista. O livro é composto de duas partes. Numa primeira, intitulada "Introdução à Lógica da Ciência", o autor procura apresentar o critério de distinção entre Ciência e não-ciência. (7) Nessa parte, explora-se o conceito de falseabilidade. Na segunda parte, intitulada "Alguns componentes estruturais de uma teoria da experiência", o autor procura dissecar uma teoria científica, mostrando seus fundamentos epistemológicos, os tipos de enunciados pelos quais se constroem as teorias científicas e alguns problemas implicados na testabilidade e probabilidade das proposições. Constam ainda da obra os "Apêndices" e os extensos "Novos Apêndices". Essa é uma obra de leitura difícil e requer conhecimento de noções de Lógica. Embora importante por seu conteúdo, esse livro só foi publicado na Inglaterra em 1959, com o título “Logic of scientific Discovery”.(8) mO significado dessa obra pode ser constatado nas próprias palavras de Popper:
“Ao escrever Logik der Forchung, meu desejo era o de desafiar amigos e opositores positivistas. Nesse particular, não deixei de ter algum êxito.”(9)

A segunda obra de Popper a ser publicada foi uma série de artigos que apareceram nos números 42-43, vol. XI, e 46, vol. XII, da Revista Econômica, entre os anos de 1944 e 1945. Esses artigos apareceram pela primeira vez em forma de livro em 1945, em tradução italiana, e depois, em 1956, em tradução francesa. Só em 1957, é que foi publicado em edição inglesa, com o título “The poverty of historicism”. Na opinião de Bryan Magee, esse livro pode ser considerado como um adendo a “A sociedade aberta e seus inimigos”.(10) Seu título parodia as obras Filosofia da miséria, de Proudhon, e Miséria da filosofia, de Marx. O ponto central da série de artigos que constitui o livro é a análise crítica da tese historicista. Popper argumenta contra: “...a forma de abordar as ciências sociais que lhes atribui, como principal objetivo, o fazer "predição histórica", admitindo que esse objetivo será atingido pela descoberta dos "ritmos" ou dos "padrões", das "leis" ou das "tendências" subjacentes à evolução da história.” (11)

O livro é dividido em quatro partes. Nas duas primeiras, o autor procura analisar as doutrinas anti-naturalistas (12) e naturalistas (13) do historicismo. Nas duas últimas partes, são examinadas criticamente essas doutrinas. Essa obra contém uma cuidadosa análise crítica das doutrinas que entendem que a tarefa das ciências sociais é fazer profecias históricas ou previsões incondicionais. O adversário escondido no corpo do texto, mas, cujo nome aparece inúmeras vezes nas notas de rodapé e contra quem se argumenta, é Karl Mannheim. Nesse livro se procura demonstrar que a revolução ocorrida na Teoria da Ciência, que pode ser sintomatizada nas Ciências Naturais, especialmente por meio das teorias de Einstein, também se estendem às Ciências Sociais. Nessa obra, encontramos uma exposição dos pressupostos epistemológicos dos modelos positivista e marxista. Contudo, a leitura desse pequeno livro não é simples, e exigirá, sobretudo, disciplina. A esse propósito, é o próprio Popper quem afirma: "The poverty of historicism” é, segundo creio, um dos meus trabalhos mais indigestos". (14) Pode-se, contudo, sentir o ambiente emocional em que foi escrito esse livro pela simples leitura da dedicatória do autor. Ele é dedicado a todos os homens e mulheres, de todos os credos, nações e raças, que, em número praticamente incontável, caíram vitimados pela crença na existência de leis inexoráveis do destino histórico, tais como existem no fascismo e no comunismo. O livro, sem dúvida, contém uma condenação inapelável de formas, ainda hoje, bastante atuais de interpretar as Ciências Sociais. (15)

A terceira obra de Popper foi editada pela primeira vez em língua inglesa em 1945, com o título “The open society and its enemies”. (16) Escrito durante sua permanência na Nova Zelândia, esse livro surgiu a partir da revisão e discussão do capítulo 10 da obra A miséria do historicismo. (17) Nesse capítulo, Popper discute o problema do essencialismo. (18) Esse livro contém uma interessante análise das origens e das novas formas do pensamento autoritário. Na primeira parte, encontramos a análise do pensamento de Heráclito e Platão. Embora não se deva tomar a sério o tom impetuoso de certas passagens - por exemplo, aquela em que Platão é chamado de desonesto -, não resta dúvida de que sua interpretação de Platão é por demais fascinante. Na segunda parte, o autor analisa o pensamento de Aristóteles, Hegel e Marx, identificando-os como pertencentes à geração de pensadores partidários da "sociedade fechada" (20) e defensores do pensamento autoritário. As objeções feitas, no decorrer dessa obra, a esses pensadores não podem deixar de ser lidas por todos aqueles que pretendam se iniciar nos debates de filosofia política do século XX. É ainda nesse livro que Popper argumenta a favor da posição de que existe uma ligação entre "sociedade aberta" e Ciência Social. Aquela seria o resultado da solução de problemas sociais pelo uso dos conhecimentos produzidos por esta. O caráter polêmico desse livro pode ser sentido pela extensão das notas bibliográficas, nas quais o Autor procura responder a alguns de seus críticos. Com efeito, as notas são mais extensas do que o texto inteiro do livro. Essa obra procura, ainda, expor a fragilidade da estrutura epistemológica que se esconde por trás dos modelos teóricos que justificam políticas ditatoriais. Nele a liberdade é apresentada como resultado da sociedade construída segundo o espírito da ciência contemporânea. Sem liberdade, ele argumenta, não pode haver oposição. Sem oposição não há debate, não sobrevive o espírito crítico. E o modelo de racionalidade em que se fundamenta o espírito crítico parece ser a característica da "nova razão", que se delineia, hoje, como a "razão científica" do século XX. Popper afirma: ”Em “The open society”, acentuei que o método crítico, embora, sempre que possível, recorra a provas e, de preferência, a provas práticas, pode ser generalizado naquilo que chamei atitude crítica ou racional. Sustentei que uma das melhores acepções a atribuir à "razão" e à "razoabilidade" é a abertura à crítica - disposição de ser criticado e empenho em criticar-se, e procurei mostrar que essa atitude crítica de razoabilidade deveria ser ampliada tanto quanto possível.” (21)

O quarto livro publicado por Popper é uma coletânea de artigos e conferências anteriormente publicados, reunidos sob o nome de “Conjectures and refutations”. Foi publicado em inglês, pela primeira vez, em 1963. Essa obra pode ser considerada como um adendo a “The logic of scientific Discovery”. A obra vem separada em duas partes. Na primeira, intitulada "Conjectures", são tratados problemas tais como a questão da delimitação entre Ciência e Filosofia e o significado das teorias científicas. Na segunda parte - "Refutations" -, segue-se uma análise crítica de algumas das posições mais atuais em Filosofia da Ciência. Nesse rol, temos "Problema da linguagem" e o importante texto, publicado em 1940, "Que é dialética?", no qual Popper faz considerações críticas ao método dialético. Ainda há que se destacar o capítulo sobre "Previsão e profecia nas ciências sociais", bem como a conferência de 1947 intitulada "Utopia e violência", na qual o autor procura demonstrar que existe uma relação de implicação entre esses dois conceitos e aponta para suas conseqüências nos modelos de análise social produzidos no século XIX. (22) Essa obra contém capítulos que certamente serão considerados imprescindíveis para todos os que se dedicam ao estudo de Ciência. Contudo, o leitor leigo haverá de sentir que, para sua compreensão são necessários familiaridade com certos temas de epistemologia e um mínimo conhecimento de Filosofia da Ciência.

Uma outra obra de Popper é uma coletânea de artigos e conferências editados em 1972 com o título “Objective knowledge: An evolutionary approach”. O livro é dividido em nove capítulos e um apêndice que não pode deixar de ser lido por quem deseja ter uma noção do debate que ainda hoje se trava sobre o significado das teorias em Ciência. Nos capítulos que formam a obra, Popper procura apresentar sua posição quanto ao chamado "problema da indução". Procura, ainda, expor de forma didática sua "teoria do conhecimento objetivo", bem como trata das implicações que a teoria evolucionista tem para sua epistemologia. Embora não muito fácil de ler, essa obra não exige que o leitor tenha conhecimento dos aspectos técnicos da Teoria da Ciência. (23)

O livro intitulado “Unended Quest - An intellectual autobiography” foi publicado em 1974. Contém a autobiografia de Popper preparada para ser incluída na obra “The philosophy of Karl Popper”, da coleção The library of living philosophers, editada por Paul Arthur Schilpp. Nesse livro, o leitor poderá acompanhar o relato das circunstâncias que se associam ao desenvolvimento dos principais temas com que Popper se envolveu em sua longa carreira intelectual até o início dos anos 70. (24) De todas as obras escritas por Popper essa é, sem dúvida, a de mais fácil leitura. Pode-se considerá-la como uma obra destinada ao grande público.

A óbra “The philosophy of Karl Popper” (in P.A. Schilpp, ed., The library of living philosophers. 2 vols. La Salle, Illinois, Open Court, 1963) contém o texto autobiográfico de Popper, uma série de críticas e comentários às idéias de Popper escritos por alguns filósofos da ciência que haviam se envolvido no debate dessas idéias, até então, e as respostas de Popper a cada uma das críticas e comentários.

Outra obra de Popper é o volumoso livro “The self and its brain - An argument for interactionism” (Karl R. Popper e John C. Eccles, Nova York, Springer International, 1977), do qual existe tradução para o português publicada pela Papirus Editora. Essa obra contém um confronto entre as teses defendidas por Popper e Eccles e as dificuldades que cada um encontra para aceitar o ponto de vista de seu opositor. As teses centrais do livro procuram responder às questões sobre a natureza da mente humana e a forma como se relacionam corpo e mente. Na primeira parte, Popper apresenta alguns problemas da tese dualista quando confrontada com o materialismo. Na segunda parte, Eccles trata da mente e das questões que decorrem de uma visão neurológica do relacionamento entre mente e corpo. Na parte final, o livro apresenta o relato do debate entre os dois autores.(25)

Popper publicou, ainda, o “Postscript” de sua Lógica da pesquisa científica. Trata-se de três volumes editados entre os anos de 1982 e 1983. Assim temos: “The open universe - An argument for indeterminism” (in W.W. Bartley, ed., Postscript to the logic of scientific discovery, Londres, Hutchinson, 1982); “Quantum theory and the schism in Physics” (in W.W. Bartley, ed., Postscript to the logic of scientific discovery, Londres, Hutchinson, 1982); “Realism and the aim of Science” (in W.W. Bartley, ed., Postscript to the logic of scientific discovery, Londres, Hutchinson, 1985). Essas obras contêm os temas que foram objeto de intenso debate nos círculos especializados de Filosofia da Ciência, nos anos que se seguiram à primeira publicação de “The logic of scientific Discovery”.(26)


Conclusão


As obras de Popper podem ser referidas a três temas principais: 1) A problemática epistemológica, isto é, as reflexões de Popper sobre a natureza e limites do conhecimento humano em geral, suas teses sobre as implicações da forma crítica de entender a racionalidade e sobre Filosofia, Lógica e Ciência como diferentes formas de conhecimento racional; 2) As suas teorias sobre a metodologia das Ciências Naturais. Popper discute de forma original questões relativas à natureza das explicações científicas e ensaia uma interpretação do método científico que nos permite uma visão da Ciência como algo dinâmico e aberto a debate e discussão; 3) As suas teses sobre o método em Ciências Sociais. Poucos analistas sociais contemporâneos se julgam isentos da necessidade de dar uma resposta às questões levantadas por Popper nessa área. Especialmente suas teses sobre as regras metodológicas para a análise social e as conseqüências da racionalidade crítica para as Ciências Sociais. Nesse aspecto, destacam-se suas teses sobre violência, utopia e sociedade aberta.

É importante destacar que sua contribuição mais significativa, por suas conseqüências nas ciências naturais e sociais, pertence ao campo da epistemologia. Popper foi um pensador contemporâneo que trabalhou no sentido de identificar os fundamentos epistemológicos dos grandes modelos de explicação do mundo produzidos no século XIX. Seus trabalhos apontam os pressupostos epistemológicos do positivismo e do marxismo para, em seguida, criticá-los e mostrar suas conseqüências práticas. Seus argumentos são pela conclusão de que os pressupostos epistemológicos do marxismo e do positivismo não são compatíveis com a forma como se produz e se expressa o conhecimento científico no século XX. Segundo Popper, teria ocorrido uma revolução na teoria do conhecimento.

A análise dos pressupostos epistemológicos das teorias sobre a Ciência do século XIX revela o otimismo epistemológico que eles escondem. Isso significa que as epistemologias do século XIX interpretaram o conhecimento humano com base no pressuposto de que a verdade, a certeza e o conhecimento definitivos poderiam ser obtidos pelo uso da razão. Esse otimismo epistemológico, que pode ser formulado na teoria de que "a verdade está em nossa frente" ou "ao alcance de nossa capacidade de raciocinar", esconde uma forma dogmática de razão, cujas conseqüências são o autoritarismo e a violência. Popper foi um dos primeiros teóricos da ciência a explicitar as possíveis conseqüências práticas que determinadas posições epistemológicas podem produzir. O autoritarismo e a violência estão também associados a certas teses otimistas em Epistemologia e ao dogmatismo em Filosofia. Em contrapartida, Popper sugere o realismo epistemológico, que pode ser expresso em teses tais como "é possível agir no mundo, mesmo sem saber a verdade sobre ele", "podemos identificar quando estamos errados", "podemos tentar prever as conseqüências de nossas ações". As conseqüências desse "realismo epistemológico" parecem estar associadas ao criticismo e à tolerância.

Esse é, ao que tudo indica, o mais rico filão no pensamento de Popper. A análise de sua obra nos dá a impressão de que ele é, acima de tudo, um autor preocupado com questões epistemológicas. Sua postura política, suas crenças ideológicas certamente estão presentes em sua obra. Isso, contudo, não torna sua obra definitivamente comprometida com os valores de seu autor. Certamente, podemos interpretar sua obra a partir de outros referenciais ideológicos. Podemos investigar seus argumentos e as teorias de forma que não seja necessário pressupor seus valores e sua visão do mundo.

Entretanto, alguns interlocutores do racionalismo crítico pensam de forma diferente. Alguns deles insistem em apresentá-lo como um autor anti-marxista, anti-freudiano e, principalmente, como um teórico do pensamento conservador. Há razões para crer, contudo, que os conservadores que divulgam as idéias de Popper, tendo em mente enfraquecer seus adversários marxistas ou freudianos, não se aperceberam, ainda, que as idéias que propagam enfraquecem também suas próprias posições teóricas. Pois um olhar mais atento para as obras de Popper permite concluir que o criticismo que ele propõe não interessa àqueles que querem fazer de dele uma autoridade para reforçar suas posições. Levar a sério as teorias de Popper resulta em ser crítico das próprias idéias que suas teses contêm.

É um fato que Popper se classifica como "liberal". Contudo, seuo "liberalismo" parece ser decorrente de uma interpretação que ele faz de suas próprias idéias. Embora não deixe de ter implicações políticas, o "liberalismo" não pode ser identificado com um posicionamento partidário. Importa, ainda, que se considere o fato de que o termo "liberal" tem um sentido específico no mundo anglo-saxão. Assim, "liberal" na Inglaterra, nos EUA, Alemanha etc. tem uma conotação progressista, pois "liberal", nesses paises, expressa também a idéia de oposição ao "conservadorismo". A esse propósito, Popper diz: “Para evitar equívocos, quero deixar bem claro que uso sempre os termos "liberal", "liberalismo" etc. no sentido em que são empregados, de modo geral, na Inglaterra (mas não necessariamente nos Estados Unidos): "liberal", para mim, não é o simpatizante de um determinado partido político, mas aquele que valoriza a liberdade individual e que é sensível aos perigos intrínsecos de todas as formas do poder e da autoridade”. (27)

Em outra passagem, ao caracterizar a "tradição racionalista" como o ingrediente da civilização ocidental responsável pelo surgimento e desenvolvimento da Ciência e da Filosofia, Popper destaca o caráter "liberal" da Ciência dizendo: “Dentro dessa tradição racionalista, a ciência é estimada, reconhecidamente, pelas suas realizações práticas, mais ainda, porém, pelo conteúdo informativo e a capacidade de livrar nossas mentes de velhas crenças e preconceitos, velhas certezas, oferecendo-nos em seu lugar novas conjecturas e hipóteses ousadas. A ciência é valorizada pela influência liberalizadora que exerce - uma das forças mais poderosas que contribui para a liberdade humana”. (28)

A vasta bibliografia sobre Popper traduzida para o português sugere ser este um autor muito conhecido no Brasil. No espaço de oito anos, entre 1974 e 1981, todas suas principais obras foram traduzidas para o português. Algumas dezenas de artigos, resenhas e notas foram publicadas até hoje. Talvez novas publicações venham acrescentar-se a elas. De qualquer forma, o presente trabalho sugere que novas interpretações das teses de Popper já são possíveis no Brasil. Talvez, possa-se dizer que houve uma mudança na atitude de certas pessoas, especialmente daquelas envolvidas na discussão de teorias sociais, que as tenham tornado mais tolerantes e, conseqüentemente, mais interessadas no debate e na discussão de idéias.

Neste texto, não se irá além da sugestão de que isso talvez esteja ocorrendo. Contudo, o ponto que queremos enfatizar como conclusão é que Popper parece ser um autor extremamente fértil para aqueles que valorizam o debate e a discussão de idéias. A partir de uma interpretação crítica de sua obra, ele nos parece um autor sugestivo para os que querem se envolver com o debate sobre o significado do conhecimento científico e suas limitações.




Notas e referências


1.POPPER, KARL R. “Autobiografia intelectual”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, p. 39.

2. Idem, ibidem, pp. 40-41.

3. Idem, ibidem, pp. 44-45.

4. Idem; “Conjecturas e refutações”. Brasilia, Unb, 1981, p. 65.

5. Idem; “Autobiografia intelectual”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, pp. 95-96.

6. Isso parece ser particularmente certo com referência aos artigos publicados em periódicos destinados ao "grande público". Veja, por exemplo, os artigos publicados por Geraldo Pinto Rodrigues, Reinaldo Lobo, J.O. de Meira Pena no “Jornal da Tarde”; Marcelo Pera em “O Estado de S. Paulo” e Márcio Versiani no “Jornal do Brasil”. No interessante editorial intitulado "A utopia como visão distorcida da realidade", citado na abertura deste texto, o jornal O Estado de S. Paulo sugere que Popper somente seria conhecido no Brasil em círculos muito restritos, devido a suas críticas a Marx e Hegel (editorial, O Estado de S. Paulo, 1/9/1979). Reinaldo Lobo também faz carga contra alguns sociólogos e historiadores brasileiros, ao insinuar que Popper e sua crítica ao historicismo não são muito discutidos no Brasil, pois destroem conceitos e mitos usados por eles. O texto afirma: "Popper e sua crítica ao historicismo não são muito discutidos e divulgados no Brasil, e por razões que não são meramente acidentais. Acontece que [o que] Popper escreve com muita clareza não pode ser facilmente classificado de acordo com os rótulos tradicionais e destrói alguns dos mitos preferidos de nossa ciência social. Um desses mitos é o conceito hegeliano de totalidade, que tem sido uma chave mestra para boa parte de nossos sociólogos e historiadores. Um outro obstáculo ao conhecimento de Popper tem sido o dogmatismo que predomina em nossos movimentos sociais, orientados durante muito tempo por ideologias integralistas e marxistas"(Reinaldo Lobo, "O sonho do futuro", Jornal da Tarde, 7/11/1974).

7. A esse propósito, leia-se o texto "O falseamento e a metodologia dos programas de pesquisa científica"; LAKATOS, I., em “A crítica e o desenvolvimento do conhecimento”, pp. 109-243.

8. Essa obra foi traduzida para o português por Leônidas Hegenberg e Octanny S. da Motta, com o título “A lógica da pesquisa científica”, Cultrix/Edusp, 1975.

9. Idem, ibidem, p. 97.

10. MAGEE, BRYAN. “As idéias de Popper”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1974, p. 19.

11. POPPER, KARL R. “A miséria do historicismo”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1980, p. 6.

12. Popper chama de "doutrinas anti-naturalistas" aquelas que se baseiam na idéia de que os métodos típicos da Física não podem ser estendidos às Ciências Sociais. Segundo essas doutrinas, afirma Popper, as leis da Física ou "leis da natureza" seriam " ...válidas em todos os lugares, pois o mundo físico é governado por um sistema de uniformidades físicas, invariáveis no espaço e no tempo. De outra parte, as leis sociológicas ou leis da vida social são diversas em diferentes lugares e épocas"(POPPER, KARL R., ibidem, p. 8).

13. "Doutrinas naturalistas", segundo Popper, são aquelas que identificam a existência de elementos comuns entre os métodos adotados pela Física e pelas Ciências Sociais. Essas doutrinas estariam baseadas na idéia de que a sociologia, à semelhança da Física, é um ramo teórico e empírico do conhecimento. Popper afirma: "Dando-a como disciplina teórica, é de nossa intenção dizer que a Sociologia deve explicar e prever eventos, valendo-se de teorias e de leis universais (que procura descobrir). Dando-a como disciplina empírica, é de nossa intenção afirmar que se apóia na experiência, que os eventos por ela explicados e previstos são fatos observáveis e que a observação é a base para aceitar ou rejeitar qualquer teoria acaso proposta" (POPPER, KARL R. ibidem, p. 30).

14. Idem, Autobiografia intelectual. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, p. 122. 15. Desse livro, temos tradução para o português, realizada por Leônidas Hegenberg e Octanny Silveira da Motta.

16. Temos dessa obra duas traduções para o português. A primeira intitula-se “A sociedade democrática e seus inimigos” e foi publicada pela Editora Itatiaia em 1957. Uma segunda edição, com tradução de Milton Amado foi coeditada em 2 volumes pelas Editoras Itatiaia/Edusp em 1974. Recebeu o título de “A sociedade aberta e seus inimigos”.

17. Idem, “Autobiografia intelectual”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, p. 122.

18. Popper chama de "essencialistas" aquelas teorias que partem do pressuposto de que os aspectos das coisas que interessam à Ciência são aqueles que denotam que essas coisas possuem certas propriedades intrínsecas. Assim, a Ciência não se interessa pelos aspectos acidentais das coisas, mas procura penetrar a essência das coisas. E a essência é sempre algo universal. Ele afirma: "A escola dos pensadores que denominarei essencialistas metodológicos foi fundada por Aristóteles, para quem a ciência há de penetrar na essência das coisas, a fim de explicá-las. Os essencialistas metodológicos tendem a formular questões científicas em termos como "Que é a matéria?", "Que é a força?", "Que é a justiça?" e acreditam que uma resposta esclarecedora para tais perguntas, resposta que revele o sentido real ou essencial desses termos, revelando, assim, a real ou verdadeira natureza das essências por eles denotadas, é, pelo menos, um requisito necessário da pesquisa científica, se não lhe constituir o objetivo principal" (idem, “A miséria do historicismo”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1980, p. 25).

19. Idem, A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 1. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, p. 107. 20. Popper entende "sociedade fechada" em contraposição a "sociedade aberta". Ele afirma: " ... chamaremos também a sociedade mágica, tribal ou coletivista, sociedade fechada; e a sociedade em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais chamaremos de sociedade democrática" (POPPER, KARL R. ibidem, vol. 1, p. 188). Em outra passagem, após destacar que H. Bergson teria sido o primeiro a usar as expressões "sociedade aberta" e "sociedade fechada", Popper destaca o caráter peculiar que esses termos têm em sua obra. Ele afirma: "Em minha obra, essas expressões indicam, por assim dizer, uma distinção racionalista; a sociedade fechada acha-se caracterizada pela crença nos tabus mágicos, enquanto a sociedade aberta é aquela em que os homens aprenderam, até certa extensão, a ser críticos com relação a esses tabus, baseando suas decisões na autoridade de sua própria inteligência (depois da devida análise)" (POPPER, KARL R. ibidem, pp. 219-220).

21. Idem, “Autobiografia intelectual”. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1977, p. 124.

22. Essa obra foi traduzida para o português por Sergio Bath e recebeu o título “Conjecturas e refutações - 0 progresso do conhecimento científico” (Brasília, Unb, 1981).

23. Temos em português a tradução de Milton Amado com o título “Conhecimento objetivo - Uma abordagem evolucionária” (Itatiaia/Edusp, 1975).

24. Existe tradução para o português, realizada por Leônidas Hegenberg e Octanny S. da Motta, com o título “Autobiografia intelectual” (Cultrix/Edusp, 1977).

25. Popper entende por "dualismo" a tese de que existem coisas reais que são materiais e outras que transcendem a matéria. Assim, uma visão dualista do homem implicaria a existência da consciência como algo imaterial. A posição contrária ao dualismo é o materialismo. O materialismo é a tese unívoca de que o real é material. A essas duas posições Popper contrapõe sua teoria de que o universo, ou sua evolução, é criativo. Popper argumenta que a evolução dos animais dotados de sentidos com experiências conscientes originou alguma coisa nova. Essas experiências eram a princípio rudimentares; porém, aos poucos, tomam-se de um tipo mais avançado. Por fim, emergem esse tipo de consciência do eu e esse tipo de criatividade que encontramos no homem (POPPER, KARL R. e ECCLES, JOHN C. “The self and its brain - An argument for Interactionism. Londres, Springer International, 1977, p. 15).

(26) Dentre outras obras relevantes para se acompanhar o desenvolvimento do racionalismo crítico através do debate com os seus interlocutores, ocupa um lugar especial o texto de “A crítica e o desenvolvimento do conhecimento”, obra organizada por lmre Lakatos e Alan Musgrave, contendo o quarto volume das atas do Colóquio Internacional de Filosofia da Ciência, realizado em Londres em 1965. Nesse livro, é relatada a polêmica envolvendo alguns dos mais conhecidos nomes da Filosofia da Ciência contemporânea. A questão central do livro é o confronto das idéias de Popper e as teorias de Thomas Kuhn. Essa obra apresenta uma visão panorâmica das questões, então, debatidas pelos filósofos da Ciência. De sua leitura, pode-se, ainda, ter uma visão clara das posições defendidas por Paul Feyerabend e lmre lakatos. Destaque especial deve ser dado à obra “A lógica das ciências sociais” que é um pequeno livro organizado por Vamireh Chacon, contendo quatro textos de Popper. Três deles, intitulados "A lógica das ciências sociais", "Razão ou revolução" e "O que entendo por filosofia", são inéditos em português. O quarto texto, "A racionalidade das revoluções científicas", já havia sido publicado em 1976 no livro Problemas das revoluções científicas (São Paulo, Cultrix/Edusp). Essa obra, de leitura fácil, é uma forma agradável de entrar em contato com o pensamento de Popper.

27. Idem, “Conjecturas e refutações”. Brasilia, Unb, 1981, p. 17, fim do prefácio.

28. Idem, ibidem, p. 128.

11 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros alunos,
Depois de ler o texto, faça um comentário de 15 linhas destacando a idéia que mais o impressionou.

Lucas R. P. disse...

Karl Popper tratou de determinados aspectos da Teoria da Ciência de maneira aprofundada, já que ao criticar teorias ditas cientificas surgidas no século XIX e de meados do século XX, tais como o marxismo, o positivismo, a psicanálise freudiana e as idéias baseadas no modelo indutivo de Adler, Popper necessitou estudar as idéias dos filósofos anteriores a sua época e das de seus contemporâneos, percebeu que o dogmatismo e os fundamentos destas teorias estavam em discordância com o que ele via como ciência.
Outros conceitos também sofreram analise como o conceito de falseabilidade, testabilidade, doutrinas anti-naturalistas e naturalistas do historicismo e o problema do essencialismo.
Segundo ele os pressupostos românticos de que a verdade definitiva poderia ser alcançada pela razão são dogmáticas, levam a “sociedades fechadas”, ao autoritarismo e a atitudes contraditórias e irracionais.
A ciência na opinião de Popper deveria ser aberta, ou seja, democrática, fazendo com que essa liberdade proporcionasse pontos de vista diferentes, debates e, portanto o pleno exercício da razão.
O que mais impressiona em Popper é a forma como ele se defrontou com as teorias que estavam em voga, após estudá-las muito, sendo tolerante e realista, sem o mero intuito de usar seu conhecimento em benefício próprio ou de construir um novo movimento contra os ideais que para ele eram incorretos.

Israel Ribeiro disse...

Popper representou uma quebra do dogmatismo, da influencia de credos sobre o conhecimento, da ideologia difarçada como ciência, mas cega em relação a alguns aspectos.
Karl Popper foi de embate a reconhecidos nomes, tais como Freud e Marx, os quais, para ele, valiam-se de elementos alheios à objetividade e imparcialidade que a verdadeira ciência requer.
O que mais me impressiona na explanação do pensamento de Popper é o fato de ele seguir com seu trabalho deveras complexo, mesmo tendo consciência de que haveria quem usasse suas teorias para justificar ações pautadas em ideais, ao passo que o próprio Popper refutada idealismos como base do conhecimento.

ney carvalho disse...

As influencias artísticas e filosóficas presente em seus familiares não permitiam que aceitasse imposições e dogmas, assim percebendo após o contato com os princípios marxistas, que não se permitiria apoiar uma causa que para trazer a paz faria através de sacrifícios de algumas vidas. Com isso também rompeu com as Teorias da ciência e da Psicologia até então praticada, entendendo não ser viáveis para o século XX os pressupostos da base epistemológica aplicadas por essa sociedade marxista e positivista.
Suas obras exploravam e discutiam os conceitos de falseabilidade , e a aplicação e interação entre as bases epistemológicas e a naturalidade, assim como as velhas formas de testar preposições pela antiga base; assim como a analise das doutrinas anti-naturalistas, contestando independência da física e das ciências sociais, assim se classificando como naturalistas aqueles que identificam semelhanças entre as duas formas de ciência; o essencialismo analisando ser necessário uma analise aprofundada nas questões naturais dos objetos, para conseguir defini-los ; a o pensamento autoritário; outra questão explorada por Popper foi a diferenciação da ciência e não ciência.
Uma das preocupações de Popper sobretudo era sobre de qual forma seria interpretado e aplicadas suas teses, e assim como as teses do racionalismo critico são indissociáveis, e a utilização incorreta delas poderão ter interpretações adversa de sua ideologia central.

Alessandra disse...

Karl Popper mostra-se como um pensador que vem revolucionar as bases da ciência tratadas como dogmas que não eram questionados e sim aceitos sem qualquer pensamento a respeito.
Assim como Einstein revoluciona a física, Popper revoluciona as bases das ciências que tínhamos indo contra conhecimentos que estudamos nos dias atuais, tais como Aristóteles, Marx, Freud, Adler e outros. Ele contesta firmemente a visão de Ciência destes, indicando-os como membros "sociedade fechada", tornando claro que seus pensamentos [dos cientistas] mantêm as coisas em perfeita aceitação, sem haver a liberdade, liberdade de um novo pensamento para a situação/fato/objeto de estudo, para o debate, o crescimento, o desenvolvimento e novas descobertas.
Outra questão interessante no pensamento de Popper é o fato de todos os assuntos estarem interligados e não isolados como são tratados (até hoje) nos estudos. Isto é tão claro em sua conduta por sua forma de criticar toda e qualquer ciência, temos visões suas sobre marxismo, psicanálise, positivismo e muitos outros campos. Para a mesma questão ainda ele tem uma forma de tratar os assuntos em seus termos que se encaixam bem às quaisquer ciências, sejam as Ciências Naturais ou as Ciências Sociais, mostrando que até mesmo as palavras “específicas” encaixam-se para explicar ciências diferentes.

Giu disse...

Popper fazia critica a consideração do dogmatismo como forma de ciência. Qualquer teoria que fosse justificacionista não era valida para ele, criticando então teorias clássicas como o marxismo, o positivismo, a psicanálise freudiana ou ainda os casos adlerianos em que tudo poderia ser justificado pela própria teoria.
A recusa da indução e de qualquer mecanismo que funcione por meio de repetição faz com que surja a proposta da falseabilidade como característica epistemológica do discurso científico.
Popper ainda procura apresentar o critério de distinção entre Ciência e não-ciência e enquadrar a ciência em uma "forma", mostrando tipos de enunciados pelos quais se constroem as teorias científicas como a indicação da falseabilidade como um dos fatores fundamentais e citando problemas implicados na testabilidade, probabilidade das proposições e dialética.
Concluindo, podemos dizer que o capítulo cita parte da vida e obra de Popper, demonstrando seu grande interesse em desvendar a ciência e enquadra-la em padrões, fazendo-o se tornar crítico de grandes pensadores até o momento como Heráclito, Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Freud e outros.
Apesar de ser um critico de todas as ideologias, era voltado para o lado da liberdade, tendo isso sido usado nas interpretações e defesas políticas, inclusive no Brasil. Sem liberdade, ele argumenta, não pode haver oposição. Sem oposição não há debate, não sobrevive o espírito crítico.

Caio disse...

O que mais me chamou a atenção no texto foi como os eventos históricos da época influenciaram o pensamento de Popper. Tendo vivido numa época em que uma grande ideologia se espalhou pelo mundo (marxismo) como poucas ou talvez nenhuma jamais houvera e ao mesmo tempo ocorreu uma grande revolução científica (Einstein) que fez com que a maneira de se fazer e pensar ciência mudasse, Popper teve uma vivência que não poderia ter tido se tivesse nascido em outro tempo. Sua experiência de vida como marxista fez com que ele começasse a se questionar do valor do conhecimento oriundo de ideologias e ao conhecer o método de fazer ciência de Einstein ele achou que este talvez fosse um meio mais correto, o que o levou a estudar mais afundo o assunto.

Renato disse...

A idéia que mais me impressiona de um modo geral é a forma como Popper critica qualquer ideologia no geral. Sua idéia, de que as ideologias são uma forma de arriscar a vida de alguém em prol de um pensamento infundado, fazem sentido quando vemos o marxismo que matou diversos soviéticos, o facismo, dentre tantas outras formas de interpretar políticas, ciência e etc. Já de modo negativo, a idéia que mais impressiona é a de Popper querer criar um único modo de se criar uma "teoria científica", baseado na forma com que Einstein formulava suas teorias. Fica claro que com o tempo ocorrem mudanças na forma de pensar do ser humano e os métodos antigos deixam de ser válidos.

analuizavalle disse...

A princípio, o que me chamou atenção foi como Karl Popper lidou com os dogmas impostos na época. Inicialmente ele mesmo se rendeu aos dogmas para depois perceber e assumir que assim como muitas pessoas inteligentes e de visão, caiu em uma armadilha. A partir daí, Popper se viu em conflito com as idéias de nomes famosos como Freud, Einstein, entre outros e acaba por romper, também, com as teorias filosóficas dominantes nessa época. Mais tarde, Popper teve várias publicações que revelaram sua recusa na indução como método do conhecimento científico, e a proposta da falseabilidade como característica epistemológica do discurso científico.
Popper valorizava o debate, as discussões de idéias, os questinamentos, e por este motivo, podem haver tentativas de "silenciá-lo", omitindo suas obras.
A postura que Popper tomou diante das adversidades foi admirável, já que não se deixou intimidar pela maioria ao expor suas idéias.

Rodrigo disse...

Despontando como um dos maiores filósofos do século XX, Karl Popper não é simplesmente um crítico de várias outras filosofias, mas sim alguém que se tornou uma referência, quando se fala em racionalismo crítico.
Sua formação começa dentro de uma família bem estruturada, que o apóia em suas escolhas lhe dando incentivo para seguir as suas idéias. Essa liberdade incial, molda o seu ideal e faz com que ele seja um dos filósofos que possuam uma maior preocupação com a liberdade dos seres humanos, fazendo críticas ferrenhas a idéias que tenham em seu fim, a ditadura e a opressão.
Popper faz duras críticas, mas todas com embasamento e conhecimentos de causa, não caindo em conceitos vãos e desconexos, como muitos autores da atualidade. Popper conseguiu o que muitos desejavam (e alguns ainda desejam), ter conhecimento e coragem para críticar teorias ditas "fixas" e possuir uma grande autocrítica.

leo disse...

Esse texto nos descreve como teria sido a vida de Popper, onde nos relata que sua formação começou já em seu lar , onde Popper teria sofrido grandes influências de seus pais; nos diz quais foram suas obras, resumindo quais seriam os conteúdos tratados em cada uma delas, descrevendo suas principais críticas e criticados.

Nos remeta também o momento histórico, onde o mundo passava por enormes mudanças sobre a influência de um grande número de ideologias, das quais destacam-se o marxismo, onde Popper aos 17 anos de idade torna-se antimarxista , mas também nos relata: “ Era deprimente a idéia de haver caído na armadilha.

Popper rompe também com a a Teoria da Ciência e com as teorias da Psicologia que andavam em moda na sua época, dizendo que Einstein apresentava o destino das teorias em Física; Argumentando que o modo de fazer ciência descoberto por Einstein, fornecia subsídios para sua teoria e que por conta disso houvera uma revolução na forma de interpretar as teorias científicas.