segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

TEXTO 1 - INTRODUÇÃO

EPISTEMOLOGIA E RACIONALISMO CRÍTICO


INTRODUÇÃO


O racionalismo crítico, conforme aqui interpretado, se constitui num programa de investigação filosófica, que é calcado firmemente sobre uma primeira convicção que não pode ser dele dissociada, sob pena de torná-lo infundado. É a convicção que a Ciência é a mais importante contribuição da inteligência humana para o mundo contemporâneo. Portanto, conhecer a Ciência, ou as teorias que ela oferece para os poucos problemas pelos quais nos interessamos e entender o que é a Ciência, ou saber como distinguir esse tipo de conhecimento das outras formas de conhecimento humano, são partes constitutivas da formação da inteligência de qualquer ser humano que deseje ser cidadão da sociedade moderna. A velocidade com que ocorrem os avanços da Ciência na direção de novas teorias e as relações estreitas, que modernamente foram construídas, entre Ciência e Tecnologia colocam como um dos problemas mais importante da reflexão filosófica contemporânea a questão que pergunta sobre a natureza e os métodos desse tipo de conhecimento.
É um fato que a produção filosófica européia dos últimos cem anos tem na Filosofia da Ciência um dos seus resultados mais expressivos. Uma significativa quantidade de trabalho intelectual, com conclusões relevantes, foi posta, pelos chamados filósofos profissionais, na tentativa de resolver alguns dos problemas que estavam relacionados aos fundamentos do conhecimento científico. O desenvolvimento da Ciência apresenta um conjunto de problemas que impõem a busca de certas soluções que somente poderiam ser expressas através do emprego de uma linguagem filosófica. Isso significa que a Ciência se torna o grande tema da investigação filosófica, especialmente nos 50 anos compreendidos entre o inicio dos anos 30 e o final dos anos 80 do século XX. Desse conjunto de problemas da Filosofia da Ciência há que se fazer especial referência aos problemas epistemológicos. Muito esforço foi posto na tentativa de responder às questões que concerniam às condições de possibilidade do conhecimento científico, bem como aquelas que perguntavam pela natureza da Ciência e o significado do progresso científico. Portanto, durante parte dos últimos cem anos, avanços filosóficos foram feitos e grande quantidade de esforço intelectual foi empenhado para consegui-los, na Filosofia da Ciência, particularmente no que concerne aos problemas epistemológicos postos pelo conhecimento científico.
O debate que foi travado em torno dos temas da Filosofia da Ciência produziu um vasto material que pode ser identificado a partir de um quadro geral que separa a produção de filósofos analíticos, de um lado, e filósofos hermenêutas, de outro. De certo modo, a filosofia analítica se separa da filosofia hermenêutica pelas tradições de investigação filosófica às quais se associa. Assim, os analíticos se desenvolvem a partir do estudo da produção filosófica de autores como D. Hume, E. Kant, J. S. Mill, A. Comte. Os filósofos analíticos da Ciência haverão de considerar os problemas da Ciência em função de sua capacidade de expressá-los de forma racional, formal, precisa, clara. Ainda que esses objetivos resultem por colocar limites àquilo que pode ser investigado. Os hermeneutas procuram levar avante o resultado da investigação filosófica de autores como Hegel, Marx e Freud. Assim, suas investigações sobre os problemas da Ciência haverão de perseguir conclusões que revelem o significado do mundo que pode ser encontrado para além do real aparente e que pode ser expresso através de uma metodologia capaz de tratar com o obscuro, o impreciso e o informal. Ainda que esses objetivos venham a resultar no emprego de uma linguagem que nem sempre consegue deixar claro o que se quer dizer. No esteio dessa separação entre filósofos analíticos e hermenêuticos da Ciência podemos entender, de certo modo, as diferenças entre duas modalidades ou tipos de Filosofia da Ciência; uma Filosofia Hermenêutica da Ciência que se expressa na produção de autores continentais como Gaston Bachelard, Paul Ricoeur e, ainda, toda a produção da Escola de Frankfurt e a Filosofia Analítica da Ciência que é produzida pelos pensadores do Círculo de Viena, tais como L. Wittgenstein e os membros da escola conhecida como racionalismo crítico, tais como Karl R. Popper e I. Lakatos
Há muito em comum nas conclusões a que se chegou no desenvolvimento das Filosofias Analítica e Hermenêutica da Ciência. Entretanto há muita discrepância entre elas também. Aqui não se pretende usar essa divisão sugerida para compará-las e avaliá-las. Essa tarefa demanda um esforço que não seria compatível com aquilo que aqui se pretende. Nas poucas vezes em que se tentou fazer um confronto direto entre os próprios personagens que representavam essas duas orientações em Filosofia da Ciência, apesar da enorme capacidade de esforço empenhado, os resultados foram pífios, e frustraram até mesmo os concernidos. A separação entre Filosofia Analítica da Ciência e Filosofia Hermenêutica da Ciência tem, aqui, um caráter instrumental. Ela é posta para permitir circunscrever o conjunto de problemas e soluções que ocuparam um certo grupo de filósofos durante um certo período. Ela não serve para excluir algum tipo de produção filosófica considerada inferior.
Uma das tradições da Filosofia Analítica da Ciência que teve um forte impacto na produção filosófica dos últimos cinqüenta anos foi a escola conhecida como racionalismo crítico. A escola racionalista crítica tem em Karl Raimund Popper a sua principal figura. Entretanto, outros autores se somaram na defesa de um conjunto mais ou menos uniforme de posições que aqui se pretende, tão somente, sugerir. Nesse sentido, alguns autores têm se destacado no debate sobre o conjunto de problemas e soluções que concernem à caracterização do racionalismo crítico. Dentre outros, podemos apontar Alan E. Musgrave, Anthony O´Hear, Brian Holmes, Bryan Magee, Colin Howson, David Miller, Elie Zahar, E. T. Burke, Ernest Gellner, Ernest H. Gombrich, Hans Albert, Imre Lakatos, Jeremy Shearmur, John C. Eccles, John Warral, John W. N. Watkins, Joseph Agassi, Larry Laudan, Nicholas Maxwell, Peter Medawar, Peter Urbach, R. Bouveresse, Tom Settle, W. W. Bartley III. Paul Feyrabend e Thomas S. Kuhn destacaram-se na construção de uma interlocução crítica com a escola racionalista crítica.
Somente algumas das teses apresentadas por Popper constituem hoje o acervo das teorias que caracterizam o racionalismo crítico. Muitas de suas posições concernentes às peculiaridades do método científico, com especial referência ao problema da indução, foram criticadas e se chegou a considerar demasiadamente simplificado o seu modelo de interpretação do procedimento científico. Suas teses sobre o método científico nas ciências sociais, principalmente sua teoria da lógica da situação, tem sido considerada insatisfatória. A sugestão de que a teoria darwinista é apropriada para interpretar o desenvolvimento do pensamento humano tem sido contestada. Entretanto, há um conjunto de posições que foram sugeridas por Popper e algumas que decorreram da discussão de suas idéias, que constituem hoje os fundamentos de uma epistemologia racionalista crítica. (Peluso, Luis A.; “Considerações sobre algumas vertentes do pensamento filosófico contemporâneo”; Campinas, SP, Revista “Reflexão”, Maio-Agosto, 1989, Ano XV, No. 44, pp.19-25)
De uma forma geral, pode-se dizer que o debate dos problemas que a escola do racionalismo crítico tenta resolver se processa dentro de uma moldura que é formada pelas seguintes posições:
a. O que distingue o conhecimento racional do conhecimento vulgar, ou de senso comum, é o discurso, isto é, a forma como esse conhecimento é expresso. O conhecimento racional é expresso através de um discurso que emprega o modelo crítico de racionalidade, isto é, que satisfaz a regra lógica que exige a construção do raciocínio de forma tal que a hipótese seja expressa através de uma proposição universal cujo subconjunto dos falseadores potenciais não esteja vazio. Existem três formas distintas de discursos ou formas de expressar teorias racionais: Teorias Empíricas ou Científicas, Teorias Lógicas ou Matemáticas e Teorias Filosóficas ou Metafísicas. Elas se distinguem apenas no que concerne ao grau de falseabilidade, ou status de racionalidade.
b. A racionalidade crítica corresponde a uma forma tradicional de representar intelectualmente os problemas que é responsável pelo surgimento e desenvolvimento do conhecimento científico. A razão é entendida criticamente quando ela é tomada como um instrumento de debate e discussão e não como fonte de conhecimento certo, definitivo, acabado. A Ciência é, portanto, um produto da razão crítica.
c. O conhecimento científico é hipotético-dedutivo. A estrutura metodológica das explicações científicas é tal que, de uma série de proposições universais e particulares, que descrevem leis e condições iniciais, é possível se concluir pela ocorrência de determinado evento. Devido ao caráter da racionalidade empregada na elaboração de teorias científicas, não existe Ciência acabada. A Ciência não implica a posse da verdade, mas a sua procura. Ela se constitui daquilo que conseguimos quando nos aproximamos da verdade. A racionalidade do conhecimento científico implica no seu dinamismo, em sua possibilidade de ser expresso através de outras teorias verossímeis com novos conteúdos informativos.
d. A falseabilidade é a característica metodológica do conhecimento racional. A refutabilidade (possibilidade de ser falseada por meio de teste empírico) é a característica específica das Ciências Naturais e Sociais. Nem as teorias científicas, nem as demais teorias racionais podem ser protegidas contra o falseamento. E toda vez que uma teoria é falseada isto afeta seu status no contexto das teorias racionais.
e. O método racional crítico consiste, fundamentalmente, na tentativa de resolver problemas através da proposta de conjeturas e a tentativa de eliminação das hipóteses falsas.
Assim, para o racionalismo crítico, as regras que regem o processo de elaboração das teorias racionais não são somente regras lógicas, no sentido de regras que decorrem da natureza ou essência da racionalidade humana. Elas são, também, regras metodológicas, possuindo, portanto, um caráter convencionalista. As regras do método científico seriam, assim, regras lógicas e regras metodológicas ou convencionais. Regras que inventamos em função de valores e crenças que desejamos expressar e regras independentes da vontade humana, no sentido que decorrem das interpretações que atribuímos aos objetos.
A tradição filosófica que traduz o esforço de produzir um pensamento hermenêutico na contemporaneidade não pode ser dissociada da produção da escola de Frankfurt, onde, talvez, J. Habermas seja o vulto mais expressivo. Também aqui um número relativamente grande de pensadores reuniu-se em função da defesa de um certo conjunto de teses fundamentais comuns a todos eles. Assim, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Jurgen Habermas, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, H. G. Gadamer, Paul Ricoeur, Richard Taylor, Jean François Lyotard, Richard Bernstein, Jacques Derrida.
De uma forma geral, o debate dos temas de Filosofia da Ciência com os quais se envolveram os filósofos da Escola Hermenêutica de Filosofia foram travados a partir de um conjunto de teses, mais ou menos, defendidas por todos os membros da Escola de Frankfurt. Assim, poderíamos citar as seguintes posições:
a. O conhecimento racional é fundamentalmente constituído de interpretações. A Ciência é um produto lingüístico e, portanto, implica em ser interpretada. Ela corresponde a uma leitura da natureza e está sujeita a uma leitura de seu próprio texto. Portanto, a Ciência necessita de um quadro hermenêutico para que seja desvelado seu verdadeiro significado.
b. As Ciências Sociais possuem métodos completamente diferentes das Ciências Naturais. Gadamer diz: ”Nós explicamos a natureza, mas nós entendemos a vida mental... Isto significa que os métodos para estudar a vida mental, a história e a sociedade diferem enormemente daqueles usados para adquirir o conhecimento da natureza...”. (Gadamer, Hans-Georg; “Reason in the age of science”, Cambridge, MIT Press, 1981, p.113) Nestes termos a hermenêutica é o estudo da interpretação e do entendimento não somente de textos, mas também de ações, costumes humanos e práticas sociais. A principal razão para esta distinção metodológica é que a ênfase que as Ciências Naturais colocam no conhecimento causal dos fenômenos não é relevante para as Ciências Sociais, pois as pessoas agem porque são convencidas por razões, ou porque elas decidem seguir certas regras. As ações humanas não são determinadas por forças causais.
c. O conceito de racionalidade tem que ser buscado na crítica da forma de vida opressora e alienante que resulta da consciência tecnicista das sociedades industriais modernas. A racionalidade deve se contrapor ao irracionalismo que resulta no auto-desenvolvimento cego do aparato técnico e econômico das sociedades modernas.
d. É preciso restaurar o conceito de racionalidade que liberte o ser humano, no sentido de ajudá-lo a construir um mundo humano e racional onde homens e mulheres possam escolher livremente o sentido de suas vidas.
Assim, a produção filosófica européia contemporânea foi aqui, parcialmente, caracterizada através da referência ao trabalho de filósofos analíticos da Ciência e de filósofos hermenêuticos da Ciência. Com essa caracterização se pretendeu fazer um diagnóstico parcial do contexto da produção filosófica européia nos últimos cinqüenta anos, com especial referência à produção em Filosofia da Ciência.

9 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros alunos,
Depois de ler o texto: "Introdução", poste um pequeno comentário registrando a impressão que o texto lhe causou. Isso precisa ser feito até o dia 18 de fevereiro.

Alessandra disse...

O texto mostra que em algum momento, após tantas modificações causadas pela Ciência, houve a necessidade de se discutir o que esta era e representava (sua necessidade, seu crescimento, seu impacto no nosso dia-a-dia e futuro, como se desenvolve) e para tal estudo houve duas visões radicalmente diferentes, mas que são complementares de certa forma.
A primeira visão segue o raciocínio lógico e puro, sem investigar as influências que outros fatores, senão aqueles do mundo dos 5 sentidos, possa ter. A outra vertente segue o caminho contrário, dizendo que as causas para os acontecimentos são subjetivas, vindas de determinações do ambiente ao redor, do dia-a-dia, das atitudes das pessoas que estão ligadas aos fatos.

valdenice.carvalho disse...

Com a ciência centralizando os conhecimentos na sociedade contemporânea, com os avanços das tecnologias e novos descobrimentos, fez-se necessário a explicação de alguns fatos relacionados à natureza que não era possível através dos pensamentos científicos utilizados até então, surge os pensadores e filósofos hermenêuticos fazendo o uso de um raciocínio nem sempre lógico e racional, buscando a explicação do obscuro e impreciso. Cada uma das formas de pensamentos com suas contribuições à essa nova sociedade com seus pensadores e filósofos defendendo e introduzindo suas ideologias, trazem esses avanços já citados.
Nós como futuros cientistas e pesquisadores temos que abrir nosso campo de visão a novas formas de pensamentos, que nem sempre pode ser explicado por uma formulação lógica e racional.

ney carvalho disse...

Descupem-me o erro de login.

Com a ciência centralizando os conhecimentos na sociedade contemporânea, com os avanços das tecnologias e novos descobrimentos, fez-se necessário a explicação de alguns fatos relacionados à natureza que não era possível através dos pensamentos científicos utilizados até então, surge os pensadores e filósofos hermenêuticos fazendo o uso de um raciocínio nem sempre lógico e racional, buscando a explicação do obscuro e impreciso. Cada uma das formas de pensamentos com suas contribuições à essa nova sociedade com seus pensadores e filósofos defendendo e introduzindo suas ideologias, trazem esses avanços já citados.
Nós como futuros cientistas e pesquisadores temos que abrir nosso campo de visão a novas formas de pensamentos, que nem sempre pode ser explicado por uma formulação lógica e racional.

Rodrigo disse...

Compreender, mesmo que superficialmente, o que é o conhecimento científico, exige uma leitura densa de todos os seus principais expoentes, sejam eles analíticos ou hermenêuticos. Aliás, realizar essa separação é algo não muito óbvio, tampouco de fácil realização. Saber diferenciá-las, já será um grande passo para se adentrar ao grande mundo complexo da filosofia.
As diferentes visões citadas no texto (analítica e hermenêutica) trouxeram uma abertura de novas concepções de idéias filosóficas, gerando certo espanto com a tamanha complexidade que é a filosofia, da qual dentro do mundo moderno não possui um espaço reservado digno de sua altura.
Apesar da brevidade da vida, o ser humano não pode ficar preso ao tempo imposto por ele mesmo.

Israel Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Israel Ribeiro disse...
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analuizavalle disse...

A necessidade do homem em compreender tudo aquilo que o cerca, fez com que surgissem diferentes formas de investigação filosófica. Duas visões distintas em relação ao conhecimento receberam destaque com a produção de filósofos analíticos, de um lado, e filósofos hermenêutas de outro.
Os analíticos priorizavam a objetividade enquanto que os hermenêutas lidavam com o obscuro, o subjetivo.
Pode-se dizer que para se entender, interpretar os problemas da Ciência talvez seja necessário fazer uso das duas linhas de pensamento.
Acredito que talvez as duas visões se complementem.

Renato disse...

Este texto introdutório nos coloca no início do século XX, quando estava no auge a segunda revolução industrial. Nunca se precisou tanto de ciência como se estava precisando. A indústria química e a de petróleo precisavam de novos métodos e mais conhecimento. Então, sentiu-se necessidade de avaliar os métodos como a ciência era empregada, como a ciência era "criada". Diversos filosofos debatiam sobre esse "método científico" até chegar-se ao "Racionalismo Crítico" de Karl R. Popper. Este, criticava as ideologias e dizia que as teorias científicas tem de ter seu conjunto de "falseadores".