sábado, 27 de fevereiro de 2010

CAPÍTULO 4 - Os Limites de Nossas Teorias Racionais

OS LIMITES DE NOSSAS TEORIAS RACIONAIS



Todos nós partimos do "realismo ingênuo", isto é, a doutrina de que as coisas são como parecem... Mas a física nos garante que o verde da grama, a dureza e a frieza das pedras, e a frieza da neve não são o verde, a dureza e a frieza que conhecemos de nossas experiências pessoais, mas alguma coisa diferente. O observador... realmente... está a observar o efeito da pedra sobre ele... O realismo ingênuo leva à física e a física, se for verdadeira, demonstra que o realismo ingênuo é falso. Dessa forma, o realismo ingênuo, se for verdadeiro, é falso; portanto, é falso. (B. Russell. An inquiry into meaning and truth, Londres, 1940, pp. 14-15)


Introdução


De forma geral, as teorias sobre o método do conhecimento científico podem ser analisadas em duas perspectivas. Primeiramente, elas se constituem de análises das relações entre os enunciados científicos. Nesse sentido, as teorias sobre o método científico procuram descrever a estrutura lógica das explicações científicas. Num segundo aspecto, as teorias sobre o método científico expressam a preocupação com a própria natureza da Ciência. Nesse segundo sentido, as teorias sobre o método científico respondem questões sobre o que é progresso científico, o que são problemas científicos e quando é que uma solução pode ser considerada satisfatória. As teorias sobre o método científico procuram, ainda, estabelecer determinados objetivos em função dos quais são definidas as características que devem possuir os enunciados científicos.

A teoria sobre o método científico, como análise puramente lógica, constitui-se no estudo das relações lógicas de um sistema de enunciados. Nesse sentido, a teoria do método é útil na avaliação dos critérios para decidir se um enunciado é suscetível de prova " ... ela certamente não se preocupa com a questão de saber se alguém se disporá a fazer a prova".(1) Nesse sentido, a teoria sobre o método científico não se preocupa com o aspecto dinâmico da ciência. Desconhece a maneira como ela se altera e evolui.

Portanto, o estudo da lógica da pesquisa científica vai muito além dos problemas referentes à estrutura formal dos enunciados científicos. Abrange também aspectos de uma lógica geral, que permite ao cientista escolher entre teorias concorrentes, determinar quando um problema foi suficientemente debatido e quais as soluções que merecem atenção e estudo. Enfim, a lógica da pesquisa científica permite ao teórico da ciência a escolha das próprias características formais que um sistema deve satisfazer para ser considerado científico. Popper parece concordar com essa análise quando afirma: “Não nego que algo possível de ser denominado "análise lógica" tenha como desempenhar um papel nesse processo de esclarecer e aprofundar os problemas e as soluções por nós propostas; não afirmo que os métodos de "análise lógica" ou de "análise lingüística" sejam necessariamente inúteis. A tese por mim defendida é, antes, a de que esses métodos estão longe de se constituir nos únicos que um filósofo possa utilizar com vantagem, e sustento que eles não são mais característicos da filosofia do que qualquer outra investigação científica ou racional.”(2)

É nesse segundo sentido que a lógica da pesquisa científica permite que se estabeleçam as regras que orientam o cientista empenhado no trabalho da pesquisa. Essa posição implica que um dos elementos significativos para a escolha do método científico é a conceituação de ciência. A concepção do método científico, em termos de regras metodológicas convencionais, é conseqüência de uma interpretação crítica da ciência, em que os enunciados empíricos são suscetíveis de revisão e de substituição por outros mais adequados. Nesse sentido, o método científico expressa as regras do jogo da ciência empírica.

Assim, a teoria da ciência é a descrição da relação constante dessas regras entre si, e a explicitação da referência dessas regras com o conceito de ciência proposto. “A teoria do Método, na medida em que se projeta para além da análise puramente lógica das relações entre enunciados científicos, diz respeito à escolha de métodos - as decisões acerca da maneira de manipular enunciados científicos. Naturalmente, tais decisões dependerão, por seu turno, do objetivo que selecionemos dentre os numerosos objetivos possíveis.”(3)

O que esta posição parece sugerir é que existe uma relação de implicação entre metodologia e teoria da ciência. Disso se segue que a maneira como encaramos as regras do método científico depende da atitude que tomamos perante a ciência.(4) Deste modo, uma concepção crítica de ciência estaria associada às seguintes regras metodológicas:

l. As regras do procedimento científico devem ser elaboradas de maneira a não proteger contra o falseamento qualquer enunciado científico.

2. 0 jogo da ciência é um princípio interminável. Quem decide, um dia, que os enunciados científicos já não exigem prova e podem ser vistos como definitivamente verificados, retira-se do jogo.

3. A hipótese, uma vez estabelecida, submetida à prova, e tendo comprovado suas qualidades, não será afastada sem uma boa razão. Ela somente pode ser substituída por falseamento ou por outra de maior poder explicativo.


A definição das regras metodológicas para a ciência é dependente da elaboração de uma teoria da ciência. (5) Isso significa que podemos interpretar a ciência de formas diferentes, o que certamente resultaria em diferentes propostas de regras metodológicas. O que tudo isso parece significar é que com esse argumento se procura evitar uma concepção essencialista de ciência e de método científico.(6) Nesse sentido, as regras metodológicas são convenções. (7) E, de certa forma, também o conceito de ciência depende de nossas decisões. (8) Essa posição pode ser identificada como "essencialismo modificado".



1.



Pode-se afirmar que, com pequenas diferenças, Aristóteles e a escolástica medieval partilharam da mesma interpretação essencialista em relação às teorias racionais. "Essencialismo" é a teoria que "...é tarefa do conhecimento puro, ou 'ciência', descobrir e descrever a verdadeira natureza das coisas, isto é, sua realidade ou essência ocultas". (9) Aristóteles teria partido da distinção platônica entre "episteme" (ciência, conhecimento fundamentado) e "doxa" (opinião, conhecimento vulgar). Na epistemologia aristotélica, o conhecimento científico pode ser "demonstrativo" - consiste em afirmações que podem ser demonstradas, conhecendo-se, portanto, as causas -, e intuitivo - consiste na apreensão da "forma indivisível" ou "essência" da coisa. Todo o conhecimento científico se origina na intuição. Com efeito, todas as provas derivam de premissas e estas são conclusões de outras premissas, não sendo possível, portanto, provar ou demonstrar o todo. A verdade da conclusão está sempre condicionada à verdade das premissas. Dessa forma, temos que supor a veracidade das premissas para evitar um processo ad infinitum. Isso significa que devemos admitir premissas indubitavelmente verdadeiras e que não necessitam de qualquer prova. São as "premissas básicas". Essas premissas básicas se originam na intuição das essências das coisas. São descrições das essências das coisas, na medida em que as definem. A definição de uma coisa é, simplesmente, a proposição que descreve a essência ou conjunto de propriedades essenciais da mesma. Por exemplo, ao afirmar que "os homens e as mulheres são animais racionais", estar-se-ia nominando as propriedades constitutivas de alguma coisa. Essas propriedades constitutivas são diferentes das propriedades acidentais - a essência é o que a coisa "é em si", o acidente é o que existe em outro e por outro. Possuímos, segundo Aristóteles, uma capacidade intelectual de intuir as essências, de captá-las e conhecê-las tais quais são. Assim, o conteúdo do conhecimento é idêntico ao seu objeto. O conhecimento progride conforme ampliamos o conjunto de definições que possuímos com novas essências ou, então, preenchemos lacunas nele existentes. A partir do conjunto de definições, é possível deduzir logicamente todo o conhecimento científico”. (10)

Para Aristóteles, o verdadeiro método científico é a dedução. Sobre o fantasma (ou imagem) sensível, exercita-se a faculdade abstrativa do intelecto. É ela que colhe a forma, separada da matéria (desindividualizada), isto é, o elemento universal ou essência, o que um ente é. A abstração intelectual traduz em ato o elemento inteligível que existe em potência no real concreto.

Assim, a forma inteligível, ou conceito, é abstraída dos dados sensíveis. Essa forma inteligível se caracteriza por ser universal e necessária. Por exemplo, das sensações de diversos seres humanos (ou, então, da sensação produzida por um só ser humano), cada uma das quais é conhecimento particular de um indivíduo singular, o intelecto abstrai os caracteres essenciais e enuncia o conceito universal de ser humano. O conceito existe apenas enquanto é pensado pelo intelecto. Na realidade, não existe o conceito de ser humano, mas existem os seres humanos singulares e concretos. Isto é, existe, sim, a forma universal de ser humano, mas individualizada em cada ser humano singular. O processo de abstração é aquele pelo qual o intelecto colhe a natureza ou essência ou a forma real. Por meio da abstração, ele se eleva a conceitos sempre mais universais, isto é, mais extensivos. Por exemplo, se tomamos o conceito de ser humano, conservamos os caracteres que o ser humano tem em comum com os outros mamíferos e abstraímos o que cada espécie de mamífero tem de próprio, formamos o conceito mais geral de mamífero.

Por meio do processo de abstração, podemos chegar a conceitos mais gerais ainda, até alcançarmos conceitos generalíssimos, além dos quais não é possível abstrair mais.

O conhecimento intuitivo do conceito não basta; é necessário também o conhecimento discursivo, isto é, a análise, que é obra da razão humana. Definir é determinar os caracteres essenciais, o conteúdo, de um conceito, decompondo-o em seus elementos constitutivos. Definir é indicar o gênero próximo e a diferença específica, que distingue uma espécie das outras do mesmo gênero. Assim, quando definimos os homens e as mulheres como animais racionais, estamos determinando seu gênero próximo e sua diferença específica.

Assim, podemos falar em uma escola de pensadores essencialistas em questão do método. Seriam aqueles que, baseando-se em Aristóteles, partem da afirmação de que a investigação científica tem de penetrar a essência das coisas para poder explicá-las. “Os essencialistas metodológicos põem-se a formular perguntas científicas em termos como: "que é matéria?" ou "que é força?" ou, ainda, "que é justiça?", e acreditam que uma resposta penetrante a essas perguntas, que revele o significado real ou essencial desses termos e, por conseguinte, a natureza real ou verdadeira das essências apresentadas por eles, é, pelo menos, um indispensável requisito prévio da investigação científica, senão sua principal tarefa”. (11)


2.




Entretanto, pode-se argumentar que os métodos da ciência não demonstram a verdade das proposições Partindo da constatação de que as concepções essencialistas diferem fundamentalmente dos métodos da ciência moderna, pode-se criticar a visão essencialista de Aristóteles. Os métodos da ciência moderna podem ser interpretados em termos de proposições que não garantem a veracidade das sentenças que resultam da própria aplicação do método. As teorias científicas são apresentadas como hipotéticas e presuntivas. Assim, a cada passo, a ciência progride abandonando teorias para substituí-las por outras que conservam o mesmo caráter conjectural. Assim: “...em outras palavras, sabemos que nossas teorias científicas devem sempre permanecer como hipóteses, mas que, em muitos casos importantes, podemos verificar se uma nova hipótese é ou não superior a uma antiga. Se forem diferentes, levarão a diversas predições que, muitas vezes, podem ser verificadas experimentalmente e, na base de tão crucial experimentação, podemos, muitas vezes, verificar que a nova teoria leva a resultados satisfatórios, enquanto a velha se desmorona. Assim, podemos dizer que, em nossa busca da verdade, substituímos a certeza científica pelo progresso científico. E essa concepção do método científico é ratificada pelo desenvolvimento da ciência. Esta não se desenvolve por meio de uma gradual acumulação enciclopédica de informação essencial, como pensava Aristóteles, mas por método muito mais revolucionário; progride por meio de idéias ousadas, pelo avanço de novas e muito estranhas teorias (tais como a teoria de que a terra não é plana ou de que o "espaço métrico" não é plano) e pela derrubada das antigas”. (12)

Nenhum método científico consegue invalidar o caráter subjetivo dos enunciados da ciência; toda proposição científica traz consigo as deformações nela colocadas pelo cientista. Somente a atitude crítica da comunidade científica é capaz de depurar os enunciados. E nisso consiste a objetividade científica.

Fora dessa interpretação, a idéia de uma ciência objetiva fundamenta-se em uma visão essencialista do papel das teorias científicas. E. Nagel é particularmente incisivo quando propõe o caráter asséptico da atitude crítica na obtenção da objetividade científica. Vai mais longe, contudo, ao afirmar a natureza coletiva de tal atitude crítica. Ele diz: “Os homens raramente se dão conta de que há muito de hipotético no que têm por indubitável e, muitas vezes, acreditam-se livres de compromissos intelectuais de qualquer espécie, quando, na verdade, estão endossando tacitamente muito de falso. Embora a deliberação de adotar atitude crítica relativamente às presunções possa ter certo valor, a objetividade da ciência não é conseqüência dela. Ao contrário, a objetividade deve-se a uma comunidade de pensadores, cada um deles a criticar severamente as afirmações dos demais. Nenhum cientista é infalível e todos apresentam suas peculiares deformações intelectuais ou emocionais. As deformações raramente são as mesmas; e as idéias que sobrevivem às críticas de numerosos espíritos independentes revelam maior probabilidade de serem legítimas do que as concepções tidas por válidas simplesmente pelo fato de parecerem auto-evidentes a um pensador isolado.” (13)

A crítica à interpretação essencialista das teorias científicas prossegue, ainda, com o argumento de que as definições têm, na ciência moderna, uma interpretação completamente diferente daquela proposta por Aristóteles. Em Aristóteles, a definição explicita a essência de alguma coisa que um termo significa. Assim, existe uma perfeita identificação entre a essência e o significado. A definição responde à questão que pergunta pela essência e pelo significado de alguma coisa - O que significa? O que é? Entretanto, na atualidade, não é necessário distinguir entre essas duas perguntas; mais importante é ver o que têm em comum. É particularmente notório que ambas são suscitadas pelo termo que, na definição, fica do lado esquerdo e respondidas pela fórmula definidora que fica do lado direito. “Esse fato caracteriza a concepção essencialista, da qual difere radicalmente o método científico de definição. Enquanto podemos dizer que a interpretação essencialista lê urna definição "normalmente", isto é, da esquerda para a direita, podemos dizer que uma definição, tal como normalmente empregada na ciência moderna, deve ser lida de trás para diante ou da direita para a esquerda, pois começa com a fórmula definidora e reclama para ela um breve rótulo.” (14)

Na ciência moderna, as definições não são essencialistas, como quer Aristóteles, mas simples rótulos, símbolos abreviados ou apenas nomes cômodos para substituir uma longa descrição. Prolongadas discussões acerca do significado das palavras não são muito comuns entre os cientistas.

A teoria de que é necessário definir nossas palavras antes de iniciarmos uma discussão proveitosa é incoerente. Toda vez que se pretende definir um termo, explicar um conceito, torna-se necessário introduzir novos termos e novos conceitos na definição. Esse processo segue ao infinito, pois se faz necessária a explicação desses novos conceitos introduzidos. Nesses termos, nunca se poderia chegar a uma discussão crítica do problema que se esconde por trás dos termos. A discussão deve, portanto, utilizar termos não definidos. Na prática os termos são rótulos de grande utilidade, e devem ser tomados como tais. O conhecimento rigoroso não exige uma análise rigorosa dos termos a serem empregados.(15)

A concepção essencialista das teorias científicas implica, ainda, a idéia que existem enunciados auto-evidentes ou necessariamente verdadeiros. Segue-se, dessa posição, que os sistemas de explicações científicas são uma seqüência de proposições que descrevem a realidade tal como ela é. Não se pode, portanto, admitir que os fatos sejam diferentes daquilo que se afirma que são nos enunciados científicos. Ora, como a ciência é um conjunto de enunciados que podem ser demonstrados, isso implica que existem certas premissas primeiras ou enunciados básicos que devem ser auto-evidentes e necessariamente verdadeiros.

Essa interpretação parece ser confirmada por E. Nagel, quando afirma: ”Essa concepção da natureza da ciência era plausível, enquanto a geometria euclidiana constituía o único exemplo de conhecimento sistematizado; continua a ser defendida por muitos pensadores contemporâneos que admitem que o "universo é racional" e, assim, "não pode haver resíduo de fatos irracionais (isto é, contingentemente verdadeiros) no conjunto da ciência". Todavia, à luz da história da ciência, tal concepção é insustentável. Com efeito, não há ciência alguma cujos pressupostos básicos relativos a questões de fato sejam realmente auto-evidentes, e o progresso da investigação, em todos os ramos da ciência, revelou que princípios tidos como basilares em certa época tiveram de ser modificados ou substituídos para manter a adequação a fatos revelados por novas descobertas. A tese de que os chamados primeiros princípios da ciência são passíveis de alteração é claramente ilustrada por desenvolvimentos atuais da física, na qual se tem procedido a revisões de pressupostos teóricos considerados indubitáveis.” (16)

A teoria essencialista do método científico tem se apresentado sob a forma de duas doutrinas: a doutrina esotérica da intuição intelectual e a doutrina da necessidade de "definir nossas palavras", se quisermos ser científicos.



3.


A doutrina da intuição intelectual, isto é, a teoria de que "podemos alcançar as essências e produzir a definição perfeita das coisas", recebeu de Aristóteles uma de suas primeiras formulações. Essa teoria tem uma considerável influência em Hegel e tem sido o fundamento de algumas correntes contemporâneas sobre o método científico. (17)

Hegel critica a lógica tradicional justamente porque acredita que ela, ao distinguir entre real e ideal, comprometeria a possibilidade de se atingir a essência das coisas em toda a sua concretude. Definir, na lógica clássica, significa delimitar uma parte da realidade, fixar sua essência. Segundo Hegel, os princípios da lógica tradicional (identidade e contradição), ao isolarem um fragmento da realidade, negam essa mesma realidade, quando a tornam abstrata. Ao captarem apenas um momento da realidade, negam seu próprio ser, que é devir dialético e, portanto, essencialmente dinâmico.(18) Somente uma lógica que consegue captar a contraditoriedade do real é capaz de exprimi-lo em conceitos verdadeiros. A realidade é dialética e todos os caracteres do real não estão separados e sim, envolvidos no mesmo processo. Todo momento não é real separadamente, mas o é no processo do qual faz parte. A lógica clássica deixa escapar a essência da realidade e do pensamento, pois, em vez de captar todo o ser, atinge tão somente um fragmento abstrato seu.

A lógica dialética consegue captar o caráter dinâmico do real. A lógica dialética nega o princípio de contradição, e permite a compreensão de que “A”(tese) e "não-A" (antítese) não se excluem, encontram-se conservados e superados como momentos concretos da síntese. Nesse sentido, o processo dialético do pensamento identifica-se com o processo do real. O conceito da lógica tradicional é universal, abstrato. O conceito da lógica dialética é universal, concreto.


4.



A teoria intuicionista está igualmente presente na fenomenologia, especialmente na formulação que lhe deu Edmond Husserl. (19) Husserl propõe que as essências das coisas "são dadas" ao pensamento e este as revela. As essências são um todo orgânico do qual a nossa consciência e o mundo participam fragmentariamente. Dessa forma, cada sujeito cognoscente tem o seu "mundo dado", ou seja, a totalidade de si mesmo como ser consciente. O método do conhecimento é a descrição do fenômeno, isto é, o que é dado imediatamente ao intelecto. A atividade do conhecimento não é fruto da busca de algo subjacente à realidade aparente. O conteúdo do conhecimento é um "dado" e não se reduz ao seu processo de aquisição. As formas essenciais, ou eidos, dos objetos são captadas imediatamente pela consciência. Assim, a fenomenologia é o método para descrever o fenômeno. (20)

Segundo Husserl, existem duas ciências: a ciência dos fatos (ciência fática), que se fundamenta sobre a experiência sensível, e a ciência das essências (ciência eidética), cujo objeto é a intuição ou contemplação das Essências. A ciência das essências fundamenta-se nas intuições eidéticas. Ele afirma: ”E mais, se, ainda assim, a teoria do conhecimento pretende investigar as relações entre a consciência e o Ser, ela pode encarar o Ser apenas como correlativo com a consciência, como algo, cujo "significado" corresponde com a consciência: na sua qualidade de percebido, recordado, esperado, imaginado, fantasiado, identificado, distinto, acreditado, suposto, estimado etc. Vê-se, então, que a investigação precisa ser dirigida a uma intuição essencial e científica da consciência, para aquilo que a consciência, ela própria, "é" em sua essência, e simultaneamente para aquilo que "significa" em todas as suas formas distintas, bem como para os modos diversos de ela - em conformidade com a essência dessas formas - se referir ao concreto, "provando", porventura, o "valor" e a realidade" de sua substância, de maneira quer clara quer não, ora presente ora atualizada, significativa ou figurativa, simples ou intelectualizada, neste ou naquele modo atencional e assim por diante, num infinito de outras formas.” (21)

A essência, o eidos, está contida no dado. Portanto, para captá-la é necessário prescindir dos outros elementos que não interessam à investigação fenomenológica. Desse modo, algumas etapas são necessárias. Primeiramente, devemos nos desfazer, excluir (por entre parênteses), tudo o que, no conteúdo de consciência, refere-se ao sujeito psicológico e à existência individual. Num segundo momento, faz-se necessário reduzir tudo quanto não é correlato da pura consciência. Por esses processos, chegamos a uma consciência irredutível, na qual se encontram as essências universais.



5.



A intuição intelectual não produz a veracidade do enunciado científico. Certamente, algumas de nossas experiências intelectuais podem ser descritas como intuições intelectuais. Assim, por exemplo, é intuitiva a forma pela qual entendemos os conceitos euclidianos de ponto, reta e plano. Contudo, isso não justifica a intuição como capaz de garantir que um enunciado ou teoria científicos sejam verdadeiros. Ainda que estejamos plenamente convencidos da veracidade do conteúdo de um enunciado, e não possuamos o menor indício de sua falsidade, isso não é suficiente para garantir a sua veracidade. A intuição da veracidade de uma teoria por um indivíduo pode ser seguida pela intuição de sua falsidade por outro. (22)

A intuição não evita arbitrariedade. O essencialismo ou intuicionismo apresenta, ainda, uma outra dificuldade: torna arbitrária a noção de verdade. (23) Suponhamos que se tente aplicar a teoria intuicionista na solução dos seguintes problemas: Como podemos verificar se uma definição proposta e formalmente correta é verdadeira? Como podemos decidir entre duas definições concorrentes?
Suponhamos que alguém afirme que "os homens e mulheres são bípedes sem penas". Certamente, tal definição não seria aceita por um essencialista que alegaria em sua refutação o fato de tal definição não expressar a "humanidade"; do que se conclui, portanto, não descrever a essência de homens e mulheres. Contudo, para defender sua posição, seria obrigado a afirmar que, ao definir homens e mulheres como “animais racionais" estaria expressando a captação intelectual da essência. Como conseqüência, se sua definição fosse rejeitada, o essencialista somente teria duas saídas. A primeira consiste em afirmar que sua intuição intelectual é a única verdadeira, o que também poderia ser feito por seu opositor. Chegaríamos, portanto, a um impasse. Isso tomaria impossível o conhecimento final indubitável. A segunda posição consistiria em admitir que a intuição intelectual de seu opositor é tão verdadeira quanto a sua, mas que se trata de duas essências diferentes. Assim, a discordância de definições não existiria, tratando-se apenas de mera coincidência de nome. E seria concluída a suposta discordância com a sugestão de que sejam utilizados nomes diferentes para essências diferentes. Contudo, permanece impossível determinar o critério pelo qual se dará o rótulo "homem e mulher" a uma ou outra coisa. A atribuição de nomes ou rótulos continuará a ser arbitrária e, conseqüentemente, toda afirmação poderá ser considerada aceitável, desde que formalmente correta. Disso se conclui que toda premissa é aceitável e, portanto, todo silogismo é coerente, ao ser formalmente correto. Dessa forma, torna-se impossível construir um enunciado falso.


6.



Uma outra forma de essencialismo expressa-se na teoria de que “se quisermos ser precisos devemos definir nossas palavras" ou, ainda, de que "podemos tornar a linguagem mais precisa pelo uso de definições". Popper argumenta que essa doutrina se inspira também no essencialismo aristotélico. Contudo, ao contrário da doutrina esotérica da intuição intelectual, que implica a necessidade de definir todas as coisas, essa doutrina implica a definição de todos os termos. (24)

A teoria nominalista que propõe a necessidade de se definir as palavras, tem sua expressão máxima em Wittgenstein. De início, convém destacar dois períodos na atividade filosófica de Wittgenstein. O primeiro período resulta no Tractatus logico-philosophicus, obra hermética, na qual ele procura estudar a estrutura e os limites do pensamento, pelo método do estudo da estrutura e dos limites da linguagem. Assim, a natureza da linguagem passa a ser o elemento condicionador do conhecimento, pois só por meio de seu estudo podemos saber o quanto se pode e o que não se pode fazer com ela. A compreensão de que os limites da linguagem são decorrentes de sua própria estrutura interna teria levado Wittgenstein a elaborar uma teoria da lógica.

Num dos pontos mais importantes do Tractatus logico-philosophicus, Wittgenstein afirma que "a totalidade das proposições verdadeiras é toda a ciência da natureza - ou a totalidade das ciências naturais" (4.11). Em 4.111, ele diz que "a filosofia não é ciência da natureza (a palavra 'filosofia' deve denotar alguma coisa que se coloca acima ou abaixo, mas não ao lado das ciências naturais)". A conclusão desse argumento é que não há lugar para o conhecimento filosófico, já que os conhecimentos verdadeiros caem no domínio das ciências da natureza.

Para Wittgenstein, as proposições são ou verdadeiras, ou falsas, ou proposições sem sentido. Estas últimas são "simplesmente absurdas". Ele tenta traçar um limite, em nossa linguagem, entre o absurdo e o sensato. Argumentando que o limite pode ser traçado nos idiomas, conclui que o que fica do outro lado do limite é o absurdo. Não existem proposições filosóficas. Estas apenas têm aparência de proposições, mas, de fato, são insensatas. (25) O limite entre o sensato e o insensato coincide com o existente entre ciência natural e a filosofia. A verdadeira tarefa do filósofo, portanto, não é formular proposições; é, antes, esclarecer proposições. Assim, afirma em 4.112: "A finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos".

A filosofia não é teoria, mas atividade. Uma obra filosófica consiste essencialmente em comentários. A filosofia não resulta em "proposições filosóficas", mas em tornar claras as proposições. Ela deve tomar os pensamentos que, por assim dizer, são vagos e obscuros e tomá-los claros e bem delimitados. Portanto, busca uma linha demarcatória entre o sensato e o insensato e verifica que sua demarcação coincide com aquela existente entre ciência e metafísica, isto é, entre as sentenças verificadas e as pseudo-proposições filosóficas. Afirma, em 4.113: "A filosofia delimita o domínio contestável das ciências naturais". O filósofo não dá sentido a certos sinais em suas proposições, ao passo que todos os sinais utilizados pelos cientistas têm sentido. O método correto da filosofia seria nada dizer, com exceção do que pode ser dito. Ora, como a totalidade das sentenças significativas é que forma as ciências naturais, o enunciado da filosofia será constituído de sinais sem sentido preciso. Assim, as proposições filosóficas são, de fato, pseudo-proposições sem sentido. Dessa forma, a filosofia é uma tolice sem significado.

Em outra passagem do Tractatus logico-philosophicus (4.52), Wittgenstein afirma: "As proposições são tudo o que se segue à totalidade das proposições elementares (sem dúvida, porque parte da totalidade de todas elas). (Em certo sentido, é possível dizer que todas as proposições são generalizações das proposições elementares)". E, logo a seguir (5), afirma: "A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma)". Dessa forma, as proposições científicas podem ser verificadas empiricamente. É a partir das proposições baseadas na observação empírica que se pode construir o universo científico. Todas as proposições, para serem verdadeiras, devem referir-se direta ou indiretamente a uma constatação empírica, por meio de proposições derivadas logicamente das primeiras (conforme as exigências de coerência lógica).

Em outra passagem do Tractatus logico-philosophicus (6.5), Wittgenstein afirma: "Para uma resposta inexprimível, é inexprimível a pergunta. O enigma não existe. Se uma questão pode ser colocada, poderá também ser respondida". Não apenas a filosofia deixa de ter direito à existência, uma vez que suas proposições não se subordinam ao critério de verificação empírica, mas os próprios problemas filosóficos não existem.

E, em 6.51, afirma: "O ceticismo não é irrefutável, mas patentemente absurdo, quando pretende duvidar no momento onde não cabe perguntar. A dúvida, pois, só existe onde existe uma questão; uma questão, apenas onde existe uma resposta; e esta somente onde algo pode ser dito". Assim, o objeto da filosofia desaparece.

Ao concluir o Tractatus logico-philosophicus, Wittgenstein afirma, em 6.54: "Minhas proposições se elucidam do seguinte modo: quem me entende, por fim as reconhecerá como absurdas, quando, graças a elas - por elas -, tiver subido para além delas. (É preciso, por assim, dizer, jogar fora a escada depois de ter subido por ela). Deve-se vencer essas proposições, para ver o mundo corretamente". E, em 7: "O que não se pode falar, deve-se calar". Dessa forma, aparentemente, esclarece-se a contradição de um pensador que filosofa para destruir a filosofia.

Mais tarde, o próprio Wittgenstein veio a repudiar essa obra e tentou corrigi-la. Passou, então, a investigar os diferentes caminhos pelos quais podemos nos perder em razão do uso da linguagem. Assim, abandona a idéia de que a estrutura da realidade determina a estrutura da linguagem, sugerindo que ocorre exatamente o contrário: nossa linguagem é que determina a estrutura da realidade, pois é pela linguagem que vemos as coisas. Ainda mais, abandona a concepção, sustentada no Tractatus Logico-philosophicus, de que as línguas possuem uma estrutura lógica uniforme e que as diferenças entre as formas lingüísticas constituíam variações superficiais.

Abandona essa posição e passa a defender uma diametralmente oposta, ou seja, a idéia que a linguagem não tem uma essência comum. Nesse sentido, a diversificação das formas lingüísticas é decorrente da estrutura da linguagem, e não apenas de suas manifestações superficiais. Essas novas idéias aparecem em sua obra Philosophical investigations. Sobre ela, assim se expressa David Pears:
“Em Philosophical investigations, é mais fácil que nos sintamos perdidos porque, embora construídas de maneira similar, trata-se de uma série de anotações recolhidas de assentamentos, dispostas de acordo com a matéria tratada, sem um plano diretor. Está presente a mesma preocupação com a estrutura e os limites da linguagem, que já não se deduzem, entretanto, de uma única teoria global. São deduzidos, passo a passo, de um conjunto de material lingüístico inter-relacionado. O resultado é um novo tipo de obra filosófica, na qual não se contém uma generalização ampla e na qual se faz notavelmente escassa a asserção categórica. Está recheada de descrições da linguagem, pormenorizadas e corriqueiras, apresentadas dialeticamente, de maneira que convida o leitor a participar do diálogo. (26)


7.



As teorias do método de Wittgenstein, entretanto, são passíveis de uma série de objeções. (27) Inicialmente, façamos uma análise da proposta de que "a filosofia não é teoria, mas atividade'. Essa proposição não pertence à "totalidade das proposições certas". Por outro lado, também não é falsa, visto que, então, sua negativa seria verdadeira e, portanto, pertenceria à ciência natural. Do que se conclui que ela não deve ter significado, ou sentido, sendo esse mesmo raciocínio válido para a quase totalidade das proposições de Wittgenstein. Aliás, ele mesmo propõe isso, ao afirmar que o reconhecimento de que suas proposições são absurdas é a atitude daqueles que realmente o compreendem. Mas afirma, também, no prefácio do Tractatus logico-philosophicus, que: “No entanto, a verdade dos pensamentos comunicados aqui me parece intocável e definitiva, de modo que penso ter resolvido os problemas no que é essencial. Se não me engano, o segundo valor deste trabalho é mostrar quão pouco se consegue quando se resolvem tais problemas. (28)

Portanto, o próprio Wittgenstein admite a possibilidade de se transmitir a verdade intocável e definitiva dos pensamentos comunicados por meio de enunciados insensatos ou sem sentido. Por meio de proposições sem sentido, transmitem-se verdades. Donde se pode concluir que a teoria de Wittgenstein implica a possibilidade de elaboração de proposições sem sentido, mas altamente significativas.

Ao afirmar que a totalidade das proposições verdadeiras é a totalidade da ciência natural, e não pertencendo essa proposição à ciência natural, pois é meta-científica, isto é, pertence à teoria sobre a ciência, Wittgenstein estaria afirmando a falsidade de sua própria posição. Donde Popper conclui que a teoria de Wittgenstein é contraditória.

O argumento de Popper implica a distinção entre contradições e paradoxos. A contradição (ou auto-contradição) é um enunciado logicamente falso. Assim, A é B e não é B. O paradoxo é um enunciado que não podemos afirmar que seja verdadeiro nem falso, sob pena de nos envolvermos em grandes dificuldades. Por exemplo, o "paradoxo do mentiroso", que pode ser formulado de muitos modos. Suponhamos que alguém diga "tudo o que digo hoje é mentira" ou, mais precisamente, "todas as proposições que hoje enuncio são falsas" e nada mais diga durante todo o dia. Se tentarmos descobrir se o que ele falou é verdade ou não, depararemos com sérias dificuldades. Se começamos com a suposição de que o que ele disse é verdadeiro, considerando o que disse, chegaremos, então, à conclusão de que a proposição é falsa. Se partirmos da suposição de que o que disse é falso, poderemos concluir, então, considerando o que ele disse, que a proposição é verdadeira.

Existem, por outro lado, proposições auto-contraditórias, que são extremamente próximas do paradoxo do mentiroso. Assim, o enunciado “a expressão X é sem sentido", onde X substitui o próprio enunciado. Essa proposição é, simplesmente, auto-contraditória e não paradoxal. E a afirmação de sua falsidade resolve o suposto paradoxo.

Da mesma forma, quando Wittgenstein descreve as condições da significação de um enunciado, por meio de uma proposição que não satisfaz essas condições, ele não está propondo um paradoxo, como acreditava, mas simplesmente enunciando uma proposição auto-contraditória ou falsa. Uma teoria que implique sua própria falta de significado não é sem significado, mas simplesmente falsa.



8.




Pode-se, ainda, argumentar que a teoria de Wittgenstein tem caráter dogmático. De fato, ao conceber como "sem sentido" os enunciados filosóficos, Wittgenstein torna sua teoria definitiva e incontestável. Pois qualquer objeção que se faça a ela será também de caráter filosófico, donde sem sentido e insensata. Coloca-se, assim, acima da possibilidade de ataque. Popper diz: “... a teoria anti-metafísica da significação, no Tractatus de Wittgenstein, longe de ajudar a combater o dogmatismo metafísico e a filosofia oracular, representa um dogmatismo reforçado, que escancara as portas ao inimigo, à insensatez metafísica profundamente significativa, e lança fora, pelas mesmas portas, o melhor amigo, isto é, a hipótese científica.” (29)

Isso tudo decorre do caráter essencialista da teoria antimetafísica de Wittgenstein. Segundo Popper, ao procurar distinguir o científico do metafísico, Wittgenstein alimenta a ingênua idéia de que existe algo que pertence essencialmente, ou por natureza, à ciência natural. E, ao definir ciência como a totalidade das proposições verdadeiras, exclui da esfera da ciência natural todas as hipóteses que não são verdadeiras. E como nunca poderemos saber se uma hipótese é ou não verdadeira, em razão de seu caráter hipotético, também nunca poderemos saber se ela pertence ou não à esfera da ciência natural. Assim, na impossibilidade de serem enquadradas no campo das ciências naturais, as teorias e as hipóteses são deixadas ao campo da metafísica.(30)



9.



Popper argumenta no sentido de demonstrar o caráter essencialista da posição aristotélica e medieval. Assim, o essencialismo aristotélico e medieval implica a idéia de que existe um substrato estável na realidade. O conhecimento verdadeiro consistiria na captação desse substrato.

Uma segunda conclusão se refere ao caráter essencialista da doutrina da intuição intelectual. Os defensores dessa doutrina, quer em sua formulação hegeliana, quer em sua versão husserliana, pretendem argumentar que a intuição é a captação imediata do conhecimento que expressa aquilo que a realidade de fato é.

Aqui se argumenta, ainda, que o nominalismo de Wittgenstein é de caráter essencialista. Wittgenstein, ao transformar as palavras em signos capazes de expressar a essência do real e ao conceituar ciência como o conjunto de proposições que podem ser verificadas empiricamente, teria assumido que existem definições "essencialistas" ou "naturais" da linguagem e da ciência.

O estudo dos caracteres das teorias essecialistas é importante para a compreensão da teoria do método em ciências sociais; pois o argumento de Popper conclui que existe uma aproximação entre as propostas de orientação essencialista e as teorias do método em ciências sociais. As teorias metodológicas essencialistas seriam extremamente favoráveis à análise de temas pertinentes às ciências sociais. “Sustenta-se que a tarefa das ciências sociais destina-se a entender e a explicar entidades sociais, como o Estado, a ação econômica, o grupo social e isso só se pode fazer por meio da penetração em suas essências.” (31) Mais adiante, Popper afirma: “A tarefa das ciências sociais é descrever clara e propriamente essas entidades sociais, quer dizer, distinguir o essencial e o acidental; mas isso requer um conhecimento de sua essência. Problemas como "que é o Estado?" e "que é o cidadão?" (que Aristóteles considerava os problemas básicos de sua Política) ou "que é crédito?" ou "qual é a diferença essencial entre os membros de uma igreja e os de uma seita ou entre a igreja e a seita?", não só são perfeitamente legítimos, se não são precisamente a classe de perguntas a cuja contestação estão destinadas as ciências sociais.” (32)

Dessa forma, a tese do essencialismo metodológico pode parecer extremamente atraente para as ciências sociais. Além do mais, seria embaraçoso falar em mudanças e desenvolvimento de alguma entidade social sem pressupor a existência de uma essência que não muda.

Assim, o essencialismo metodológico implica um profundo otimismo epistemológico, pois está baseado na idéia de que as coisas têm uma essência permanente, e que o ser humano dispõe de meios para conhecê-la. Parece, igualmente, implicar que o essencialismo metodológico é base para uma visão historicista das ciências sociais, pois as ciências sociais, argumentam os historicistas, são fundamentalmente constituídas por teorias da mudança social. E a teoria da mudança social jamais seria compreensível sem a postulação de que existe uma essência estável do real.

O essencialismo modificado, entretanto, tem outra interpretação do papel das teoria científicas. Para o essencialismo modificado. A natureza das teorias racionais, pode ser entendida considerando sua discordância em relação ao caráter essencialista das teorias expostas anteriormente. As digressões sobre o problema da significação não são somente verbalísticas e inúteis, mas, principalmente, prejudiciais. Afirmar a necessidade de definir todos os termos, antes de iniciarmos uma discussão científica, é uma idéia incoerente, pois, se nos colocássemos a discutir a significação dos termos, jamais chegaríamos a iniciar a discussão. A ciência não usa definições para determinar o conteúdo de seus termos, mas apenas para rotular utilmente as coisas e os conceitos. A discussão rigorosa tem de usar os termos realmente necessários como termos indefinidos. (33)

A significação dos termos científicos não é o elemento que fornece a validade das proposições científicas. O conteúdo das afirmações científicas não pode depender apenas da significação de seus termos. As informações da ciência não são decorrentes da definição de um termo. Essa é a forma como os cientistas superam o problema da linguagem; não se põem a discutir sobre os termos como "luz", "energia", "matéria", desde que se apliquem aos conceitos por eles empregados. Os cientistas devem, estar constantemente atentos para o caráter de vaguidade dos termos empregados em suas explicações. Eles devem estar continuamente atentos ao enunciar as sentenças, de modo que as possíveis sombras de nossos enunciados sejam perfeitamente delineadas. (34) Esse procedimento faz com que sejam diminuídas as possíveis conseqüências nefastas das imprecisões dos termos científicos.

O ponto de vista de que a precisão da ciência e da linguagem científica depende da precisão de seus termos é certamente muito plausível, mas nem por isso deixa de ser expressão de um preconceito. A precisão da linguagem depende de que tomemos cuidado em não sobrecarregar seus termos com a tarefa de serem precisos. Um termo como "duna" ou "vento" é certamente muito vago (Quantos decímetros de altura deve ter uma colina de areia para poder ser chamada "duna"? Com que velocidade deve o ar mover-se para poder ser chamado "vento"?). Contudo, para muitos dos propósitos do geólogo, esses termos são de precisão completamente suficiente; e, para outros propósitos, quando se necessita de maior grau de diferenciação, poderemos sempre dizer "dunas entre um metro e dez metros de altura" ou "vento de velocidade entre 30 e 50 quilômetros por hora". E a situação nas ciências mais exatas é análoga. Nas medidas físicas, por exemplo, sempre tomamos o cuidado de considerar o alcance em que pode haver um erro. A precisão não consiste em tentar reduzir essa margem de erro a nada, ou em pretender que não existe tal margem, mas, sim, em seu explícito reconhecimento.

A linguagem é um instrumento da ciência e o importante é o que se faz com ela. Talvez, essa teoria instrumental da linguagem possa parecer um tanto temerária. Contudo, nas ciências naturais, em que se tem empregado a linguagem de forma instrumental, a evolução do conhecimento é evidente. Por outro lado, é evidente o atraso de outras áreas do conhecimento humano (talvez isso ocorra nas ciências sociais), onde a preocupação com a precisão terminológica tem absorvido enormes esforços. Todos têm o dever de falar de forma clara e direta, mas, talvez, o exemplo das ciências naturais deva ser copiado. Seria mais proveitoso se cada um executasse seu trabalho, formulasse e discutisse as teorias sobre o mundo de tal forma que tudo quanto fosse de importância para o conhecimento não dependesse do modo como se utilizam as palavras. (35)

A questão central da teoria do método do conhecimento racional é o problema do aumento do saber, isto é, o problema do desenvolvimento do conhecimento. Sabemos que esse tipo de problema pode ser melhor entendido se analisarmos o desenvolvimento do conhecimento científico. De forma geral, as teorias do método encontram sérias dificuldades para explicar o aumento do conhecimento científico. Elas padecem do nominalismo e do essencialismo acima caracterizados. A análise racional e crítica do conhecimento científico pode nos levar a uma melhor compreensão do enigma do mundo em que vivemos e do mistério do nosso conhecimento como parte desse mundo. (36)

O objetivo da ciência é compreender o mundo, nós mesmos e nosso conhecimento, como parte desse mundo. É encontrar explicações satisfatórias para qualquer coisa que nos impressione como necessitando de explicações. (37) Na teoria do método aqui proposta, a ciência tem por objetivo produzir "explicações satisfatórias", isto é, a ciência objetiva formular a explicação causal dos fenômenos. Nesse sentido, deverá produzir um conjunto de asserções das quais uma descreve o estado da coisa a ser explicada, enquanto as outras formam a "explicação", no sentido estrito da palavra. A explicação será "satisfatória" se construída em termos de leis universais testáveis e falseáveis, e de condições iniciais. Essa explicação será tanto mais satisfatória quanto mais altamente testáveis, e mais testadas, forem essas leis.

Nessa concepção, o conhecimento científico é dinâmico e a tarefa da ciência nunca se vê totalmente realizada. O objetivo da ciência pode ser definido em termos de encontrar explicações cada vez mais satisfatórias, mais universais e de maior precisão possível, sem jamais se deparar com explicações finais. Qualquer explicação pode ser substituída por outra mais satisfatória, pois nenhuma explicação é capaz de ser uma definição essencialista do objeto. Como não se dão definições essencialistas, não se dão explicações definitivas. As explicações satisfatórias são fundamentadas em leis universais que explicam o comportamento das coisas singulares e individuais. Todavia, não se referem, como se pensa, às propriedades essenciais inerentes à própria coisa. A análise da forma como se apresentam as leis, leva-nos a entendê-las como explicações que necessitam de maiores explicações. Elas explicam as regularidades ou similaridades de todas as coisas individuais e da totalidade dos eventos singulares. (38)

Contudo, as leis não são inerentes às coisas singulares. Elas são descrições conjecturais das propriedades estruturais de nosso próprio mundo. Essa posição é identificada como "essencialismo modificado". Embora não possamos nos referir à essência final da natureza, podemos conhecer as propriedades estruturais do mundo. Podemos aprofundar-nos e saber mais sobre as coisas. Assim, cada vez que se falseia uma conjectura, isso demonstra que estamos aumentando nosso saber. Embora não sejamos capazes de saber em que grau estamos da compreensão final do mundo, a quanto estamos da verdade, somos capazes de perceber que nossas teorias, ao serem refutadas, constituem-se de proposições genuínas sobre o mundo, pois podem "chocar-se com algo". (39)


Conclusão


A ciência tem evoluído no sentido de encontrar explicações, cada vez, mais satisfatórias. É nesse sentido que a teoria do método científico pode ser considerada “essencialismo modificado" ou "realismo". Nesta maneira de conceber as teorias racionais, estas não são descrições da essência do mundo. Também não são puras representações mentais, apenas dependentes das condições de nossos raciocínios. As teorias racionais são os instrumentos com os quais pretendemos descrever aquilo que de fato o mundo é em si mesmo. Portanto, as teorias racionais são realidades condicionadas por nossa estrutura de pensamento. Dessa forma, estão sujeitas a certas leis lógicas para sua elaboração, bem como para a definição de suas condições de validade. Contudo, como pretendemos que expliquem o mundo, também estão sujeitas a certas condições determinadas pela própria realidade. Assim, a realidade pode falsear nossas teorias. A falseabilidade, embora seja uma característica lógica do sistema de enunciados que expressa as teorias racionais, é também o elemento que determina seu caráter realista. Se nossas teorias racionais podem ser falseadas, então, de alguma forma, podem referir-se à realidade. Essa é a posição "realista", na qual está baseada toda a epistemologia popperiana. “... o alvo do cientista não é descobrir uma certeza absoluta, mas descobrir teorias cada vez melhores (ou inventar holofotes cada vez mais potentes), capazes de serem submetidas a testes cada vez mais severos (conduzindo-nos, com isso, a sempre novas experiências, que iluminam para nós). Mas isso significa que essas teorias devem ser falseáveis: é pela verificação de sua falsidade que a ciência progride.” (40)



Notas e referências



1. POPPER, KARL R. Lógica da pesquisa científica. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 56.

2. Idem, ibidem, p. 536.

3. Idem, ibidem, p. 51.

4. Idem, ibidem, pp. 52-58.

5. E. Nagel parece concordar com a posição de que o problema do método científico é, fundamentalmente, uma questão de regras. Essas regras devem ser seguidas e respeitadas por aqueles que desejam que suas conclusões sejam consideradas científicas. Ele afirma: "Por outro lado, todas as ciências empregam um método comum em suas investigações, na medida em que utilizam os mesmos princípios de avaliação da evidência; os mesmos cânones para julgar da adequação das explicações propostas e os mesmos critérios para selecionar uma dentre várias hipóteses. Em suma, método científico é a lógica geral, tácita ou explicitamente, empregada para apreciar os méritos de uma pesquisa. Convém, portanto, imaginar o método da ciência como um conjunto de normas-padrão que devem ser satisfeitas, caso se deseje que a pesquisa seja tida como adequadamente conduzida e capaz de levar a conclusões merecedoras de adesão racional". NAGEL, ERNEST. "Ciência: Natureza e objetivo", in SIDNEY MORGENBESSER (org.) Filosofia da ciência. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 19.

6. POPPER, KARL R. A lógica da pesquisa científica. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 51.

7. Idem ibidem, p. 55.

8. Idem, ibidem, p. 51.

9. Idem, A sociedade aberta e seus inimigos. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, p. 45.

10. SCIACCA, MICHELE F. História da filosofia. Vol. 1. São Paulo, Mestre Jou, 1967, p. 101.

11. POPPER, KARL R. A miséria do historicismo. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1980, p. 25.

12. Idem, A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, p. 19.

13. NAGEI, ERNEST. "Ciência: Natureza e objetivo", in SIDNEY MORGENBESSER (org.)
Filosofia da ciência. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 20.

14. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, p. 10.

15. MAGEE, BRYAN. As idéias de Popper. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1974, p. 55.

16. NAGEL, ERNEST. "Ciência: Natureza e objetivo", in SIDNEY MORGENBESSER (org.)
Filosofia da ciência. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 17.

17. SCIACCA, MICHELE F. op. cit. Vol. 111, p. 37.

18. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp,
1974, p.23.

19. Idem, ibidem, p. 23.

20. DREYFUS, HUBERT. "Husserl, Heidegger and modern existentialism", in BRYAN MAGEE. The great philosophers. Londres, BBC Books, 1986, p. 256.

21. HUSSERL, EDMOND. A filosofia como ciência do rigor. Coimbra, Atlântida, 1952, p. 17. 22. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp,1974, pp. 302-303.

23. Idem, ibidem, p. 303.

24. Idem, ibidem, p. 308.

25. ANTUNHA, H. C. GONÇALVES. "O fundamento em educação", in O Estado de S. Paulo,7.11.76, sup. cultural, pp. 10 ss.

26. PEARS, DAVID. As idéias de Wittgenstein. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1968, p. 54.

27. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, pp. 308-311.

28. WITTGENSTEIN, LUDWIG. TractatuS logico-philosophicus. São Paulo, Nacional/ Edusp, 1968, p. 54.

29. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1974, p. 310.

30. Idem, ibidem, p. 310.

31. Idem, A miséria do historicismo. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1980, p. 26.

32. Idem, ibidem, p. 26.

33. POPPER, KARL R. Realism and the aim of science: Postscript to the logic of scientific discovery. Londres, Hutchinson, 1985, pp. 1 1 1 55.

34. POPPER, KARL R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vol. 11. São Paulo, Italiaia/Edusp, 1974, p. 26.

35. BOUVERESSE, RENÉE. Karl Popper. Paris, Vrin, 1978, p. 59.

36. POPPER, KARL R. Conhecimento objetivo. São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1975, p. 180.

37. E. Nagel parece concordar com essa posição de Popper. Ele afirma: "É de importância primordial, entretanto, encarar esses sistemas explicativos não como corpo de conclusões fixas e indubitáveis, mas como resultados não definitivos de um contínuo processo de investigação, que envolve incessante uso de um particular método intelectual de crítica. Esse método lógico é a glória específica da ciência moderna e o alicerce espiritual de toda civilização genuinamente liberal. Nada pode substituí-lo na tarefa de atingir conclusões fundadas acerca do mundo em que os homens vivem e do lugar que nele ocupam". NAGEL, ERNEST. op. cit., p. 24.

38. POPPER, KARL R. Conhecimento objetivo. São Pauto, Italiaia/Edusp, 1975, p. 184.

39. Idem, ibidem, p. 190.

40. Idem, ibidem, p. 332.

10 comentários:

Prof. Luis A. Peluso disse...

Caros Alunos,
Após ler o texto, elabore um comentário de 15 linhas e envie para conhecimento de todos.

Lucas R. P. disse...

O essencialismo ou intuicionismo é uma teoria do método científico que tem como intuito a descrição da essência da natureza e dos seus fenômenos. Através de um processo lógico tenta-se formular e responder perguntas além de estudar o que é progresso científico.
Para Aristóteles o método científico é a dedução, a linguagem torna-se mais precisa pelo uso de definições, e a essência do conhecimento é adquirida pela intuição.
O cientista diante de um problema deve interpretar-lo, definir o que e quais são os elementos fundamentais, e a partir da abstração formar conceitos, que no decorrer do processo ficam cada vez mais abrangentes. Ao se considerar uma determinada teoria, observa-se que nesta encontram-se premissas que são auto-evidentes (axiomas) pelas quais outras premissas e enunciados são formulados.
Quanto a Husserl, ao falar sobre ciência eidética, ao analisar certo fato, deve-se ter imparcialidade e seguir apenas a lógica para alcançar as essências universais.
Wittgenstein havia elaborado o Tractatus logico-philosophicus, no qual defendia a teoria nominalista(que tem caráter essencialista), onde “as limitações da linguagem são decorrentes de sua própria estrutura interna.”. Todavia descartou essa idéia e passou a defender que “nossa linguagem é que determina a estrutura da realidade, pois é pela linguagem que vemos as coisas.” Defende que “com proposições sem sentido chegam-se a verdade”. As condições dos enunciados de Wittgenstein não são paradoxais, mas auto-contraditórios ou falsos.
Dentre os problemas encontrados por Popper com relação a Wittgenstein estão: A proposição desta teoria implica em sua falsidade por ela mesma já que a falta de significado não é sem significado, mas falsa;Ela é dogmática uma vez que ao criticá-la este argumento será filosófico, insensato e portanto falso, o que evidencia a irrefutabilidade da teoria de Wittgenstein.
Outro grande problema encontrado é que como as teorias cientificas são hipotéticas, não se pode saber se são realmente válidas e não se pode classificá-las como parte da ciência natural(segundo Wittgenstein a ciência das essências) , então são consideradas como metafísicas.
Assim a teoria de Wittgenstein nem ao menos seria considerada ciência do ponto de vista de Popper.
Percebe-se que a linguagem deve ser utilizada apenas de forma a minimizar ambigüidades e as palavras devem ter sentido mais preciso e essencial possível, sem a necessidade de ficar definindo cada termo para iniciar um argumento científico.
Nota-se, portanto que o essencialismo tem em seu centro a idéia de que pode-se chegar a uma explicação categórica sobre a realidade, e que poderia esclarecer sobre o aumento do conhecimento (o que não ocorre satisfatóriamente principalmente nas ciências sociais).Porém a ciência moderna tem como priori não mais chegar à verdade universal, ou explicar qual o grau de conhecimento estamos, mas a uma melhoria ao se perguntar e ao se responder sobre a realidade.

ney carvalho disse...

Os textos apresentados demonstram, e apresentam alguns aspectos e idéias de alguns filósofos e pensadores, como Nagel, Hegel,Aristóteles, Hussel e Wittgenstein, que podem ser caracterizadas como tentativas de explicar alguns aspectos relacionados a metodologia utilizada na ciência .
O desenvolvimento de regras metodológicas se faz necessário com uma interpretação critica da ciência e um enunciado compreensível, passível de substituições, em uma determinada teoria cientifica.
Diferentes formas de interpretações da ciência podem resultar em diferentes regras metodológicas , mantendo o aspecto conjectural da ciência, esse aspecto pode ser identificado como essencialismo modificado.
A ciência moderna mantêm o seu aspecto hipotético e presuntivas , não garantindo a veracidade das sentenças para aplicação dos métodos científicos ,faz-se necessário adotar incertezas cientificas para se ter um progresso cientifico.
Outro aspecto mostrado é a escola de pensadores essencialistas , baseado em Aristóteles, pondo-se em analisar a essência das coisas, como principal requisito e a partir daí poder explicá-las.
Um ponto discutido por Wittgenstei, é a importância da linguagem cientifica dentro das teorias, sendo necessário introduzir novos termos e conceitos na definição de novas teorias.
Wittgenstein tenta traçar um limite entre proposições verdadeiras, falsas e sem sentido ou absurdas, não descreve as proposições filosóficas, segundo ele a filosofia não é proposição nem formulação, e sim esclarecimento lógico dos pensamentos, responsável pelo limite contestável das ciências naturais.

Giu disse...

O conflito indireto entre as escolas hermenêutica e analítica começa a ser feita., porém não definindo uma divisão clara entre as mesmas. A maneira de uma de sempre observar a ciência como algo que pode ser enquadrado a partir de regras metodológicas ou convenções ou o fato da necessidade de uma linguagem clara e concisa. Começa então a ser discutido os limites sobre a veracidade dos métodos.
O essencialismo ou intuicionismo, por exemplo, torna arbitrária a noção de verdade trazendo a imposição de um limite quanto à crença nos mesmos.
Nessa mesma discussão entra Wittgenstein que acreditava inicialmente que as proposições são ou verdadeiras, ou falsas, ou proposições sem sentido. Fazendo- o tentar traçar um limite, em nossa linguagem, entre o absurdo e o sensato.
O mesmo ainda fala sobre proposições e sua relação com o empirismo e o mundo dizendo que todas as proposições, para serem verdadeiras, devem referir-se direta ou indiretamente a uma constatação empírica, por meio de proposições derivadas logicamente das primeiras.
Após esses fatos, Wittgenstein começa a analisar a ciência de outra forma e percebe que é possível, por meio de enunciados insensatos ou sem sentido a elaboração de proposições altamente significativas ou mesmo, uma verdade intocável. Porém quando este descreve as condições da significação de um enunciado, por meio de uma proposição que não satisfaz essas condições cita, por conseqüência, uma proposição auto-contraditória ou falsa.
Então, no intuito da separação ainda entre ciência e não-ciência, Wittgenstein da a idéia da ciência como a totalidade das proposições verdadeiras, excluindo proposições de caráter hipotético, trazendo a critica de Popper e a definição de que teorias e hipóteses pertençam ao conjunto da metafísica.
Então, os problemas anteriormente citados de expressão e linguagem começam a se tornar simples contando com o cuidado contínuo dos cientistas ao enunciar as sentenças de modo que sejam perfeitamente delineadas.
Com isso, pode-se definir o objetivo da ciência como o de compreender o mundo, nós mesmos e nosso conhecimento, como parte desse mundo. A ciência busca explicações cada vez mais satisfatórias e é construída em termos de leis universais testáveis e falseáveis, e de condições iniciais.
O acima se denomina "essencialismo modificado" e embora não possamos nos referir à essência final da natureza, podemos conhecer as propriedades estruturais do mundo, nunca sabendo, porém, em que grau estamos da compreensão final do mesmo.

analuizavalle disse...

Através do texto pode-se dizer que a concepção de regras metodológicas é conseqüência de uma interpretação crítica da ciência. Logo, pode-se afirmar que o método científico dita as regras do jogo da ciência empírica.
A definição destas regras metodológicas depende da composição de uma teoria da ciência, portanto podemos interpretar a ciência de formas variadas, gerando diferentes propostas de regras metodológicas.
O intuito é entender o universo ao nosso redor e para isto contaríamos com meios variados para se chegar a um resultado.
Várias teorias de métodos surgiram e Popper confrontou com algumas destas teorias, entre elas a de Wittgenstein que chegou a não considerá-la ciência por ser contraditória.
A falseabilidade é o elemento que determina o caráter realista destas teorias racionais. Se estas podem ser falseáveis, então, podem referir-se à realidade.

Caio disse...

As críticas de Popper ao essencialismo e a Wittgenstein são muito bem fundamentadas ao meu ver e mostram como o assunto é complexo e difícil de ser resolvido. A crença de que existe uma verdade, uma essencia nas coisas é um tanto quanto dogmática, e não sustentável. Wittgenstein propõe teorias bem interessantes sobre a influência da linguagem mas os argumentos de Popper parecem muito mais sólidos. Além disso ele também apresenta um caráter dogmático quando nega a validade da filosofia.
Popper é muito prudente ao considerar que as teorias racionais, embora talvez boas para representar o mundo, estã condicionadas a nossa estrutura de pensamento, e, portanto, talvez não se representem a maneira como o universo funciona (se é que tal maneira existe). No entanto seu argumento de que se nossas teorias racionais são falseadas então talvez, de alguma forma, elas possam se referir sobre o mundo.

Alessandra disse...

O uso do essencialismo, para o método do conhecimento científico, não traz desenvolvimento ou evolução. Para Aristóteles existe uma identificação clara entre o termo, a essência, e o significado, mas para a ciência moderna, as definições não passam de meros rótulos. A concepção do essencialismo pede que os enunciados básicos sejam auto-evidentes e necessariamente verdadeiros, apesar de em certas épocas serem totalmente modificados pela adequação de novas descobertas.
A intuição intelectual tenta alcançar as essências e perfeições das coisas, indo contra a lógica tradicional que demonstra que deve haver uma distinção entre real e ideal, esse fato compromete atingir a essência, mas a lógica dialética nega a contradição, permitindo que uma tese e sua antítese não se excluam.
Para captar a ciência das essências devemos dirigir uma intuição essencial e científica da consciência, nos desfazendo do conteúdo da consciência (no psicológico e existência individual) para chegarmos na consicência irredutível das essências universais. A intuição intelectual não garante veracidade no enunciado, falta de falsidade não garante veracidade, a intuição que leva um a verdade pode levar outro à falsidade. O essencialismo, nesse segmento, nos leva a duas opções: a sua verdade é única e do seu opositor é falsa ou ambas são verídicas. Assim temos que toda premissa é verdade ou coerente se correta, assim é impossível construir um enunciado falso.
Wittgenstein nos diz que as preposições são verdadeiras, falsas ou sem sentido. Assim um filósofo não deve formular proposições, mas esclarecê-las. A proposição está em função das proposições básicas verdadeiras e podem ser verificadas empiricamente. Logicamente, as proposições derivadas destas também são verdadeiras. Assim Wittgenstein admite que pode-se transmitir a verdade por enunciados sem sentido. Para Popper esta teoria é contraditória (tem valor falso), juntando-se à insensatez meta-física e ignorando a hipótese científica.
A intuição capta o conhecimento que expressa aquilo que de fato o é, assim o essencialismo metodológico implica num otimismo epistemológico acreditando que as coisas tem uma essência permanente. A ciência não pode depender somente dos significados, ela não é decorrente de definições, a linguagem é um instrumento da ciência e o importante é o uso que se faz dela. O centro da teoria do método racional é o problema do aumento do saber, para ser bem entendido devemos analisar o desenvolvimento do método do conhecimento científico. O objetivo da ciência é encontrar explicações cada vez melhores em questão de satisfação, universalidade e precisão, e sempre aberta a evoluções ou subtituições por teorias mais satisfatórias. Cada vez que se falseia uma conjetura, por obviamente substituição de outra, mostrando que aumentamos o nosso saber.

Israel Ribeiro disse...

O texto trata de um assunto interessantíssimo no que se refere ao método investigativo para a construção do conhecimento.
Um dos fatores para se caracterizar a ciência é a existência de uma lógica, instrumento importante a fim de analisar ao menos se uma teoria é verossímil, bem como discriminar teorias, a indentificar as mais válidas.
A lógica, entretanto, se vale bastante da intuição. A construção do conhecimento, entretanto, não valida o uso da intuição, vez que esta é também usada em outras formas de conhecimento não científicos.
A explanação de uma teoria requer clareza e abrangência, a considerar os diversos fatores nela envolvidos. Uma teoria frequentemente depende de outras teorias e análises, a tender as explanações ao infinito.Entendi que a tal nível, a lógica usada na construção da ciência é importante a fim de delimitar as explanações, sem com isso ignorar outras variáveis, mas sim a não analisá-las por nem sempre haver necessidade, dependendo da problemática da qual a teoria em construção trata.

Rodrigo disse...

Para Popper as teorias sobre o método do conhecimento científico podem ser vistas de duas formas: uma analisando as relações entre os enunciados científicos, e outra expressando a preocupação com a própria da natureza da ciência. A primeira as teorias científicas tentam descrever a estrutura lógica das explicações dadas à ciência. A segunda da soluções a respeito dos problemas científicos e falam de progresso na ciência; e ainda estabelecendo objetivos para as características que devem compor os enunciados científicos. Com isso, a teoria sobre o método científico constitui-se no método das relações lógicas de um sistema de enunciados. Para isso, a teoria é útil na avaliação dos critérios para se escolher o enunciado correto. Assim, ela não se preocupa com o aspecto dinâmico da ciência.
Popper diz, que os métodos de análise lógica e também o lingüístico não são suficientes para que um filósofo possa utilizá-los como vantagem, não sendo melhores que uma investigação racional ou científica. Logo, a lógica da pesquisa científica procurar definir regras para orientação do cientista no trabalho de pesquisa. Daí se formou regras metodológicas para discutirmos a concepção crítica da ciência. Dentre elas estão: o de não proteger contra falseamento de qualquer enunciado científico; a ciência não pode ser definitiva, portanto ela é um principio interminável; e por último, a hipótese provada só pode ser substituída por falseamento ou outra com maior poder explicativo.
A teoria essencialista do método científico apresentava-se sobre duas doutrinas: a primeira era a doutrina esotérica da intuição intelectual que fala que podemos alcançar as essências e produzir a definição perfeita das coisas. A segunda era a doutrina da necessidade de “definir nossas palavras” através da linguagem. A primeira foi seguida por Husserl que propôs que as essências das coisas são dadas ao pensamento e este as revela. A segunda foi defendida por Wittgenstein que através de sua teoria nominalista propõe a necessidade de se definir palavras, através do estudo da estrutura e dos limites do pensamento pelo método da estrutura e limites da linguagem. E também afirma que toda proposição verdadeira é toda ciência da natureza, sendo o resto considerado absurdo.
Ambas as teorias propostas por Husserl e Wittgenstein foram negadas por Popper, discordando em relação ao caráter essencialista delas no que se refere à natureza das teorias racionais. Popper construiu sua teoria do método com base no problema do desenvolvimento do conhecimento, isto é, a questão central da teoria do método do conhecimento racional é o problema do aumento do saber.
No caso de Popper, ele argumenta sua teoria no sentido daquilo que ele chama de “essencialismo modificado” ou “realismo”. Ela não significa a essência do mundo, nem representações mentais, apenas dependentes das condições de nossos raciocínios e da própria realidade, o que acarreta no falseamento de nossas teorias. Assim Popper assume a posição de que o objetivo do cientista não é descobrir a certeza absoluta, mas descobrir teorias cada vez melhores, capazes de serem submetidos a teste mais severos. Logo, elas podem ser falseadas e através de sua verificação que a ciência progride.

Renato disse...

É fascinante a forma como, há milhares de anos o ser humano tenta entender sua própria capacidade de entender o método científico e a forma "Lógica" de pensar. É nova pra mim a idéia de "essencialismo", ou seja, intuir o básico, o essencial de alguma coisa e a partir dai "destrinchar" as suas individualidades e particularidades, a fim de estudar algo mais a fundo, ou à sua própria essência, de fato. Também me surpreendeu a forma como Wittgenstein defendia a teoria nominalista. Uma teoria que não aceita contradições do seu ponto de vista, chegando a ser até paradoxal. Mas, após conhecer melhor outras teorias de outros pensadores, fica cada vez mais claro o que Popper assume: "A falseabilidade, embora seja uma característica lógica do sistema de enunciados que expressa as teorias racionais, é também o elemento que determina seu caráter realista. Se nossas teorias racionais podem ser falseadas, então, de alguma forma, podem referir-se à realidade. "